música

Oito faixas sobre o eu

"Egomaquia", segundo álbum do cearense Oscar Arruda, já está disponível nas plataformas digitais

00:00 · 21.04.2017 por Felipe Gurgel - Repórter
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Oscar Arruda produziu um tributo a Leonard Cohen no início de 2017, antes de lançar o novo álbum

Entre a busca de si mesmo, atrás de encontrar um sentido para existir, em um polo, e a possibilidade de chamar atenção e ganhar umas curtidas no Facebook, noutro extremo, o ego comanda a vida no mundo ocidental. Essa onipresença do "eu" passa, também, a inquietar a produção artística e foi a partir disso que o músico cearense Oscar Arruda pensou seu segundo álbum, "Egomaquia" (ego significa "eu", em latim; e maquia é "luta", em grego).

O disco está nas plataformas digitais desde a última quarta (19). No próximo dia 30, Oscar faz show de lançamento do álbum na programação do festival Maloca Dragão. A apresentação acontecerá no palco José Avelino (entorno do Centro Dragão do Mar), às 20h50. O acesso é gratuito.

No palco, Oscar será acompanhado pela formação do Astronauta Marinho (CE), que produziu e toca o novo repertório: Felipe Lima (guitarra), Guilherme Mendonça (bateria), Caio Cartaxo (baixo) e Daniel Lima (teclados e sintetizadores). Em entrevista por telefone, o músico adianta que a apresentação marca o lançamento de "Egomaquia" em CD e vinil.

Oscar sai de uma fase de mergulho na obra de Leonard Cohen (1934-2016), a quem prestou tributo através de duas apresentações recentes (em janeiro, no Salão das Ilusões, e fevereiro, no Teatro do Dragão do Mar), para encarar o ciclo do novo álbum.

O tempo de interpretar Leonard Cohen foi necessário para ele desopilar do processo de acabamento (mixagem, prensagem do material físico) de "Egomaquia". "Agora é descer a ladeira, o trabalho foi feito. Estou trabalhando para circular, em São Paulo, Rio, Brasília, fazer algumas coisas pelo interior do Ceará também, mas não tenho datas fechadas ainda", detalha Oscar.

Diferente do primeiro álbum, "Revolução" (2012), em que o amor permeava o discurso das canções, "Egomaquia" trata de existencialismo e de uma dimensão sem fronteiras muito bem definidas. Essa atmosfera etérea foi um gancho para Oscar colar nos músicos do Astronauta Marinho (cujo trabalho instrumental, até aqui, passeia por essa vibração), e vice-versa.

"Eu buscava uma sonoridade que caminhasse mais por aí. Quando assisti o show deles, e eles viram o meu, ambos curtiram. Eles são mais novos (de idade, Oscar tem 41. Os músicos do Astronauta se encontram pela faixa de 25 a 30), e estão ligados com várias referências que acho interessante. Como algumas referências a gente tem em comum também (Wilco, Radiohead)", diz Oscar Arruda.

Produção

O músico conta que apresentava as composições para os integrantes do Astronauta e os arranjos eram pensados coletivamente. Felipe Lima e Guilherme Mendonça, no fim das contas, acabaram assinando a produção.

Oscar recorda que o processo de pré-produção foi mais exaustivo do que a própria gravação, no Totem Estúdio. "Naturalmente, o Felipe e o Guilherme tomaram mais a frente (da produção). O processo de gravação foi super fluido. E como a gente trabalhou muito na pré, os detalhes já estavam narrados quando fomos para o Totem", descreve. Praticamente de uma outra geração em relação aos músicos do Astronauta Marinho, Oscar Arruda pontua o quanto foi rico trocar e acompanhar as referências dos produtores. "Quando a gente envelhece, fica um pouco mais difícil acompanhar (novas referências). Eles não passaram por algumas coisas que já passei na vida (ter filhos, separação, perdas), mas são muito determinados, pragmáticos no processo, maduros pra isso", elogia.

Ego

Para adentrar a questão do ego, Oscar passou por uma fase de análise da própria existência. Separado após um casamento de 10 anos, ele, pai de uma menina de 15, conta que precisou "se reconstruir. Foi um período de muita leitura, da filosofia do Heidegger, da reflexão dele sobre o tempo e a existência. A (terceira) faixa 'Tempo' (do disco) vem disso", detalha.

Ele ainda revela que leu "também sobre a terceira fase do (Michel) Foucault, em que ele fala sobre a verdade, o sujeito. São três livros", aponta o músico. Oscar cita ainda, dentre essas referências bibliográficas, "O herói de mil faces" (Joseph Campbell).

Oscar dimensiona que o cuidado de si mesmo, a percepção grega em tensão com o cristianismo, e a compreensão de uma vida dotada de sentido e verdade na fala; foi a linha filosófica que abarcou o discurso das oito faixas do álbum. O título faz um paralelo, indiretamente, com "Titanomaquia" (na mitologia grega, a luta entre os deuses e os titãs), disco da fase mais pesada (1993) dos Titãs.

"No disco, aparecem algumas imagens, como a 'Caverna' (quinta faixa), a jornada do 'Surfista Prateado' (a sexta faixa, composição dele com os integrantes do Astronauta). Foi (sobre) essa luta de tentar dar significado à vida. E não deixa de guardar alguma crítica a esse tempo do homem como produto de si mesmo, desse 'eu digital' o tempo todo", reflete.

Disco

Oscar Arruda

Egomaquia

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Independente

2017, 8 faixas

R$ 30

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