Ensaio

Orfeu da Conceição: o percurso do mito em direção ao teatro

00:00 · 09.02.2014 por RUTE BARBOSA

Vinicius de Moraes tece a aliança entre a música e a poesia, com a presença da morte, da fé e do amor absoluto

Vinicius de Moraes transportou para as favelas cariocas, em um feriado de carnaval, a história de amor de final trágico entre Orfeu e Eurídice. No musical, Orfeu, um sambista que vive no morro, filho de um músico e de uma lavadeira, apaixona-se por Eurídice. A paixão entre Orfeu e Eurídice desperta o ciúme e o desejo de vingança em Mira, ex-namorada do sambista, que leva Aristeu, apaixonado por Eurídice, a matá-la.

Numa terça-feira, último dia de Carnaval, Orfeu desce do morro e vai até o Clube Os Maiorais do Inferno depois de Eurídice estar morta. Já ensandecido, ele vai procurar Eurídice a sua amada, tentar encontrá-la novamente. De volta à favela, é morto por Mira e pelas outras mulheres açuladas por ela.

A gênese

No ano de 1942, Vinícius de Moraes, em uma estada na casa de seu cunhado em Niterói/RJ, busca ocupar-se da leitura de um velho tratado de mitologia grega escrito por Calzagíbi, no século XVIII, e que logo em seguida foi musicado por Cristoph Gluk. Vinícius, inebriado e "impregnado" pelo espírito da raça negra que se manifestou logo após excursões de Vinícius por favelas, macumbas e festejos negros, o velho e esquecido mito logo ganha uma adaptação, produzida de um só ímpeto por Vinícius de Moraes, este que se autodenominava "o branco mais preto do Brasil" e relata logo em seguida ter escutado como que coincidentemente uma batucada infernal vinda do morro que se situava nas proximidades da casa de seu cunhado, como relata em seu texto "O radar da Batucada": (Texto I)

Escrita originalmente em 1942, reescrita em 1955 e montada em 1956, Orfeu da Conceição, sobe ao palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro na noite de 25 de setembro de 1956. O Teatro recebeu, pela primeira vez, atores negros que deram vida à obra prima de Vinícius de Moraes. O escritor desejava mostrar o negro carioca como um ser digno de respeito a uma plateia elitizada que frequentava o teatro municipal na metade do século XX.

Auxílio luxuoso

A peça tem como trilha sonora músicas de Tom Jobim, que por ocasião da montagem, "sentou-se ao piano e compôs sua primeira ouverture, além dos primeiros sambas de nossa parceria", como relata Vinícius de Moraes (2011). A peça também conta com cenografia do arquiteto Oscar Niemeyer, que, conforme conta Vinícius, "largou seus projetos em andamento e veio fazer o cenário que lhe pedimos", e com a participação de Lila Moraes, então esposa de Vinicius, responsável pelo figurino.

Orfeu da Conceição fez mais do que confirmar o antigo gosto de Vinícius de Moraes pela música popular, abrindo, assim, novos caminhos para a cultura brasileira. Orfeu da Conceição marca o início da valorização do artista negro brasileiro no teatro, logo tornando a peça um marco do moderno teatro brasileiro. Conforme em nota de exigência de Vinícius de Moraes, o elenco era totalmente composto por atores negros, encenado pelo TEN - "Teatro Experimental do Negro", coordenado por Abdias do Nascimento foi a primeira vez que um elenco de atores negros ocupava o mais famoso teatro brasileiro e exibia o enorme prestígio para os atores afro-brasileiros. Segundo Maria Lúcia Candeias (2002)

Textos com um personagem negro, em geral em papel subalterno, sempre houve, assim como a mulata sensual quase obrigatória no teatro de revista; contudo o mesmo não acontece quando se trata de papéis mais dignos e muito menos que abram oportunidade para todo um elenco. O ator interprete de Orfeu, Haroldo Costa, não foi à toa escolhido por Vinícius de Moraes; ele era, segundo o poeta, capaz de sentir "o dama de sua raça e procura sempre levantá-la através das manifestações mais válidas de sua contribuição à cultura brasileira: o ritmo, a música e a dança".

Então, eis que surge naquela marcante noite de estreia no teatro: (Texto II)

*Do Curso de Belas Artes da Unifor

Trechos

TEXTO I

Nesse mesmo instante em qualquer lugar do morro, moradores negros começaram uma infernal batucada, e o ritmo áspero de seus instrumentos, chegava-me nostalgicamente, de envolta com ecos mais longínquos ainda do pranto de Orfeu chorando a sua amada morta.

(MORAES, 1942, p. 47, 48)

TEXTO II

E uma surda exclamação uníssona de admiração ergueu-se da plateia quando, ao som dos últimos acordes da ouverture de Jobim, o pano-de-boca abriu sobre o cenário de Niemeyer, na elegante noite de estreia no Teatro Municipal totalmente lotado (MORAES, 2011).

FIQUE POR DENTRO

Elementos-chave para a figura do ator da peça

A imagem do negro no palco teatral nas primeiras décadas do século XX era de uma presença quase "invisível". Apresentava-se, então, a imagem do ator negro como que deformada, incapaz de, em meio à atuação dramatúrgica, expandir todo o conhecimento da herança cultural e civilizatória dos povos afro-brasileiros. O teatro procurava, no entanto, mimetizar o negro em sua história, cultura e saberes, prolongando, assim, uma visão de mundo etnocêntrica. O negro, no palco teatral, era, portanto, mostrado como uma figura indesejável e grosseira, apresentando-se assim como o avesso de um personagem branco, este que, por sua vez, era visto como um sujeito universal uno e absoluto. Assim, com a finalidade de superar estas representações que contribuíam para depreciar a imagem do negro, O poeta e compositor Vinícius de Moraes - o Branco mais Preto do Brasil, como costuma se apresentar - adapta o Mito grego enaltecendo a cultura e a personagem negra.

RUTE BARBOSA
Especial para o Ler

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