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Shows da Mostra Sesc Cariri exaltam caráter sócio-político da cultura

As bandas "Francisco, el Hombre" e "As Bahias e a Cozinha Mineira" cantaram diferentes formas de resistir, em apresentações no Crato

19:34 · 14.11.2017 por Roberta Souza*
francisco, el hombre
Banda Francisco, el Hombre fez show poético, enérgico e político no Crato ( Jr. Panela )
as bahias e a cozinha mineira
As Bahias e a Cozinha Mineira, no palco da Rffsa, Crato ( Ribamar Neto )

"O Cariri é travesti, é travesti, é travesti", cantavam jovens reunidos na praça da Rffsa, no Crato, na noite de segunda-feira (13/11). O coro respondia à presença de duas travestis no palco da 19ª Mostra Sesc Cariri, Assucena Assucena e Raquel Virgínia, integrantes da banda "As Bahias e a Cozinha Mineira". A primeira apresentação das duas no Cariri, acompanhadas do guitarrista Rafael Acerbi, em uma formação mais enxuta e intimista, foi do tipo "olho no olho".  

Subir no palco de uma cidade do interior de um dos estados onde mais se matam travestis no País é, sobretudo, uma forma de resistir. E foi isso que elas fizeram durante todo o show, junto com um público que refletia o discurso cantado. Com um repertório que mesclou os dois trabalhos da banda, "Mulher" (2015) e "Bixa" (2017), e ainda interpretações de clássicos da música popular brasileira, o grupo contagiou os presentes em quase duas horas de show. 

Minutos antes da apresentação, a banda já havia adiantado que o repertório ressaltaria fundamentos da formação do grupo, em 2011, quando todos eram estudantes de História da Universidade de São Paulo (USP). E assim foi: "Tigresa", de Caetano Veloso, "Pagu", de Rita Lee, "Que bloco é esse?", do Ilê Ayê e "Olhos coloridos", de Sandra de Sá foram algumas das canções interpretadas. Além de alguns sambas, incluindo um de Alcione. 

Num dos pontos altos do show, um catador de latinhas negro deixou o serviço por alguns instantes para fazer coro com Raquel ao "somo crioulo doido e somo bem legal/ temos cabelo duro é só no black power", em resposta ao racismo que acomete a sociedade brasileira.  

Em maio deste ano, a banda também tocou no Festival Maloca Dragão, em Fortaleza. Na ocasião, as cantoras interpretaram a canção "Na hora do almoço", de Belchior, e o feito se repetiu no Crato. "Eu sou do sertão da Bahia, e lembro que tanto a obra de Belchior quanto a obra de Patativa do Assaré era uma relação presente", contextualizou Assucena. Ela também adiantou que pretendem acrescentar "Espumas ao vento", de Fagner, muito em breve. 

Banda Francisco, el Hombre promove momento de empoderamento 

Também em primeira apresentação no Crato, e ainda no Ceará, a banda "Francisco, el Hombre", formada por mexicanos e brasileiros, exaltou a força política da cultura com um show poético, enérgico e que serviu até de "cura" para alguns presentes. Foi o caso da estudante universitária Luana Laís, 20, de Campos Sales, que deu um prolongado abraço numa das integrantes do grupo, Juliana, ao fim do show. Foi com a canção "Triste, Louca ou Má" que ela tomou conhecimento do trabalho da banda e isso a fez cruzar algumas cidades para assistir ao show do álbum "SOLTASBRUXA" (2016). 

"Falar pra mim em alto e bom som que um homem não me define, que minha casa não me define, que minha carne não me define, é muito empoderador e muito gratificante pra mim, porque hoje eu posso gritar isso e saber que eu sou dona de mim mesma, dona de todas as minhas escolhas, e nem um cara e ninguém pode me bater ou fazer qualquer coisa comigo sem a minha permissão", desabafou emocionada. 

"Eu já tava louca pra subir, eu queria invadir o palco e abraçar ela ali mesmo, porque foi uma coisa extraordinária pra mim. Então depois do show eu abracei ela, senti toda a energia, porque ela é mulher e eu também sou mulher, a gente se entende. Então quando ela me abraçou, ela tava me apertando, mas eu me senti tão livre, sabe? Eu viajei naquele momento, eu nunca vou esquecer, porque ela faz parte desse processo de cura na minha vida", completou. 

Mateo Piracé-Ugarte, um dos integrantes da banda, expressou total contentamento com o feedback do público presente. "Quando é a primeira vez que você vai tocar numa cidade e já passou por todas as coisas que a gente passou - de tocar pra duas pessoas, pra cinco pessoas, mais de uma, duas, três vezes -, ter esse público que mais parece um pulmão respirando a todo vapor, é único. Isso aqui deve ser o que chamam de sucesso, talvez. E é foda que isso só bate depois. Tô tentando viver o agora ao máximo", declarou.  

Sem apresentações previstas para Fortaleza, Mateo afirmou ainda que a expectativa é grande para vir à capital cearense. Ele disse também que a banda já está trabalhando em novas composições e que devem soltar um novo clipe muito em breve. 

*A jornalista viajou a convite do Sesc

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