Ensaio

Obstáculos ao tratamento da neurose obsessiva

02:11 · 22.06.2013
Este artigo é fruto de nossa atividade como pesquisadores do Programa PIBIC/Cnpq/UFC junto ao Laboratório de Psicanálise da UFC

Nosso objetivo, nesta investigação, é, ainda, o da realização de um estudo metapsicológico das condições estruturais inerentes ao referido tratamento. Como parte desse trabalho, realizamos um estudo no qual partimos dos primeiros textos de Freud - publicados antes de 1900 -, bem como os textos posteriores a esse período, dando especial destaque ao caso do Homem dos Ratos. Posteriormente, procuramos pensar a neurose obsessiva metapsicologicamente. Por último, trabalhamos os textos mais significativos sobre o tema que integram a segunda tópica freudiana. Com isso, pretendemos mapear os principais obstáculos ao tratamento dessa neurose apontados por Sigmund Freud.

A recorrência

Dentre esses obstáculos clínicos, destacamos aqueles que ganham maior expressão: a ambivalência, a constante incidência do recalque, os sucessivos deslocamentos do represente pulsional, o apelo a medidas de defesa secundárias, a permanência do afeto na esfera psíquica e ainda a ferocidade do Supereu, representada pelo sentimento de culpa como expressão da pulsão de morte.

Apesar de, na época de Sigmund Freud, já ser conhecido o fenômeno no qual o sujeito é impelido a pensar e agir contra sua vontade, foi a ele "que coube o mérito de (...) conferir um conteúdo teórico à antiga clínica das obsessões, (...) situando a doença no registro da neurose" (ROUDINESCO, 1998, p.538).

Vasos comunicantes

Freud (1894/1996) demonstra que o ponto comum entre as afecções que estudava estaria na incompatibilidade entre representações na vida psíquica do sujeito. Assim, em alguns casos, o eu "transforma essa representação poderosa numa representação fraca, retirando-lhe o afeto" (Freud, 1894/1996, p.56). Essa soma de excitação retirada deverá receber outros destinos, provocando uma substituição de ideias.

Freud (1896a/1996) postula a teoria do trauma, argumentando que um acontecimento sexual real na vida infantil do sujeito está relacionado com a causação da neurose (Freud, 1896a, p.151). No decorrer dos estudos, ele percebe que "as ideias obsessivas são, assim, invariavelmente, autoacusações transformadas, que reemergiram do recalcamento e que sempre se relacionam com algum ato sexual praticado com prazer na infância" (Freud, 1896b, 169). Posteriormente, o que reemerge alcança a consciência como uma "formação de compromisso entre as representações recalcadas e as recalcadoras" (Freud, 1896b, p.170).

A gênese

Em Notas sobre um caso de neurose obsessiva, Freud (1909/1996) demonstra que o desejo e o medo obsessivos já se encontravam associados desde a infância do paciente, participando dos sintomas e medidas de proteção que adotava. O sofrimento estava associado à ideias obsessivas relacionadas ao suplício dos ratos e ao suicídio. Comenta ele que, ao seu paciente tocar no assunto dos ratos, sua expressão se configurava como um "horror ao prazer todo seu do qual ele mesmo não estava ciente". Freud ressalta, ainda, que "os resultados de uma doença dessa natureza nunca são involuntários; na realidade, o que parece ser a consequência da doença é a causa ou motivo de ficar doente" (1909/1996, p.175). Ao dizer isso, menciona os ganhos secundários da doença, obstáculo que favorece o apego ao sintoma. O pensar obsessivo é erotizado e resulta do contínuo deslocamento de afeto de uma representação a outra.

O recalque

Sigmund Freud, ao longo de suas reflexões acerca do interesse central dessa nossa investigação, escreve, de modo incisivo, que, na neurose obsessiva: (Texto I)

A partir do texto sobre o recalque, observa-se a magnitude do trabalho envolvido no processo de defesa, dado o dispêndio contínuo de força não só para repelir algo, mas também para mantê-lo distante da consciência, pois o recalque, apesar de bem sucedido a princípio, não tarda a falhar, permitindo com que o conteúdo recalcado retorne.

Elementos-chave

O trabalho de recalque deve, assim, operar "numa luta sem êxito nem fim" (Freud, 1915b/2004, p.186). Com a finalidade de se distanciar das relações originais entre afeto e representação, o obsessivo lança mão de uma série de explicações para dar conta de seu sofrimento e explicar seu sintoma, trata-se da racionalização, a qual emerge na forma de um obstáculo ao tratamento, pois tolhe o engajamento do neurótico à regra fundamental. Em seu livro Além do Princípio do Prazer (1920/2006), Freud já destaca que existem tendências que se impõem ao Princípio do Prazer que podem neste provocar: (Texto II)

É interessante ressaltar o que Freud explicita acerca do trabalho psicanalítico - em detrimento do que vinha sendo feito fortemente nos primórdios da psicanálise: (Texto III)

No que se refere ao trauma, afirma que quando esse tipo de experiência desprazerosa ameaça o psiquismo, desencadeia processos que visam dar conta do trauma de alguma maneira. Assim, por exemplo, os sonhos nas neuroses traumáticas: (Texto IV)

O aparelho psíquico continua operando em favor do princípio do prazer, uma vez que deve primeiro dar conta do trauma para posteriormente se dirigir à satisfação.

Trechos

TEXTO I

encontramos o redirecionamento contra a própria pessoa, sem fazer-se acompanhar da passividade perante outra pessoa. A compulsão de atormentar se transforma em auto-tormento, autopunição, mas não em masoquismo" (FREUD, 1915a/2004, p.153).

TEXTO II

um longo desvio que implica a postergação de uma satisfação imediata, bem como a renuncia às diversas possibilidades de consegui-la, e a tolerância provisória de desprazer" (FREUD, 1920/2006, p. 137).

TEXTO III

A arte agora consiste em desvelar essas resistências o mais rápido possível, mostrá-las ao paciente e utilizar então a nossa capacidade humana de persuasão (aqui a sugestão estava então operando como ´transferência´) para convencê-lo a abrir mão dessas resistências" (FREUD, 1920/2006, p. 144).

TEXTO IV

Buscam resgatar a capacidade do aparelho de processar os estímulos que afluem quando do desencadeamento do medo - processamento cuja ausência no passado foi causa da neurose traumática" (FREUD, 1920/2006, p. 156).

FIQUE POR DENTRO

Um breve comentário sobre a neurose

Elisabeth Roudinesco, em seu "Dicionário de Psicanálise", nos afirma foi William Cullen o inventor do termo neurose, ainda na segunda metade do século XVIII, atestando, assim, a "renovação do olhar clínico que pusera em voga a abertura de cadáveres e, portanto, a observação direta e post mortem dos órgãos que tinham sofrida diversas patologias. Daí a ideia de criar uma palavra genérica para designar o conjunto dos problemas da sensibilidade e da mortricidade que não apreesntavam febre nem relação com qualquer órgão. Assim nasceu a definição moderna de neurose, que permitiu construir uma nosografia pela negativa, incluindo em seu campo o domínio das doenças para as quais a nova medicina anatomopatológica não encontrava nenhuma explicação orgânica.

EDUARDO SILVA TAVEIRA/HENRIQUE RIEDEL NUNES*
COLABORADORES

*Pesquisadores Associados ao Laboratório de Psicanálise da UFCz

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