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Observador da intimidade

Seja a contracultura ou o mundo dos novos ricos de Nova York, Tom Wolfe devassou temas polêmicos dos EUA

Cena do longa-metragem "Os Eleitos", Philip Kaufman: adaptação do filme de Tom Wolfe para as telas foi um sucesso de crítica. Experiência do autor com ficção, contudo, não lhe garantiu uma boa performance em Hollywood
00:00 · 17.05.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

Duas décadas depois de testemunhar os controversos acontecimentos da contracultura, Tom Wolfe pariu um retrato hiperrealista e corrosivo da Nova York dos anos 1980, mesmo investindo na ficção. No romance "A Fogueira das Vaidades", o autor nos apresenta um jovem e ambicioso banqueiro de Wall Street envolvido em um crime de trânsito. A obra foi adaptada para os cinemas com Tom Hanks no papel principal. Contudo, mesmo tendo na direção um nome como Brian De Palma, foi recebido de maneira fira pela crítica.

Nem toda a experiência em Hollywood, entretanto, foi de insucessos. Publicado em 1979, "Os Eleitos", ensaio sobre os pioneiros da conquista espacial norte-americana, também foi transposto para as telonas, com direção competente de Philip Kaufman. O texto deu origem ao filme homônimo de 1983, em que Sam Shepard (1943-2017) vive o piloto de testes da Força Aérea Chuck Yeager, o primeiro homem a romper a barreira do som.

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Casado desde 1978 com Sheila Berger, diretora artística da revista Harper's, e pai de dois filhos, o jornalista e escritor levava uma vida discreta em Manhattan, um tipo de vida bem diferente dos escândalos que povoaram seus romances.

Filho de um engenheiro e de uma dona de casa apaixonada pelas artes e boa educação, Tom Wolfe nasceu em Richmond, estado Virgínia (EUA). Aceito na prestigiosa Universidade de Princeton, preferiu a Universidade Washington & Lee para permanecer perto dos pais, antes de partir para Yale.

Trajetória

Sem interesse algum pela carreira de professor, iniciou no jornalismo no modesto Springfield Union, um jornal de Massachusetts, em 1956. Dois anos depois, ingressou no The Washington Post como correspondente em Havana, e depois na capital dos EUA, Washington DC. Pediu demissão em 1962 e mudou-se para Nova York para trabalhar como repórter freelancer. É nesse instante que surge a oportunidade via revista Esquire de escrever a reportagem que o firmaria como escritor.

Na obra "O Novo Jornalismo" (1973), Wolfe estabelece um documento da atividade dos profissionais ligados ao chamado "novo jornalismo". Reflete sobre a atuação daquela turma de repórteres que tentou decifrar temas tabus dos Estados Unidos. O status de realizador liberal, no entanto, foi se diluindo ao longo do tempo quando Wolfe declarou que Ronald Reagan (1911-2004) foi "um dos maiores presidentes de todos os tempos". Em outra oportunidade, quando eleitores disseram que deixariam o Estados Unidos caso George W. Bush fosse eleito, Wolfe disse que poderia ir para o aeroporto de Kennedy para despedir-se deles.

Obras

Wolfe continuou também a publicar livros de ensaios, abarcando temas tão diversos como a história da arquitetura moderna, em "From Bauhaus to Our House" (1981). Outros assuntos iluminados pela ótica deste cronista foram as tensões raciais no sul ("Um Homem por Inteiro", 1998), o sistema universitário ("I Am Charlotte Simmons", 2004), a imigração ("Sangue nas Veias", 2013).

Como um crítico dos costumes americanos procurou histórias que explicaram a admiração do autor pelo romance realista francês, particularmente por Émile Zola (1840-1902). Em 2016, já aos 85 anos, mostrava que não tinha perdido a rapidez mental com um novo livro, "O reino da fala", um ensaio que celebra a importância da linguagem nas realizações humanas.

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