MÚSICA

Ora simples, ora elegante

A cantora Tika lança seu primeiro álbum, e traz parcerias com nomes como Otto, Rodrigo Campos e Rômulo Fróes

00:00 · 15.02.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

Na música, existe uma expectativa de que o músico muito "estudado" crie uma sonoridade hermética, presa à ciência da linguagem. Formada em Educação Musical pela Universidade Federal de São Carlos (SP) e pelo Conservatório de Tatuí (SP), a cantora Tika lançou seu primeiro trabalho autoral e contraria esse estereótipo.

Aos 28 anos (ela estuda música desde os 12), a paulista resolveu experimentar do reggae ao samba, sem perder a elegância maturada pelo conhecimento acadêmico.

O álbum, "Unwritable" (YB Music), está disponível nas plataformas digitais desde setembro do ano passado. Produzido pela própria cantora, o (bom) disco teve participações ilustres, como a do pernambucano Otto (parceiro desde o início de sua trajetória autoral, há quatro anos) e dos paulistas Rodrigo Campos e Rômulo Fróes (dupla presente numa série de projetos endossados pela crítica brasileira, do grupo Passo Torto/SP à carreira de Elza Soares).

Nesta sexta (16) e sábado (17), Tika lança o disco em Rio Claro/SP, sua terra natal, e em São Carlos/SP, onde formou-se em música. Com uma carreira musical precoce, a cantora é conhecida pelo cenário artístico de ambas as cidades (64km separam os dois municípios do interior paulista).

"Canto nas duas cidades desde muito nova. Em Rio Claro, desde os 15 anos. Daí tem um público que me acompanha desde essa época (interpretando covers e projetos especiais)", situa Tika. Ela conseguiu viabilizar os dois shows com entrada franca, a fim de atrair público para conhecer seu repertório autoral.

Dentre as participações especiais, Tika já era próxima do cantor Otto (PE) ainda antes de se apresentar pela primeira vez em carreira solo. "Eu era fã do (produtor) Júnior Barreto (PE). Daí me aproximei dele, do Otto. E eles sempre me deram maior força, mesmo quando eu não tinha um álbum", recapitula a cantora. O pernambucano participou do primeiro show autoral que Tika fez, pela programação do Festival Contato, em São Carlos, em 2014.

A cantora também assina a produção do álbum. Antes de entrar em estúdio para gravar, teve de fazer uma pré-produção do repertório, para aproveitar o curto período de gravação no estúdio da YB Music.

"Tinha uma semana pra gravar o disco inteiro. E não tinha reunido a banda pra ensaiar. Então, antes, com o Pipo (Pegoraro), pensei em todas as músicas, no arranjo, em tudo. Mas quando cheguei no estúdio, deixei os músicos interferirem no que quisessem", conta Tika.

Universidade

A passagem pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), para Tika, serviu para "formalizar" um longo caminho de estudo. Pela formação, ela poderia dar aulas de música e seguir carreira acadêmica, mas, mudando-se para a capital paulista, há cinco anos, a cantora decidiu desenvolver suas próprias criações.

Até hoje, ela trabalha com projetos a exemplo do Passarim 30, em homenagem à obra do maestro Tom Jobim (1927- 1994). No entanto, Tika percebia que "me faltava a experimentação estética, de definir melhor o que casava comigo, ou não. Sigo uma rotina de estudar instrumentos, pra me garantir nos shows (que preciso fazer) sozinha. E tenho circulado, há um ano, com o repertório de Tom", situa.

A cantora detalha que a "falta" de uma formação dedicada à composição, até facilitou que ela respeitasse sua intuição e se envolvesse mais na criação artística. "Comecei a compor em quantidade para o disco. É um experimento mesmo. Não me apeguei ao resultado. 'Haja amor' é meio soul music, que não é minha base, por exemplo", observa.

Nuances

A ótima faixa de abertura, "Vida", parceria dela com Rodrigo Campos e Alice Coutinho, é uma mistura de samba sofisticado e arranjos experimentais. Os efeitos conferem certo "tom de suspense" à música. O cartão de visitas mostra bem como Tika não se satisfaz em se debruçar sobre as nuances de um único gênero em "Unwritable".

A sequência sinaliza essa abordagem. O reggae "Anoitece" vai além de um exemplar básico do gênero, trazendo um arranjo mais rico - sobretudo por conta da voz potente e precisa da cantora.

"Haja amor", parceria com Otto, é outro destaque. A combinação entre pop, brega e a estética sonora retrô, comum ao repertório do pernambucano, aqui ganha o acréscimo da sutileza de Tika. O resultado é uma canção de apelo irresistível para se ouvir com fones de e relaxar.

É interessante como, embora expresse sofisticação em sua música, Tika consegue amarrar boas letras, em poucas palavras; e equilibrar um texto preciso, sem perder a carga poética ("Metade do teu sorriso").

Parceria entre Tika e Rômulo Fróes, "Aqui" traz o apelo romântico (e sexual) que não é tão explícito no restante do repertório, com exceção de "Haja amor". Também destaque do álbum, a sétima faixa traz a cantora numa versão mais simplificada e direta, em relação ao que apresenta no decorrer da maioria das canções do disco.

Ele termina com duas composições de apelo experimental. A faixa-título, parceria com o tecladista João Leão (Céu, Saulo Duarte e a Unidade), flerta com o jazz. "Noite vai alta", de Tika e do artista plástico Clima, destoa da estrutura da canção tradicional e cria uma "paisagem sonora" para o ouvinte disposto a viajar na escuta do álbum.

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