Repercussão

Equipamentos culturais do Estado aguardam execução de plano de conservação e combate a incêndio

Tragédia no Museu Nacional do Rio de Janeiro revela políticas culturais falhas, inclusive a nível local

Museu do Ceará tem projeto de Memorial de Incêndio assinado em junho deste ano. Equipamento aguarda verba para reforma geral
14:01 · 03.09.2018 / atualizado às 18:39 por Roberta Souza

O fogo que consumiu o acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro no último domingo (2) expôs o que o déficit de investimento financeiro e a falta de celeridade dos projetos de manutenção e preservação dos equipamentos culturais pode causar. No Ceará, uma Biblioteca e um Arquivo Públicos funcionando em “espaços provisórios” há quatro anos, e a situação de descaso com o Museu do Ceará, por exemplo, que há mais de um ano tem projeto de reforma prometida, alerta para o que ainda pode ser feito antes que se perca mais da história do nosso País. 

As obras de reforma geral da Biblioteca Pública Menezes Pimentel implicaram na transferência de 40% do seu acervo para o Espaço Estação, onde se encontra também todo o material do Arquivo Público. A previsão de retorno dessas obras para as sedes originais vem sendo adiada praticamente todo semestre. E é nas sedes reformadas, segundo a Secretaria de Cultura do Estado, que esses equipamentos contarão com projetos modernizados de Prevenção e Combate a Incêndio e Pânico. 

>MAUC prevê ações de manutenção preventiva para este semestre
> A difícil manutenção de acervos e espaços culturais
>Diretor do museu sacro de Sobral alerta para insegurança da maioria dos museus
>Museu Nacional abrigava milhares de peças do Cariri

Em nota à imprensa após a tragédia que acometeu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, a Secult lamentou profundamente a perda e lembrou que “aspectos arqueológico, etnográfico, científico e cultural da história da humanidade estavam sob salvaguarda dessa instituição, inclusive com achados paleontológicos do Ceará”.  

A instituição declarou ainda que “no que toca à política de patrimônio cultural, os equipamentos culturais do estado passam por um processo de manutenção contínua e ganhou relevo na Secult um plano de conservação, restauro e atenção de combate a incêndio para seus equipamentos”. 

Museu do Ceará necessita de reforma geral 

Na nota, constava ainda que “o Museu do Ceará e Theatro José de Alencar estão em desenvolvimento de seus projetos de Restauro, contemplando esses itens de segurança”. Assinado pelo arquiteto Rafael Magalhães da Cunha em junho deste ano, o projeto de Memorial de Incêndio para o Museu do Ceará afirma que a classificação de risco para as edificações como esse estabelecimento é leve. O material prevê a aquisição de hidrantes, detectores, extintores e alarme de incêndio, sinalização de segurança, iluminação de emergência e Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA). 

A promessa de um projeto de reforma geral para o Museu do Ceará, porém, já se arrasta há mais de um ano. Ao Diário do Nordeste, em janeiro de 2017, a Secult anunciou que planejava investir mais de R$ 2 milhões nesse equipamento, o que não se concretizou até a presente data. 

A atual diretora do Museu do Ceará e também do Museu Sacro São José de Ribamar, localizado em Aquiraz, Carla Vieira, não atendeu às ligações da reportagem. A assessoria informou que há uma orientação da Secult e da Casa Civil para posicionamento apenas por meio de nota. 

A consultora do Programa Ponto de Memória no Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e Presidente da Fundação Memorial Padre Cícero, Cristina Holanda, foi da direção do Museu do Ceará entre 2003 e 2008. Segundo ela, durante sua gestão, os funcionários realizaram um curso de prevenção de incêndios que se estendeu a todos os equipamentos culturais do estado. 

“O quadro de funcionários do Museu é terceirizado, mas eles são sempre recontratados. A equipe é praticamente a mesma e eles já passaram por mais de um curso de capacitação na área”, acredita Cristina. Ela também relata alguns cuidados do equipamento com base em sua gestão. 

“Lá a gente tem as mangueiras e os extintores com pó químico, que é o apropriado para museus. Além disso, o Museu do Ceará nunca teve fogão e gás. Lá se usava apenas um micro-ondas na copa. Mas esses cuidados são os que eu tomava na época. Eles devem ser contínuos. As mangueiras têm prazo de validade, assim como os extintores, cuja carga tem que ser sempre renovada”, alerta. 

A respeito da reserva técnica, Cristina admite que há duas salas com essa função no Museu, mas reconhece pouco investimento nisso em âmbito nacional. “Você consegue mais verba para ações que são mais visíveis para o público, como montagem de exposições. Para os trabalhos de bastidor - esse trabalho de conservação e de evitar sinistros, roubos, incêndios - você até consegue, mas é com mais dificuldade”, declara. 

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.