Os 50 anos de uma obra total

Meio século depois de publicada a primeira edição de "Cem anos de solidão", de Gabriel García Márquez, o romance mantem sua força como um clássico da literatura universal e uma referência do realismo fantástico

00:00 · 10.06.2017 por Roberta Souza - Repórter

Se a publicação de "Cem anos de solidão", em 1967, representaria uma "catástrofe na vida pessoal" de Gabriel García Márquez, já que o próprio afirmaria mais tarde que "a única solidão comparável à da fama é a solidão do poder", o mesmo livro seria o símbolo mais claro do salto profissional do escritor colombiano. Em 2017, por ocasião da passagem de 50 anos desde as primeiras 8 mil cópias de uma obra que já vendeu mais de 30 milhões, não é difícil compreender porque ela se tornou um dos principais títulos do realismo fantástico e do "boom latino-americano".

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O caminho iluminado 

A obra, que tem como cenário o vilarejo imaginário de Macondo, narra a história das sete gerações da família Buendía, com seus Aurelianos retraídos, "mas de mentalidade lúcida", e José Arcádios impulsivos e empreendedores, mas "marcados por um sinal trágico"; todos acompanhados pela matriarca Úrsula Iguarán, que teria vivido entre 115 e 122 anos. Consultar a árvore genealógica da família é uma ação indispensável ao leitor que se debruça nas 432 páginas da obra, tendo em vista a repetição dos nomes e os laços afetivos que vão construindo a narrativa.

Todos os personagens são consumidos de alguma forma pela solidão, seja pelo isolamento de Macondo ou pelo estado de espírito que caracteriza o passar do tempo para a família Buendía, envolvida em revoluções, inventos, amores e corrupções. A saga, que acabou se tornando a mais conhecida do Nobel colombiano, muito se aproxima de sua própria vida. Isso porque não era segredo para ninguém que Gabo associava lugares, pessoas e experiências pessoais ao seu trabalho, que era somente até certo ponto ficcional.

A própria Macondo tinha muito de Aracataca, sua cidade natal, onde conviveu toda a infância com os avós; os Buendía carregam traços dos Márquez. Mesmo os personagens coadjuvantes, como o "sábio catalão" dono de uma livraria no vilarejo, costuma ser associado a Ramón Vinyes, livreiro e professor catalão que atuou em Barranquilla, atuando no círculo intelectual do qual García Márquez participava.

Totalidade

O jovem Gabo vivia no México quando começou a escrever "Cem anos de solidão", em 1965. Empenhou seus maiores esforços na escrita do livro, com total apoio da esposa, Mercedes Barcha, sem a qual não conseguiria sequer manter o aluguel que os abrigara naquele país. Recomendado pelo crítico chileno Luis Harss ao editor Francisco Porrúa, da argentina Sudamericana, o colombiano garantiu as primeiras cópias daquele que se tornaria seu livro mais conhecido mundo afora.

O reconhecimento veio não só da crítica internacional como também de seus pares. O peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, que fez uma tese de doutoramento sobre a literatura de Gabo, classifica "Cem anos de solidão" como um "romance total". "Trata-se de um romance total por sua matéria, na medida em que descreve um mundo fechado, desde seu nascimento até sua morte e em todas as ordens que o compõem - o individual e o coletivo, o legendário e o histórico, o cotidiano e o mítico -, e por sua forma, já que a escrita e a estrutura tem, como a matéria que as envolve, uma natureza exclusiva, irrepetível e autossuficiente", descreve ele em artigo publicado em edição especial do livro, em 2007.

Para Vargas Llosa, esse trabalho de Gabo reduziu suas publicações anteriores - "Isabel vendo llover en Macondo" e "La hojarasca" - a condição de anúncios, de partes de uma totalidade, e, segundo ele, dificilmente uma obra posterior de Gabo poderia fazer isso com "Cem anos de solidão". A escritora cearense Angela Gutiérrez, autora do livro "Vargas Llosa e o romance possível da América Latina", complementa esta ideia a partir de suas pesquisas. "Num romance total, entram as outras artes, a memória de outros escritores, referências a outras obras", explica.

Realidade

Gutiérrez lembra ainda da tese "García Márquez: historia de un deicidio" (1971), em que Vargas Llosa parte da obra de Gabo para tratar de temas literários mais amplos. "No livro, o peruano sustenta que o escritor cria impulsionado por seus demônios interiores e por uma insatisfação com a realidade", observa a cearense. A ideia de deicídio (o assassinato de Deus), segundo Vargas Llosa, é posta na prática em "Cem anos de Solidão", a partir do ato de "descrever uma realidade total, enfrentar a realidade real uma imagem que é sua expressão e negação", identifica o escritor no artigo mencionado.

Não se pode descartar que a obra máxima de García Márquez, no auge de seus 50 anos, guarda grande similaridade com o contexto sociopolítico atual. Isso porque quando mergulha em Macondo, o escritor detalha os caminhos que sustentaram o subdesenvolvimento da América Latina: regimes autoritários, desequilíbrios entre a quantidade de pessoas e a distribuição de terras, corrupção. Nada muito diferente do que ainda se vê e faz. Mas hoje, infelizmente, Gabo já não está mais aqui para nos falar.

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