Reportagem História

Obra recupera "fake news" do século XVIII

Os conflitos entre nativos das Américas e os europeus são uma das bases verídicas do texto ficcional
00:00 · 14.04.2018 por Claudio Leal - Folhapress

De golpe em golpe, um vigarista espanhol ingressa na Companhia de Jesus e decide sobreviver no Novo Mundo.

Lançado entre os missionários jesuítas na região do rio da Prata, ele subjuga indígenas, religiosos e colonizadores europeus, sendo coroado rei dos guaranis e líder de um exército malvado, que dominará a cidade de São Paulo.

Popular na Europa do século XVIII e difundida em gazetas e folhetos antes de virar livro em 1756, "A História de Nicolas I, Rei do Paraguai e Imperador dos Mamelucos" foi uma lorota de autor anônimo que seduziu o Velho Mundo, ganhou edições em quatro idiomas (francês, alemão, italiano e holandês), enganou o filósofo iluminista Voltaire e serviu de peça difamatória contra os jesuítas e suas missões na América do Sul.

Ainda naquele ano, a "fake news" setecentista ganharia sequência na segunda edição italiana, alimentada por "duas cartas escritas de Buenos Aires", outra série de cascatas sobre a vida de Nicolas I nas terras paulistas.

"Tomando-se cuidado para que a mentira esteja bem envolta em algumas verdades e moldada às expectativas do público, a narrativa falsa convence tanto no século XVIII quanto agora. Só o que mudou foi a rapidez da 'viralidade'", avalia a jornalista e historiadora Fernanda Veríssimo.

Veríssimo é a tradutora e organizadora da primeira edição da obra em português - nos anos 1960, Sérgio Buarque de Holanda prefaciou uma tradução para o espanhol da Universidade do Chile.

"A guerra guaranítica da qual o livro fala aconteceu dois anos antes da publicação, mas isso não impediu que marinheiros chegassem na região do Prata e se recusassem a descer do navio, com medo do 'Imperador Nicolas'", comenta a doutora em história pela Universidade Sorbonne - Paris 4.

Ou, complementa Veríssimo, "que Voltaire escrevesse a um amigo sobre o tal rei do Paraguai como se ele de fato existisse, antes de descobrir que era ficção mas, ainda assim, valendo-se da história para cutucar os jesuítas".

Pesquisa

Em 2003, como bolsista na biblioteca John Carter Brown, em Providence, nos Estados Unidos, Veríssimo conheceu e traduziu "A História de Nicolas I", mas suspendeu o trabalho para concluir sua tese sobre impressão de livros por jesuítas e guaranis nas missões do Paraguai.

Dez anos depois, ela retomou a pesquisa na mesma biblioteca, comparando as edições da novela picaresca e estudando a fortuna crítica.

A biografia do fictício Nicolas Rubioni, "nascido" em 1710 num burgo da Andaluzia, nutriu-se provavelmente de relatos de viajantes e cartas de jesuítas. Num estilo quase sempre canhestro, o escritor faz uma salada da vida sul-americana, ora crítico, ora compadecido dos indígenas escravizados.

"É daí que nasceu no coração dos índios, fugidos dos ferros dos vencedores, esse ódio implacável que juraram contra eles. Suas almas, atormentadas pelo espetáculo assustador de crimes desconhecidos no seio da barbárie, não podem ser tocadas pelas propostas que lhes são feitas de tempos em tempos, para instruí-los nas verdades santas da religião", diz um trecho.

Reduto dos "mamelucos", São Paulo convoca Nicolas 1º para governá-la em 1754, um desafio aceito pelo monarca degenerado e seu séquito de 6 mil homens.

O narrador rememora a ausência de mulheres na fundação da cidade pelos portugueses: "Viram-se assim obrigados a tomá-las dos índios. Desses casamentos bizarramente combinados nasceram crianças com todos os defeitos de suas mães, e talvez os de seus pais, sem nenhuma de suas virtudes".

As cidades vizinhas passaram a desprezar a segunda geração de brasileiros e a evitar o comércio com "gentes tão corrompidas". "Para marcar o supremo desprezo que tinham por eles, foi-lhes dado o nome mamelucos, pelo qual são conhecidos desde então".

No século XVIII, o mameluco podia ser o filho de europeu com mãe brasileira (índia ou negra), além do sentido mais tarde consolidado de filho de indígena e mestiço.

Fascínio

"Apesar de não serem muito bem escritas, essas 'memórias' são inteligentes porque aproveitam o fascínio de dois temas que encantavam o público leitor europeu da época: as maravilhas (ou horrores) do Novo Mundo e as peripécias de aventureiros e farsantes que batiam as estradas de todos os continentes", analisa a pesquisadora Fernanda Veríssimo.

Um desses trapaceiros pode agora ser mais conhecido dos brasileiros: "Nicolas, pela graça de Deus, Rei do Paraguai, Imperador dos Mamelucos, Senhor do Rio de Janeiro e do Uruguai, socorro de seus vassalos e terror de seus inimigos".

Livro

A história de Nicolas I, Rei do Paraguai e Imperador dos Mamelucos
Anônimo

Organização e tradução: Fernanda Veríssimo
Editora Unesp
2018, 132 páginas
R$ 32

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