LANÇAMENTO

Os dois Gonzagas

00:44 · 01.08.2007

Encontros e desencontros de pai e filho, os músicos Gonzaguinha e Luiz Gonzaga, são revividos no livro de Regina Echeverria, será lançado hoje em Fortaleza


Luiz Gonzaga (1912-1989) e seu filho, Gonzaguinha (1945-1991), deixaram seus nomes inscritos na história da música popular brasileira. Suas trajetórias de vida, entretanto, bem que mereciam figurar no rol das obras literárias, tamanha a dramaticidade que acompanhou a relação dos dois. Este drama, de perda e redenção, é contado por Regina Echeverria no livro “Gonzaguinha e Gonzagão - uma História Brasileira”.

O livro será lançado hoje, em Fortaleza. O evento acontece às 19h30, no Centro Cultural Oboé, tendo como promotores quem entende desta rica herança musical - o bar Kukukaya, especializado e música tradicional do Nordeste, e a AALG (Associação dos Admiradores de Luiz Gonzaga) e dos sites www.gonzaguinha.com.br e www.luizluagonzaga.com.br, dedicados, respectivamente ao filho e ao pai. A autora estará presente para falar sobre sua obra acompanhada pelo cantor e compositor cearense Fausto Nilo e do sanfoneiro Waldonys, um dos herdeiros da obra do Velho Lua.

Filho adotivo

Em “Gonzaguinha e Gonzagão”, Regina Echeverria volta a passear pelo universo da MPB. Na década de 1980, a jornalista alcançou sucesso com sua biografia “Furacão Elis”, escrita quando o país ainda se recuperava do choque de perder a Pimentinha. Em 1997, foi a vez de colaborar com Lucinha Araújo, mãe do cantor Cazuza, em “Só as mães são felizes”.

Aqui, Echeverria faz um esforço duplo, ao abordar duas personalidades igualmente ricas que se complexificavam a medida que se aproximam um do outro. De um lado, o pernambucano Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, responsável por popularizar (no que diz respeito a difusão massiva) as sonoridades nordestinas. De outro, Gonzaguinha, ícone de uma MPB urbana e politizada, que, muitas vezes, pareceu ir na direção oposta a de seu pai.

Gonzaguinha era filho adotivo de Luiz Gonzaga. Sua criação, entretanto, se deu longe do Velho Lua. O pai ausente, roubado do filho pelas intermináveis turnês, era o provedor financeiro de uma criança, que ficou sob as responsabilidades dos padrinhos. O ausência e a diferença de propostas musicais separou ainda mais os dois. No futuro, como queria o destino, pai e filho se reencontraram, assim como sua música, e fizeram as pazes.

Biógrafa

Mesmo sem gozar da fama de um Ruy Castro ou de um Fernando Morais, Regina Echeverria tem se firmado como um das mais importantes biógrafas do país. A jornalista paulistana prefere personagens mais pop, mas ricos em polêmica - a explosiva Elis Regina, o meteórico Cazuza assassinado por seus excessos e a saga dos Gonzagas.

No ano passado, a autora lançou “Mãe Meninha do Gantois”, escrito com Cida Nobrega. A mãe de santo baiana também não destoa do perfil de biografado preferido por Echeverria, já que se tratava de uma personalidade pública que costumava ser assediada por olimpianos como Caetano Veloso e Maria Betânia.

Uma história brasileira

Paulo Vanderley*

A vida proporciona elementos e oportunidades diferentes. A arte consegue distanciamentos e aproximações.

Do velho Exu, berço de Gonzagão, ao morro de São Carlos, de Gonzaguinha, vida e arte interagiram decisivamente.

Ausente, pela arte e pela vida, Gonzagão perdeu o contato com o filho. Reaproximado pelos mesmos motivos, se reencontraram.

Gonzaguinha e Gonzagão viviam períodos em casa e, principalmente, em demoradas turnês de shows pelo Brasil. Cada um a seu estilo.

A mais importante dessas turnês talvez tenha sido com o show “Vida de Viajante”, em que os dois estiveram lado a lado, no início dos anos 80. Não apenas um show, “Vida de Viajante” selou o reencontro de pai e filho, a intersecção de dois estilos, o Brasil sertanejo do baião encontrando o Brasil urbano das canções com compromisso social e uma só paixão - o palco.

Se “Todo artista tem de ir aonde o povo está”, lá estavam pai e filho deixando mágoas, desavenças, ressentimentos na poeira das estradas. Viajando juntos por quase um ano, mais do que se perdoaram - tornaram-se amigos. Não houve reconciliação, houve compreensão. Esse show gerou um grande reencontro de pai e filho.

Gonzaguinha tinha um projeto de fazer um livro em homenagem ao pai, que considerava esquecido pela grande mídia. Foram aproximadamente 20 horas de áudio de conversas esclarecedoras gravadas no antigo gravador, registrando temas como: a paternidade tão questionada, o início de carreira do velho Lua, encontros e desafios encarados pelo Rei do Baião e muitos “causos” curiosos vividos pelo Lua.

Amanhã o Brasil lembrará os 18 anos da partida de Luiz Gonzaga, é impossível esquecer aquele triste 02 de agosto de 1989, Gonzaguinha se foi 20 meses após, em Abril de 1991. Gonzaga Júnior não realizou o sonho de colocar no papel a fantástica história do pai.

Tarefa designada à jornalista Regina Echeverria, que aceitou o desafio de realizar o sonho de Gonzaguinha de escrever sobre o pai. E seria impossível não contar a impressionante história do próprio Gonzaguinha.

Uma viagem pelo tempo, pela vida e pela arte, digna de dois grandes nomes e fruto da perseverança de uma escritora comprometida com a informação e deleite de seus leitores, a biografia “Gonzaguinha e Gonzagão - uma História Brasileira”, prefaciada pelo compositor Fausto Nilo, além dos depoimentos de várias personalidades, como: Ivan Lins, Dominguinhos, Fernando Faro e Fagner, entre outros. Com emoção e admiração, o livro relata e retrata com muita clareza o que foi a vida desses viajantes.

* Administrador, autor dos sites www.gonzaguinha.com.br e www.luizluagonzaga.com.br e autor da discografia presente no livro de Regina Echeverria

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