ensaio

Os jogos da intertextualidade

00:00 · 18.10.2013
A crônica de Silas Falcão é tributária de vários escritores. Rubem Alves, Carlos Drummond de Andrade, Moreira Campos, Batista de Lima, Fernando Sabino, todos esses indelevelmente impressos na cronística do autor cearense. Mas nenhum escritor encontra-se mais entranhado na obra Por quem somos? que o contista, ensaísta e cronista Milton Dias, autor dos clássicos Entre a boca da noite e a madrugada, Relembranças e As cunhãs. Ao longo das crônicas, o "dialogismo" é constante especialmente com Relembranças. Silas Falcão menciona o natal na crônica "O morto que demora a morrer" e em "O brinquedo", um tema comum nos textos miltonianos como em "O mendigo e o natal", "Pelo natal de 1936", ambas escritas em Relembranças. A volta ao passado é outra temática compartilhada por ambos os cronistas: "infância", "Os contos de brinquedo", "Quando era ontem" e "Meus 52 anos", todos de Silas Falcão e numa estreita intertextualidade com "O país da infância", "Um artista frustrado", "A professora", "Colégio", "Se o pai voltasse", "Férias" e várias outras crônicas de Relembranças. Outros textos revelam mais explicitamente sua "polifonia", a existência de outras "vozes" no discurso, sendo que dentre essas prepondera a voz inconfundível do cronista da Rua Coronel Ferraz. Comparemos, pois, "Meus 52 anos", "A ilha", "Quando era ontem" com "Onde eu vejo a minha idade", "Voltei à ilha" e "Viagem à Praça do Ferreira", essas últimas, da obra Relembranças. Como não pensar, de igual modo, no livro Cartas sem resposta ao lermos "Brasil viúvo" e "Alquimia", crônicas em formato de cartas, escritas e endereçadas a ex-primeira dama Dona Marisa Letícia, e ao tal "Seu deputado"?

Das influências

Apesar dos sugeridos atravessamentos intertextuais na forma, na realidade concreta do texto, a maior influência miltoniana na crônica de Silas Falcão refere-se não à expressão, mas ao seu conteúdo, ao que está expresso nos textos, à realidade abstrata carreada pela forma, isto é, o altíssimo lirismo, a capacidade do auto-desnudamento desconstrangido e sem receio de ser julgado deveras piegas, a coragem de expor sua paisagem interior, seus sentimentos, suas saudades, a incurável nostalgia casimiriana (Casimiro de Abreu, "poeta da saudade"), suas opiniões, suas preocupações, enfim, a si mesmo.

Existem outras inumeráveis intertextualidades que a princípio não destacamos, mas que ao longo de leituras e releituras da obra emergirão naturalmente à superfície enriquecendo ainda mais o processo de leitura e fruição dos textos.

Para reflexões

Tencionamos analisar e comentar a cronística presente na obra Por quem somos?, do pesquisador e escritor cearense Silas Falcão, e as relações de intertextualidade existentes dentro da obra, sobretudo, com a obra de Milton Dias. Vimos, outrossim, que tal relação dialógica se estabelece mais fortemente com Relembranças. Tanto na forma quanto no conteúdo, no que se refere à sua expressão e ao que a obra expressa, vislumbramos a influência miltoniana estendida ao longo dos textos.

Tentamos pensar a obra Por quem somos? à luz da origem, do conceito e da história do gênero crônica aqui no Brasil. Quais seus principais representantes? Como tais escritores contribuíram para a difusão e consequente celebrização desse gênero? Qual a relação da crônica com o jornal? Em que momento ambos se desprendem e no que resultou, enfim, o referido divórcio? Todas as problematizações supracitas serviram de aporte teórico para nossa análise. A medida da nossa reflexão sobre as questões mencionadas, de certo modo, metamorfoseia-se na medida da nossa reflexão sobre a obra de Silas Falcão. Assim nos posicionamos por uma razão muito simples: a crônica é o universo no qual está inserido o livro " Por quem somos?".

Considerações finais

Com essa obra, mesmo sendo ainda sua primeira publicação, Silas Falcão se insere na literatura para dela nunca mais sair, pois o que escrevemos pode até cair no esquecimento, porém jamais apagado. Eis a força da palavra escrita, registrada.

Com este Por quem somos?, Silas Falcão lançou a semente do seu estatuto da subjetividade, expressão que ele faz questão de realçar, espécie de carimbo da sua postura no mundo Por quem somos? Pela velhice dos sonhos? Ou pela consciência da paz, da alegria, das simples verdades da vida? Por quem somos? Pela ausência da literatura que nos livra da nossa própria estupidez? Ou pela inércia da justiça humana diante dos gritos dos inocentes, dos que necessitam do alvará de soltura social? Em tempos tão escatológicos, vale a pena falar de sensibilidade, de amor? O autor acredita que sim, e oferece a deixa: "cada um sabe o coração que tem."" (VAZCONCELOS apud FALCÃO, 2010). (F. G. R. )

SAIBA MAIS

AMORA, Antônio Soares. Introdução à Teoria da Literatura. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.

DIAS, Milton. Relembranças. Fortaleza: UFC Edições, 2000.

EAGLETON, Terry. Teoria da Literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

FALCÃO, Silas. Por quem somos? Fortaleza: Premius Editora, 2010.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.