Cinema

M. Night Shyamalan volta ao passado para falar sobre o futuro

"Fragmentado", novo filme do diretor de "O Sexto Sentido" e "Sinais" estreia nesta quinta-feira (23)

13:47 · 20.03.2017
Filme "Fragmentado"
James McAvoy como o protagonista de "Fragmentado": trabalho decente ao dar vida a 23 personalidades presas num único indivíduo

Foram necessários cerca de 10 anos para que o cineasta indiano M. Night Shyamalan limpasse sua barra após experiências constrangedoras como "A Dama na Água" (2006), "Fim dos Tempos" (2008) e "O Último Mestre do Ar" (2010). No fim de 2015, o diretor lançou o ótimo "A Visita", mostrando que está disposto a voltar à boa forma que o consagrou como um cineasta promissor no início dos anos 2000.

Dessa vez, seu novo suspense é "Fragmentado", que investe em um tom de filmes de terror com adolescentes em perigo. Na trama, o ator James McAvoy interpreta um homem com 23 personalidades. Enquanto tenta administrar todos os seres que habitam em nele, o protagonista vê surgir novas perspectivas interiores. Em paralelo, uma terapeuta, papel da excelente Betty Buckley, acompanha o caso e três meninas são sequestradas pelo personagem principal (por uma de suas formas, pelo menos).

Dirigido e roteirizado por Shyamalan, o filme abre mão de grandes surpresas ao final da projeção, como se convencionou acontecer na filmografia do diretor. Assim, a história segue por uma ótica mais didática, cuja obviedade não é disfarçada pela autoexplicação dos diálogos que acontecem. McAvoy faz um trabalho decente interpretando diversas personas e, por meio dele, vamos entrando em um universo caótico onde suas personalidades criam novas perspectivas de coexistência.

Enquanto as três jovens sequestradas tentam fugir, Shyamalan insere flashbacks de uma delas, Casey Cooke (Anya Taylor-Joy), que mostram marcas familiares do passado que nunca curadas. Esse retorno às memórias serve para criar novas visões de futuro e ajudar nas mudanças, ainda que apareçam de forma conveniente para justificar algumas ações da garota. "Fragmentado" também joga um olhar no passado da carreira do próprio diretor, mas falar mais sobre isso seria estragar a experiência final da trama. 

Ainda que não mantenha o ótimo nível de "A Visita", o novo longa-metragem do indiano é feito com bastante requinte, com alternativas visuais que só ele consegue fazer dar certo. É uma história sobre transformações do eu interior (eus interiores?) e do impacto das nossas ações no mundo. Toda mudança requer enfrentamento e algumas delas só acontecem por meio da dor. Shyamalan oferece um filme sem grandes truques, que sofre com o ritmo dos conflitos, mas é tão indefeso que é possível ficar indiferente. 

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