Literatura

Os exploradores do presente

22:35 · 02.06.2012
Tidos como futurólogos, os autores de "sci-fi" se ocupam da crítica de seu tempo - desde as origens do gênero

Ursula Le Guin é alguém que entende do ofício de escrever histórias de ficção científica. A escritora, norte-americana, tem mais de uma dezena de livros do gênero publicados. Portanto, é difícil ignorar sua opinião quando discorre sobre a natureza de seu campo de produção. Na introdução de "A Mão Esquerda da Escuridão" (seu livro mais conhecido, disponível no Brasil pela editora Aleph), ela é categórica - "a ficção científica não prescreve, descreve".

Ilustrações do livro "A História Verdadeira", assinadas por Alexandre Camanho

A máxima de Le Guin confronta as avaliações pouco argutas, que tomam as narrativas futuristas (apenas uma das vertentes da ficção científica) por tentativas de adivinhar os fatos vindouros. O certo é que, de fato, não faltam na história do gênero imaginações capazes de conceber tecnologias e configurações sociais que só mais tarde seriam possíveis de ser realizadas.

É o caso de um esboço de internet que figura no romance "Ubik", do norte-americano Philip K. Dick. Na história, os personagens dispõem em ambientes domésticos de uma máquina que imprime uma série personalizada de notícias, conforme as preferências fornecidas pelo próprio leitor.

Também se encaixa neste grupo de futurólogos o baiano (e cearense de coração) Rodolfo Teófilo, que, em seu romance "O Reino de Kiato" (1922), imagina maravilhas que a eletricidade só mais tarde possibilitaria, como o ferro elétrico e os painéis eletrônicos (leia mais na página XX).

No entanto, o modelo descrito por Le Guin, da ficção científica como um retrato do presente, é, certamente, bem mais abrangente. É difícil encontrar, no gênero, quem não tenha se concentrado em falar de seu próprio tempo, de seu próprio espaço. O procedimento mais comum entre escritores (e quadrinistas, cineastas e qualquer outro narrador que trabalhe com o gênero) é tomar alguma tendência contemporânea de exagerá-la, como uma crítica aos rumos que se está tomando.


Origens

A relação entre a ficção científica e a crítica social é fundada no momento mesmo da origem do novo gênero. Se tomarmos por marco inicial desta nova literatura "A História Verdadeira", escrita por Luciano de Samosata no século II da Era Cristã, encontraremos uma narrativa que trata de feitos impossíveis ao conhecimento humano à época, mas tendo por alvo os costumes e a literatura dos contemporâneos do autor.

O livro resistiu bem o tempo, e pode ser lido em português numa edição da Ateliê Editorial, com tradução de Gustavo Piqueira e ilustrações de Alexandre Camanho, Carlos José Gama e Jaca. A bela edição torna o livro um item obrigatório nas coleções dos amantes das letras da Antiguidade e, claro, da Fantasia e da Ficção Científica.

"A História Verdadeira" traz uma série de episódios que se desencadeiam a partir da viagem de uma nau pelos ares, alcançando a Lua. Luciano sonhou em chegar ao satélite natural da Terra quase 2 mil anos antes da Apollo XI alunissar e assistir aos primeiros e espetaculares passos do homem no deserto lunar. Cenário radicalmente oposto ao concebido pelo escritor persa: a Lua por ele imaginada era habitada por civilizações inteligentes (ainda que não muito espertas), povoada por seres fisicamente distinto dos homens (ainda que espiritualmente idênticos a nós).

Luciano não estava preocupado em especular sobre o que o gênio humano seria capaz de fazer, mas do que as vaidades e humores dos homens de seu tempo, efetivamente, já faziam. Assim, o livro - que não pode ser considerado um romance a despeito de sua extensão, por conta de sua irregularidade sequencial - pode ser incluído na tradição da sátira. Mas uma sátira que não se contentou com esse mundo, como a pensar que outros seriam possíveis - ainda que não mais felizes que o nosso.

A obra influenciou autores como o escritor irlandês Jonathan Swift, associado à literatura fantástica por suas "Viagens de Gulliver", igualmente satíricas; e o filósofo francês Voltaire (cuja máxima dizia que o riso castigaria os imorais), que também se aventurou pelos caminhos desta crítica cujas vestes são as da ficção.

Rumo ao astro cor de prata

Ainda que seja considerado por muitos o criador deste novo gênero, ou eu precursor mais antigo, o livro de Luciano não foi capaz de estabelecer uma tradição. Até as últimas décadas do século XIX, a história da ficção científica é irregular, recebendo aqui e ali algum acréscimo. E, neste grupo de precursores, não faltaram aqueles que ousaram repetir a aventura de Luciano de Samossata. Voltaire e Cyrano de Bergerac, por exemplo, também enviaram seus personagens para a Lua e, de lá, estes trouxeram impressões distintas dos selenitas (como os habitantes da Lua são conhecidos).

Voltaire escreveu "Micrômegas", texto difícil de descrever, mas correntemente chamado de "conto-filosófico". Nele, o protagonista Micrômegas é um ser gigante de um planeta infinitamente distante do nosso. Acompanhado de um ser de outro planeta, gigante viaja pelo espaço e precisa passar pela Lua, antes de alcançar a Terra - aqui, ele segura uma caravela na palma de sua mão e compara suas dimensões a uma das unhas de sua mão. Voltaire até abdica de seu corrente humor ferino na narrativa, mas a usa para refletir sobre as diferenças e coincidências entre os homens e os povos.

Já Cyrano, como Luciano, concentra sua exploração na Lua. Em "Viagem á Lua" (mesmo título que ganharia, em 1902, o primeiro filme de ficção científica, dirigido pelo ilusionista francês Georges Méliès), Cyrano narra, em primeira pessoa, uma viagem ao astro prateado. Lá, o espadachim francês conheceu os povos selenitas e até se envolveu em seus conflitos. Na fantasia, combatia criaturas que, à despeito de suas aparentes diferenças, eram em quase tudo semelhantes aos (muitos) inimigos que o autor cultivou em seu tempo.

Explosão cósmica

Em fins do século XIX, o francês Jules Verne e o inglês H. G. Wells deram impulso a uma literatura que bebia da fonte do fantástico, para recriá-lo a partir do fascínio que, desde a Revolução Industrial, fascinava os homens. Em seus livros, o homem foi à Lua, mais uma vez, mas também alcançou o centro da Terra e os abismos dos oceanos; recebeu a visita pouco amistosa de raças de outros mundos e criou máquinas incríveis, fórmulas que permitiam a invisibilidade, dentre outros feitos assombrosos.

O efeito sobre o mundo literário foi o de contágio. Em todas as latitudes, escritores abusaram da confiança na ciência, e na desconfiança dos homens, para sonharem feitos impossíveis ao presente que conheciam. Mais que profetas, a ficção científica viu aparecer uma série de homens e mulheres de sensibilidade especial, capazes de captar grandes e pequenas perturbações que abalavam seu mundo.

Mais que futurólogos, autores como Edgar Rice Burroughs, Philip K. Dick, Isaac Asimov, Ursula Le Guin e William Gibson, lá fora; e Roberto de Sousa Causo, no Brasil, aproximaram a literatura da ciência. Não da engenharia, da química e da física, como seus personagens, mas das ciências sócias. Na ficção científica, a crítica- comum às ciências humanas - ganha uma nova expressão, no terreno em que o real não é sólido. É imaginação, mas não vã.

LIVRO

A História Verdadeira
Luciano de Samósata e Gustavo Piqueira (tradutor)
Ateliê editorial
2012, 88 páginas
R$ 45

DELLANO RIOS
EDITOR

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