Ensaio

Os protagonistas e suas faces na trama

00:00 · 08.11.2013
Os personagens de Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas Ordinária têm suas ações baseadas na frase dita por Edgard e como cada um reage a isso. A frase, ao longo da peça, é repetida 40 vezes, para exaltar a reação dessas personagens. Edgard, Doutor Werneck, Peixoto, Ritinha e Maria Cecília são as personagens centrais da trama que irão passar diferentes aspectos nesta frase.

O protagonista desta trama, Edgard, fica em um dilema moral, mostrando a dúvida do homem diante de suas ações e as tentações que se interpõem em seu caminho, evocando o arquétipo cristão do primeiro casal que foi seduzido pelo fruto proibido, perdendo o paraíso consequentemente. Nisso Edgard fica balançando entre Ritinha e Ana Cecília, não tendo convicção de qual decisão tomar, decidindo-se apenas no final, graças à intervenção do Peixoto.

Niilismo

Peixoto é o personagem que incorpora a frase ao seu estilo de vida, tentando influenciar mefistofelicamente Edgard para aceitar o acordo. Uma personagem que não se convence da existência de um homem honesto, colocando todas as pessoas no mesmo nível ao dizer "Se não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte." Completamente degradado pelo dinheiro, não liga se sua esposa o trai desde que lhe compre um carro novo. Isso vai se alterando ao longo da trama, devido a dois fatores, ao seu amor por Ana Cecília e ao fato de ver em Edgard um homem bom, fazendo-o ver a tamanha hediondez que se tornou. Nisso, dá indícios a Edgard que havia algo de errado na família de Werneck que "Toda família começa apodrecer por dentro." Sem salvação alguma, mata Maria Cecília e comete suicídio para poder purgar o seu mal.

Doutor Heitor Werneck é parecido em vários pontos com Peixoto, mas se distingue pelo ponto que, dentro de sua hediondez, há um homem bom que apenas a sua esposa enxerga. Werneck, segundo Sábato Magaldi, é a personagem mais vigorosa da peça, por sua "lucidez franca em utilizar as regras do jogo" (Magaldi, p.108), representando o mundo Grã-Fino, onde o dinheiro pode tudo.

Fatalismo

Há um momento na cena da festa, que Werneck revela o motivo de se comportar daquela forma tão asquerosa, ao dizer o seguinte: "Um momento. Quero dizer o seguinte. Cala a boca. Esse negócio de guerra nuclear. Sei lá se daqui 15 minutos. 15 minutos. Vou levar um foguete russo pela cara. Estou dando adeus. Adeus a minha classe, ao meu dinheiro. Estou me despedindo. Posso ser, de repente, uma Hiroshima. Hiroshima, eu. Eu, Nagasaki. Portanto, hoje vale tudo! Tudo!" Isso demonstra que todos os atos de Werneck se baseiam no fato de que o homem não tem controle sobre o seu destino, uma vez que ele não tem controle, pode-se fazer qualquer ato, já que tudo irá acabar. Quando percebe que fez algo monstruoso, que foi pagar o estupro das três irmãs durante a festa, começa a chorar nos braços da esposa perguntando "Sou um homem bom?", demonstrando que dentro de sua pusilanimidade existe uma consciência moral.

A reação de Ritinha à moralidade dessa frase se dá na forma em que procura proteger a sua família, tendo de se prostituir para sustentá-la, mesmo que isso degrade a sua dignidade. Ela é forçada a essa situação devido ao processo da empresa contra a mãe, que é acusada de desviar dinheiro, e um dos patrões, que prometeu retirar o processo, caso Ritinha cedesse o seu corpo. Ela faz isso, mas o empregador não cumpre com sua palavra, que a obriga a pagar a indenização e sustentar a família sozinha.

Nesta situação, Ritinha lança de qualquer meio para cuidar de suas irmãs e da mãe enlouquecida. Quando sua família não precisar mais dela, o desejo de Ritinha é morrer queimada para apagar essa humilhação, mas em contra ponto, guarda o seu prazer sexual, o seu amor, apenas para Edgard. Só a bela Maria Cecília se revela a Ordinária do título, sua aparência atraente escondia uma natureza que incorpora por completo a frase do Otto. Ela tem relações com o marido da irmã, Peixoto, e faz este arranjar cinco homens negros para currá-la, tendo ele mesmo como observador. Uma mulher que usa aos outros sem se importar com a dor que causa. No final, Peixoto a mata por saber que amava uma mulher perversa e se mata por não aguentar mais a consciência de sua indelével degradação (A. L. B.)

SAIBA MAIS

CASTRO, Ruy. O Anjo Pornográfico. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
RODRIGUES, Nelson. A Menina Sem Estrela: Memórias. 3 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
MAGALD, Sábato. Nelson Rodrigues: Teatro Completo. 2 ed.
Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 2003.

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