diário

Obra enreda leitor na aventura da intimidade

00:00 · 16.04.2018 por Álvaro Costa e Silva - Folhapress

Ao receber a bolsa que lhe permitiria terminar um projeto adiado por 16 anos, o escritor não teve dúvida: comprou duas poltronas e as dispôs no centro da sala.

Uma delas molenga: "Nas duas vezes em que sentei nela, peguei no sono". A outra, ideal para ler, nem foi usada: "Só me sentei para experimentá-la. Mas logo chegará a sua hora, como chegou a hora deste diário".

O objetivo da compra não era ler nem descansar. Paradoxalmente, era escrever. É a maldição do narrador.

Sua decrepitude, sua hipocondria, seus fracassos, suas mulheres, seus vícios, as ruas e os botecos de Montevidéu, o tango e a ioga, fazer ou não a barba, tudo se resume à tentativa de escrever.

É preciso transcender a "angústia difusa" para chegar ao "ócio razoável". Só então o autor estará pronto para "O romance luminoso" ("La novela luminosa", no original em espanhol, soa bem melhor, um título feminino e aberto que ficou masculino e fechado). Para não abandonar o hábito que o mantém vivo, o autor vai compondo seu "Diário da Bolsa", que ocupa a maior parte do livro.

Tradição

Escreve-se um diário para dar testemunho de uma época, confessar, experimentar, ensaiar esquemas, reflexões, teses críticas e filosóficas, fofocar, conviver com demônios e fantasmas. Pode até parecer ficção (o relato ficcional muitas vezes usa o formato), mas nem sempre é.

Nas mãos de Mario Levrero, o resultado alinha-se à tradição do diário de escritores (Kafka, Musil, Pavese, Cheever, Barthes, Woolf, Piglia). Todas as facetas do gênero estão nesta obra póstuma (também se escreve um diário para que seja publicado só após a morte do autor).

Porém, como o título indica, trata-se de uma ficção. Ou, ao menos, força-se a ler como ficção. Ao contrário do que acontece com livros de diários, não se consegue pular entradas. Levrero exige atenção total, e o leitor, preso na aventura da intimidade, não quer outra coisa.

A obra leva ao paroxismo a investigação de si que o autor sempre praticou, mesmo ao flertar parodicamente com a ficção científica ou em incursões pelo fantástico.

Já havia abordado a questão em "El diario de un canalla" (1991) e "El discurso vacío" (1996), que poderiam integrar a projeto luminoso. Em última análise, trata-se de autoajuda para escritores. Mas só para os mais ambiciosos.

Costuma-se aquilatar a importância do livro para a literatura latino-americana comparando-o ao romance "2666", de Roberto Bolaño. O mercado editorial adora essas comparações. Esta se explica porque ambos golpeiam com a urgência e o desespero de quem sabe que, em breve, não será mais possível escrever.

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