Cinema

Aplaudido em Toronto, "Green Book" dispara na campanha do Oscar do ano que vem

Longa é inspirado em um caso real ocorrido no começo dos anos 1960, nos Estados Unidos

13:45 · 12.09.2018 por Folhapress
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Viggo Mortensen e Mahershala Ali encabeçam "Green Book": recepção calorosa em Toronto. ( Foto: Divulgação )

Difícil haver, na atual safra hollywoodiana, um filme que siga mais à risca o manual de como comover o Oscar do que "Green Book". Tem assunto de relevância social? Sim. O tom é edificante? Também. Os personagens evoluem ao perceber o valor da empatia? Claro.

Vamos à trama, inspirada num caso real ocorrido no começo dos anos 1960. Tony (Viggo Mortensen) é um brucutu ítalo-americano que ganha a vida como leão de chácara em clubes da máfia no Bronx, em Nova York. Ele recebe uma proposta inusitada, servir de chofer a um exímio pianista negro, Don (Mahershala Ali), durante uma excursão pelo sul profundo dos Estados Unidos.

Cruzar a chamada linha Mason-Dixon, a divisão figurativa que separa o norte industrializado e a porção meridional atrasada, é atravessar a grande cisão que molda a sociedade americana. O tal livro verde a que o título do longa alude é um guia que de fato existiu, listando os estabelecimentos que aceitavam servir negros no sul, onde a segregação racial era institucionalizada.

Tony tem seus próprios preconceitos e modos poucos civilizados. Don é elitizado e, apesar da consciência do racismo, não tem qualquer contato com a cultura popular afro-americana. Juntos, toparão com casarões comandados por fazendeiros onde negros são forçados a usar latrinas e clubes que só aceitam a entrada de brancos.

A história caminha nos conformes do que se pode esperar a partir de tal cenário. Exibido na noite de terça no Festival de Toronto, "Green Book" teve uma sessão que terminou sob aplausos de mais de um minuto, o que o torna a um dos favoritos ao prêmio do público e deslancha sua campanha para o Oscar do ano que vem.

O inusitado aqui é quem comanda a direção do filme. Aos 61, Peter Farrelly é mais conhecido pelos besteiróis que dirigiu ao lado do irmão, Bobby. Alguns deles: "Debi & Lóide", "Quem Vai Ficar com Mary?", "Eu, Eu Mesmo e Irene", "O Amor É Cego", "Ligado em Você" e outras comédias a que você assistiu lá atrás e que hoje não passariam pelo crivo do humor politicamente correto.

"Green Book", em contrapartida, é um filme carregado de bom-mocismo, mas passa longe da sisudez; seu tom está mais para a dramédia. Ainda assim, é uma tremenda guinada para Farrelly, que no palco não deixou de reconhecer o quão insólito é apresentar um filme seu em festival de cinema.

Com a mostra canadense de cinema já se encaminhando para seu desfecho, o cenário para o Oscar começa a se desenhar. "Green Book" deve se tornar uma das maiores apostas dos estúdios da Universal, junto do biográfico "Primeiro Homem", sobre a chegada do homem à Lua.

Outro gigante, a Warner, deposita suas fichas em "Nasce uma Estrela", romance com Bradley Cooper e Lady Gaga nos papéis de músicos em estágios diferentes da carreira. Já a Sony trouxe a Toronto o drama "White Boy Rick", mas que não causou grande furor entre a crítica. A Netflix apelou sem muito sucesso para inúmeros gêneros (thriller, épico, drama independente) e está garantida apenas na categoria de filme estrangeiro, com "Roma", do mexicano Alfonso Cuarón.

Ainda na escalação do festival, mas com chances menores de figurar no prêmio da Academia, está "A Million Little Pieces", de Sam Taylor-Johnson, diretora de "Cinquenta Tons de Cinza".

O filme é mais uma das várias produções que pagam pedágio na clínica de reabilitação. Aqui, o "rehab" ocupa praticamente toda a trama, protagonizada por Aaron Taylor-Johnson, marido da cineasta.

É para um desses centros, orientados segundo os 12 passos dos Narcóticos Anônimos, que James, viciado em crack, é enviado. Ali, ele enfrenta os perrengues da abstinência e trava contato com os outros pacientes, cada um com um suas idiossincrasias -mais uma derivação pouco inspirada do surrado gênero do filme de internação do qual "Um Estranho no Ninho" é um precursor brilhante.

Confira o trailer de "Green Book":

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