ARTES VISUAIS

Ofício de curador

00:58 · 04.06.2010
( )
A Editora Zouk lançou, recentemente, o primeiro livro de curadoria no Brasil: "Sobre o ofício do curador". A obra, organizada por Alexandre Dias Ramos, traz textos de oito importantes curadores brasileiros

A maioria do público que visita as exposições de arte, nem se quer imagina o quanto é trabalhoso e, até mesmo, difícil realizar o planejamento de uma mostra. Pensar o tipo de luz e a cor certa para cada ambiente, apresentar e disponibilizar os trabalhos artísticos, requer atenção especial. Seja estabelecendo relações formais ou conceituais entre as peças expostas ou localizando-as de maneira estratégica num diálogo intenso com o espaço expositor. Tudo para que o visitante não se sinta perdido num labirinto de ideias e obras.

O curador, portanto, é o profissional responsável por esses pormenores. Mais do que identificar talentos, saber fazer boas análises, é ele quem dá sentido a exposição. Estabelecendo uma linha de raciocínio entre a expressão artística e o nível de compreensão do público.

Lacuna

Embora a atuação do curador seja fundamental para o campo das artes, existe uma lacuna em meio a pouca bibliografia sobre esse ofício, tanto no que diz respeito aos estudos de graduação como de pós-graduação, especialmente os vinculados à arte e museologia. Com o intuito de suprir a carência de material sobre o assunto, o pesquisador Alexandre Dias Ramos organizou uma série de artigos, de oito estudiosos com experiências bastante diferentes na prática da curadoria.

Os textos, escritos por Walter Zanini, Tadeu Chiarelli, Glória Ferreira, Cristiana Tejo, Rejane Cintrão, Paula Braga, Cauê Alves e Mabe Bethônico, dão forma ao livro "Sobre o ofício do curador". Lançada pela Editora Zouk, a obra é a primeira no Brasil, que trata especificamente sobre o tema. E o segundo volume da Coleção Arte: ensaios e documentos.

"Este livro surgiu da necessidade, ou poderíamos dizer, da falta, de publicações no Brasil a respeito do trabalho do curador. Muito se fala nos jornais sobre uma ou outra polêmica, algum excesso exibicionista, alguma ação entre amigos, essa ou aquela cenografia bizarra, mas em poucos momentos temos uma leitura mais detida sobre a profissão em si", justifica Alexandre Dias Ramos.

Conforme o pesquisador, é difícil determinar o momento exato do nascimento do ofício de curador. Pode-se dizer que, assim como outros, surgiu pelo resultado do tempo, em lugares e momentos muito diferentes da história.

"Sem uma data magna, podemos na verdade ficar um pouco mais tranquilos e compreender que a curadoria foi tomando forma com a reprodução e reflexão de um conjunto enorme de experiências práticas e, como tal, sendo valorizada à medida que o mundo da arte passou a se configurar mais fortemente pela composição de diversos agentes culturais no campo".

Capítulos

Sem se prender a uma única categorização da temática, o livro abrange um conjunto plural de visões. O primeiro capítulo, por exemplo, começa com "As montagens de exposições de arte: dos Salões de Paris ao MoMA", da pesquisadora Rejane Cintrão, que resgata a ideia que temos hoje de expografia. A própria disposição dos quadros na parede possui uma história que se revela através da apresentação de autores e imagens das primeiras exposições.

No segundo capítulo, o professor e curador Cauê Alves trata "A curadoria como historicidade viva". O autor questiona à própria construção totalizadora da curadoria na história da arte, mostrando que o equilíbrio de forças que essa profissão exige não deve se balizar pelas necessidades do mercado ou dos patrocinadores.

O terceiro, intitulado "Novo comportamento do Museu de Arte Contemporânea", é um ensaio publicado originalmente em 1974 na Revista Colóquio Artes, em que Walter Zanini descreve para o público português sua experiência com as exposições anuais chamadas de Jovem Arte Contemporânea (JAC), realizadas no MAC da Universidade de São Paulo.

O quarto, "O curador e a galeria", de Paula Braga, e o quinto, "Como explicar arte contemporânea brasileira para o público internacional, escrito por Tadeu Chiarelli, apresentam dois estudos de caso bastante curiosos que se relacionam pelo olhar estrangeiro, um de fora, outro de dentro.

No sexto, a artista plástica e pesquisadora Mabe Bethônico apresenta seu "Museu das Águas de Rio Acima" na forma de projeto para um edital. Apesar de parecer inadequado para o texto de um capítulo, por se tratar de uma ficha de inscrição, transparece um rico material de análise, sendo ainda uma boa oportunidade para o leitor ter contato com uma etapa significativa da produção e pensamento curatorial.

O sétimo capítulo fica sob a responsabilidade de uma das principais curadoras brasileiras, Glória Ferreira. Com o título de "Escolhas e experiências", o texto reflete sobre os aspectos que subjazem da atividade curatorial, como o nome das obras e exposições, o relacionamento com a crítica, a dimensão pública da arte, entre outros.

O livro termina reafirmando seu tema principal: o ofício do curador. Destacando que "Não se nasce curador, torna-se curador". Nele, a pesquisadora Cristiana Tejo fala do interesse crescente por essa profissão "de poucos", que proporciona viagens, prestígio, bons relacionamentos, mas que também é cercada de inúmeras dificuldades educacionais, institucionais e políticas.

"O conhecimento da maioria destes curadores brasileiros não foi adquirido nas universidades, como alunos, mas sim pelo dia a dia de suas pesquisas de campo, pela leitura de textos estrangeiros, pela prática como docentes e pelas exaustivas noites passadas dentro de cubos (nem tão) brancos", assinala Alexandre Dias Ramos.

Curadoria
"Sobre o ofício do curador"
Alexandre Dias Ramos (org.)
R$ 46,00
176 págs
Editora Zouk
Coleção Arte: ensaios e documentos

ANA CECÍLIA SOARES
REPÓRTER

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.