Ensaio

Os caminhos da teoria e os da prática

00:00 · 03.01.2014
Ao destacar o sentido dessa vizinhança entre os textos, Nicéas já prepara o terreno para o último capítulo que, como um "raio de luz", iluminará todos os outros pela forma com que mostrará que o narcisismo é uma peça de resistência à ação do analista no que a transferência em sua dupla face - amor e ódio - impede o desenrolar de uma análise. Mas antes disso o leitor percorrerá um longo caminho através desse conceito que se bifurca na direção da constituição do eu e na da construção do "edifício das pulsões" - o narcisismo.

A gênese

De onde surge o termo narcisismo? Ao contrário do que se costuma pensar, Freud não o extrai do mito de Narciso e sim o toma emprestado da obra Paul Nacke na qual o psiquiatra havia designado com o termo narcisismo o comportamento pelo qual o indivíduo trata seu próprio corpo como um objeto sexual. Mas, ao contrário do uso que Nacke faz do termo, nomeando um novo tipo de perversão, o interesse de Freud pelas notas clínicas que colheu da literatura psiquiátrica foi o de perscrutar as semelhanças entre aquilo que alguns autores descreviam e o modo como o sujeito da experiência analítica tratava seu próprio corpo e o do outro.

Em O amor de si, o narcisismo freudiano, torna-se uma espécie de fiel da balança entre a teoria e a clínica, o que permite uma melhor compreensão do que significou, entre outras coisas, a ruptura entre Freud e Jung. Somos brindados com uma análise esclarecedora dessa passagem da história do movimento psicanalítico na qual o autor enfatiza o rumo que tomou a teoria depois que Freud respondeu às investidas anti-psicanalíticas do discípulo com a escrita de seus clássicos, escritos-sínteses, a metapsicologia, a "bruxa" que, ao lado dos mitos freudianos, compõe uma teoria advinda única e exclusivamente do concreto da experiência.

Singularidades

A partir desse ponto, a consistência teórica de nosso autor torna-se mais evidente, ainda. Entre os passos e os rastros da escrita de Freud ele nos leva ao ponto em que o narcisismo, entendido como expressão de investimento libidinal ,pelo sujeito, de seu próprio eu, permite o advento de uma nova noção, a noção de "erogeneidade" enquanto propriedade de qualquer órgão. Lidos à luz dos recortes oferecidos em Amor de si, o conceito de narcisismo responde à uma série de questões sobre o modo como o texto de 1914 oferece um entendimento das parafrenias e estabelece uma diferença importante entre neurose e psicose. Mais ainda: somos lembrados que a vida amorosa dos homens e das mulheres e suas fixações, descritas detalhadamente por Freud, não autoriza nenhuma divisão radicalmente estabelecida para os dois sexos, anatomicamente distintos, quanto às suas escolhas amorosas, e muito menos a ideia de uma suposta maturidade na relação entre o sujeito e objeto.

Os fios e os novelos

O que tem a ver a formulação lacaniana do "Estádio do Espelho" com o conceito de narcisismo? O jovem analista lendo O amor de si se inteira do fato de que Lacan iniciou seu "retorno a Freud" identificando as condições de emergência daquilo com que o analista terá sempre que lidar - o inconsciente. Mas não é só isso: ele aprende também que as teses freudianas sobre o narcisismo mereceram da parte do mestre de Paris uma atenção especial procedendo a a articulação entre os escritos freudianos que nos ensinam a reconhecer que o "eu é antes de tudo um eu corporal". Foi disso que Lacan tratou em seu "Estádio do Espelho" impondo a sua doutrina a precedência do que Freud encontrou na clínica do narcisismo. Nesse sentido, parodiando o título do livro de Calvino, ouso dizer que a proposta de Carlos Augusto Nicéas aos analistas do terceiro milênio, contida nessa articulação narcisismo/Estádio do Espelho, é a de não subtrair a especificidade de um campo que não pode prescindir de seu fundador, movimento que caminha na contramão da lógica do saber que se supõe em progresso acumulativo.

Considerações finais

Chegamos assim ao capítulo final, aquele que ilumina todo o estudo precedente. Partindo da do dispositivo da transferência, Carlos Augusto Nicéas sustenta algo de fundamental em relação à ética freudiana: na análise, a desmesura do "amor de si" é desmascarada.

É com essa chave de ouro que o livro se encerra indicando ao analista que é precisamente porque há uma falha de saber em relação ao sujeito sexuado que o sujeito se submete à regra do jogo que é a transferência. Mas o que conta justamente para o analista é submeter o amor à prova da estrutura da linguagem, e fazer reconhecer, "irremediavelmente, no diálogo impossível entre os sexos, o fracasso de seu voto de completude".

Por fim, eu gostaria de enfatizar que o livro "O amor de si" merece saudações pelo legado teórico que nos oferece seu autor, um analista singular, cuja experiência imprime no texto o tom da responsabilidade que assumiu em relação à ética e à transmissão da psicanálise. (B. B. F.)

SAIBA MAIS

FUKS Betty Bernardo. Freud & a cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2003
FUKS, Betty Bernardo. Freud e a Judeidade- a Vocação do Exílio. Rio de Janeiro: Zahar, 2000
NICÉAS, Carlos Augusto. Introdução ao narcisismo - o amor de si. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013

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