Música

Onde anda esse tal de rock'n'roll

Dia Mundial do Rock reacende a paixão por um gênero musical marcado pela mutação, polêmicas e revoluções

00:00 · 09.07.2016

Já se foram 31 anos da realização do concerto "Live Aid". O evento recheado de super estrelas como Elton John, U2, Paul McCartney, entre outras vacas sagradas da indústria, surgia com a proposta de arrecadar fundos em prol dos famintos da Etiópia. Reunir tantos astros em torno de uma causa humanitária rendeu holofotes precisos em diversos pontos do globo.

>Celebração em Fortaleza

No Brasil, a iniciativa puxada por Bob Geldof e Midge Ure resultou na curiosa criação do tal "Dia Mundial do Rock". O surgimento da data "mundial" em tons verdes e amarelos fez jus ao burburinho que o País passava naquele período. A década 1980 representou um ponto de partida na popularização do rock para além dos grande centros. Através do auxílio inconteste das FMs, o som nervoso passou a ser tema de jornal e até trilha sonora de novela.

Envolto ainda no obscurantismo e truculência da Ditadura Militar, o País celebraria o gênero através do festival "Rock in Rio". Atrações como Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Yes, Queen e Rod Stewart botaram os roqueiros na ordem do dia. Outro ponto alto acontece uma ano depois, quando, de uma tacada só, chegam ao mercado trabalhos elogiados como "Rádio Pirata - Ao Vivo" (RPM), "Selvagem?" (Paralamas do Sucesso), "Dois" (Legião Urbana) e "Cabeça Dinossauro" (Titãs).

Indústria

Em zonas estrangeiras, a MTV e o aparelho walkman geravam revoluções profundas na difusão da música. A linguagem dos videoclipes atingia como um raio as audiências. Metal, pop e New Wave singravam em mares totalmente calmos. Gravadoras alcançavam lucros estratosféricos com uma seleta relação de artistas. Rebeldia, consumismo e autoafirmação recheavam o mesmo bolo.

Para o músico e publicitário Airton S., esta linguagem musical conseguiu alicerçar um papel de destaque no inconsciente coletivo de diferentes gerações. "Como linguagem do século XX, o rock serviu muito bem pra oferecer um contraponto à mentalidade binária do pós-2ª Guerra, em que ou você se encaixava no modus vivendi dos pais ou extrapolava moralmente tudo".

Diferentes estéticas e modas aportaram desde então, como o grunge do início dos anos 1990 e a consolidação do New Metal já no fim desta década - que anunciavam a chegada de um modelo de produção mais voltado para o circuito independente. A fórmula se encaixaria anos depois com a consolidação da cultura digital. K7s e LPs foram deixados de lado. O MP3 aparecia como uma espécie de "Queda de Constantinopla" para o mercado mundial. A cruzada do Metallica contra o Napster (pioneiro programa de compartilhamento de arquivos sonoros) acendeu um pavio extremamente curto e sem volta.

Nesse embate entre Shawn Fanning (criador do programa) e a turminha liderada por Lars Urich e James Hetfield, a vitória acabou ficando, inicialmente, do lado da indústria. Porém, a união de gravadoras, bandas e instituições contra o Napster pode ser considerada um verdadeiro "tiro no pé".

O tempo mostrou que juntar-se a Fanning para tentar criar uma alternativa (como a venda de músicas digitais em redes como o iTunes) podia ter sido a opção mais inteligente. Acabar com Napster representou nenhum impacto no número de downloads de músicas grátis. Não só o rock, mas toda uma cadeia dessa área sofreu mutações drásticas.

Para a jornalista Alinne Rodrigues, a forma de consumir o rock, no que tange ao abismo entre mainstream e independente, está diminuindo muito na atualidade.

"A gente vê isso bem claramente nos serviços de streaming, como Deezer e Spotify, pois o artista independente, de repente, foi colocado no mesmo caldeirão dos artistas consagrados e não estão mais apenas em redes especializadas, como já foram o MySpace e o TramaVirtual, por exemplo, e como hoje é o Bandcamp", observa.

Atuando em diversas frentes, seja como criadora (bandas Telerama e Subcelebs) ou produtora (Mocker Studio), a jovem adverte que postura dos artistas deve ser outra. "Ninguém precisa mais esperar pela TV nem pelas revistas de música nem pelo rádio para encontrar novos artistas quando se tem à disposição mecanismos como esses - apesar de muita gente ainda se pautar pela mídia tradicional. O grande desafio ainda é como chegar a mais pessoas", finaliza.

Panorama

Se existe um ponto de apoio ou forma de definir a atual sonoridade do rock mundial, uma premissa certeira seria apontar uma espécie de saudosismo e misturas. Alinne, por exemplo, cita os casos da psicodelia montada por bandas como Tame Impala e os brasileiros Boogarins. Na esteira desse rock dito "alternativo", outro caso é o canadense Mac DeMarco, que resgata canais e climas da década de 1990.

Outra seara muito discutida e vital ao rock é o histórico terreno contestador e político. O músico paulista Paulo Ueno critica o modelo atual e explica que uma postura mais engajada deixou de ser a ordem da vez das bandas. À frente do Projeto Trator, o artista empreende uma turnê nacional batizada de "Fora Temer" e explica que o som selvagem das guitarras deve ser também furiosa fora dos palcos.

"A maioria das bandas faze música para agradar uma indústria quase falida e essa indústria tem como termômetro seus clientes, um público que está gradativamente menos ligado ao gênero. O rock, como manifestação artística, também tem esse papel de contestação. Infelizmente, hoje no Brasil, quase não vejo bandas exercendo esse papel, quero dizer, bandas que tocam nas rádios e TV. Imagina chamar o Malta de banda de rock e contestador junto, como assim?".

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