Ensaio

Os mistérios da imagem da mulher

01:03 · 14.09.2013
A oposição prosódica entre a paroxítona homem e a oxítona mulher corrobora a imagem de poder da mulher sobre os desejos do homem. No ritmo da frase, o efeito é possibilitado por conta do enfraquecimento e apagamento da última sílaba de homem e da intensificação da de mulher.

A inversão hiperbática do sujeito posto ao fim da frase enfatiza o entendimento de mulher, cujo sentido é edificado e consagrado, quase transformando-o em essência sobrenatural, bem ao gosto romântico; outrossim, a abstração do substantivo concreto mulher com o uso da singularização, ao referir-se a todas mulheres.

Vasos comunicantes

O signo mulher, dessa forma, ao fechar a frase, amplia o sentido prosaico de mulher para um sentido místico, poderoso. O que corrobora a intenção estilística de José de Alencar, ao tentar sentir e entendê-la a alma das mulheres. "Escolhe cada passo com critério de corpo, e que portanto caminha mais com orgulho que com direção", escrevera Chico Buarque em Estorvo.

A natureza passional e apaixonada da alma misteriosa da mulher como tema e matéria na produção estilística da obra literária do escritor dos estranhos dramas modernos encerra-se nesta frase. É construída num formato discursivo lógico-dedutivo, com a apresentação de uma premissa dada, da qual chega-se à uma conclusão, o que se confirma pelo uso expletivo do conectivo e que e do enfático do portanto. Esta aparência formal científica entra em conflito com o sentido profundo emocional da frase. A relação, portanto, entre o conteúdo e a forma da sentença é tensa. Tal tensão no plano do enunciado deflagra o assombro no da enunciação.

Recursos expressivos

A admiração causada e compartilhada entre os interlocutores, narrador e leitores, cria-se também a partir dessa construção especial da frase. Assumidos de um ponto de vista estrito, estes interlocutores contrastam com o comportamento libertário da mulher.

A oposição entre racionalidade e emotividade constrói-se com outras antíteses, como a dos signos orgulho x direção. O signo critério, por sua vez, tem uso estilístico porque configura-se com um sentido novo, paradoxal, quando deixa o campo semântico da racionalidade para o da emotividade, ao ser apropriado pela mulher. Esta palavra a priori faria parte do discurso dos outros dois.

Esta apropriação implica uma expropriação uma vez que os anteriores detentores do termo, não o têm mais. O domínio passa as mãos da mulher. Por conta disso, ao paroxismo chegue o espanto dos interlocutores diante de tal constatação expressa na frase. Ratifica-se a construção estilística da frase em torno das figuras paradoxo e antítese.

A superação da racionalidade pela emotividade, ou dos interlocutores pela mulher é enfatizada pelo uso do verbo escolher, que sugere domínio da situação, poder sobre sua decisão, já que não apenas caminha por caminhar, e sim escolhe, então, como caminhar a seu bel prazer.

Os encantamentos

Embora seja mais conhecido na área da psicologia da linguagem, linguística e pedagogia, Vigotsky dedicou-se aos estudos da literatura e neles do estilo. Em um de seus trabalhos cita: (Texto III)

As análises das duas frases são uma pequena mostra de quantos segredos artísticos se escondem por trás das palavras de uma boa literatura. No que não se diz, nas outras palavras, não evidentes, está a arte literária, daí a singularidade do estranhamento que provoca no leitor.

Dos teóricos

Cristal e Davy estudam as variedades, quer da língua falada, quer da língua escrita, adequadas às diferentes situações e próprias de diferentes classes sociais, para estes a estilística assemelha-se à sociolinguística. Como na corrente de Bally os estudos literários são postos de lado mas por estar destinado a etapa posterior dado sua complexidade em relação aos textos da linguagem comum.

Os desvios da linguagem

A estilística literária de Leo Spitzer é idealista por se prender à filosofia de Crooce e Vossler; psicológica, voltando-se para a psicologia do escritor e genética, pois busca a origem da obra. Sua reflexão é de cunho psicológico sobre os desvios da linguagem em relação ao uso comum. Spitzer concebeu um método que chamou de círculo filológico.

Mais caminhos

Outro teórico é Auerbach. Conforme Aguiar e Silva: "em vez do nexo entre estilo e sentimento que encontramos na teoria sptzeriana, aparece em Auerbach a vinculação entre estilo e ideologia".

Estuda também Damaso Alonso, na estilística literária, para quem toda a obra literária encerra um mistério e sua compreensão depende basicamente da intuição, podendo-se, entretanto, estudar cientificamente os elementos linguísticos. Distingue - como um caminho bem nítido - um modo de entender centrado no leitor comum, outro no crítico e um no cientista da estilística. (M. R. S. )

Trechos

TEXTO III


em pesquisa minuciosa, que logo ganhou grande notoriedade, Meyer mostrou com plenitude que o próprio material usado pela poesia exclui a representação evidente e por imagem daquilo que ela retrata, e definiu a poesia como ´arte da representação verbal não evidente

TEXTO IV

um objeto que o poeta faz e o ato de sua realização é conseqüência de certas emoções. O leitor que encontra esse objeto reconhece seu valor com objeto estético observando o impacto que tem sobre suas próprias emoções quando o estuda de perto". (Olsen, 1979, P.51)

SAIBA MAIS

ALENCAR, José de. Iracema.

FTD, 1992

BUARQUE, Chico. Estorvo. São Paulo: Círculo do livro, 1991

DUARTE. Paulo Mosânio Teixeira. Fato de estilo: uma questão em aberto. Rev. De Letras - vol. 18 - n. 2 - jul/dez, 1996.

IVIC, Ivan. Lev Semionovich Viygotsky / Ivan Ivic; Edgar Pereira Coelho (org.) - Recife:

Massagana, 2010.

MARTINS. Nilce Sant´Anna. Introdução à estilística: a expressividade na língua portuguesa. São Paulo:

T.A.Queiroz: 2000

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