Ensaio

O vestuário e os valores da sociedade

00:00 · 10.01.2014
Os hábitos e costumes dos brasileiros são descritos em obras de literatos e nelas fica claro que a descrição do vestuário exerce fundamental importância para o entendimento de comportamentos tão diferentes dos observados na atualidade. Verificamos que uma peça de roupa pode simbolizar o reflexo da economia vigente, como o jogo de mostrar e esconder as partes do corpo pode significar o caráter das personagens, ou despertar paixões avassaladoras, como bem nos mostra Ximenes (2011): (Texto IV)

Estética e identidade

A temática Moda e Literatura já foi objeto de estudo de diversos autores, como Rodrigues (2010), Souza (2008) Ximenes (2011), Salomon (2007), Silveira (2011), onde se pode encontrar estudos e análises detalhados sobre a vestimenta descrita por autores literários brasileiros.

Souza (2008) também nos apresenta uma série de considerações e análises da ligação entre moda e literatura, demonstrando como estes são responsáveis por difundir as relações estéticas que compõem a identidade cultural de uma sociedade, ao citarem em suas obras literárias detalhes de peças de roupa e acessórios: (Texto V)

Vemos como os literatos são capazes de projetar em seus personagens e nas descrições de suas vestes características da sociedade na qual eles estão inseridos, onde, muitas vezes, as roupas dos personagens funcionam também como reflexo de sua personalidade. Entretanto, não é objetivo desde trabalho adentrar em questões psicanalíticas e psicológicas. Pretende-se demonstrar a funcionalidade da moda como elemento da estrutura narrativa, como define Silveira (2010): (Texto VI). Se no contexto da Literatura o texto se ergue juntando-se elementos os mais variados, da mesma forma a Moda se constrói de detalhes, que, juntos, compõem a trama social. Não há que se negar, portanto, que a indumentária, não só no contexto literário, mas no social constitui-se elemento de afirmação e de imposição, ainda que, em alguns momentos históricos se preste a impor ideologias e comportamentos. (SILVEIRA, p. 15, 2010)

Através da descrição das peças usadas pelos personagens, os escritores românticos, além de provocarem a imaginação dos leitores, também os colocavam a par da situação social à qual pertencia cada personagem dos livros, evidenciando, dessa forma, o simbolismo arraigado nos trajes da época, de acordo com Ximenes (2011): (Texto VII)

O vestuário se revelava, portanto, um incrível sinalizador de posição social e diferenciação de sexo, mostrando que a moda opera sobre um tripé de facetas: social, psicológica e estética. Todas essas diferenças posicionavam as tarefas de cada um dos sexos na sociedade. (XIMENES, p. 21, 2011).

Deve-se pensar na moda como artifício para a estruturação da obra dentro do espaço ficcional da literatura, onde ambas exercem expressão da manifestação cultural e funcionam como produto sócio-histórico de sua época. Além disso, as obras literárias durante o século XIX no Brasil repercutiam hábitos, comportamentos e costumes, educando as moças e os rapazes de uma elite minoritária composta por aqueles que eram alfabetizados e tinham acesso à leitura.

Considerações finais

Dessa forma, nos livros, folhetins e periódicos da época, percebiam-se regras e códigos de comportamento que ensinavam os leitores burgueses elitistas como vestir-se e comportar-se adequadamente, incorporando à moda brasileira a influência da moda europeia, exemplo de um padrão civilizado a ser seguido. Outros importantes difusores da moda e da boa etiqueta durante o século XIX no Rio de Janeiro, segundo Rainho (2002), foram os jornais femininos. Além da publicação de modelos de vestimentas inspirados nas vestes francesas, as colunas desses jornais também apresentavam valor didático, com seções especializadas em moda. como afirma a autora: (Texto VIII)

Em diversas obras machadianas, percebe-se a incorporação de elementos literários que remetem a uma análise dos hábitos da sociedade em que o autor vivia. (L. F.)

Trechos

TEXTO IV

Trata-se ainda do século da alta-costura e da criação dos novos espaços de sociabilidade burguesa, como a ópera, o teatro, os bailes, dentre outros. Tudo isso aumentou vertiginosamente o acesso à moda e a possibilidades de aparições públicas (principalmente da mulher burguesa). Outra especificidade que esse período traz é o uso da fotografia e das pranchas de moda para ilustrar as tendências da época, as quais eram demonstrações fiéis do que ocorria Podia-se, então, valer desses artifícios visuais verossímeis e também de crônicas de jornal, estudos de moda, romances e relatos como os de Balzac, Proust, Baudelaire e outros literatos da época. (XIMENES, p. 21, 2011).

TEXTO V

São menções a elementos como vestidos, sobrecasacas, chapéus, finos calçados, entre muitos outros; todos estes objetos sendo referidos não por uma eventual tentativa de caracterização da ´realidade´, mas sim pelos significados mais amplos que adquirem ao longo da prosa machadiana. (SOUZA, p. 7, 2008)

TEXTO VIII

Esses jornais - que começaram a circular no Rio de Janeiro em 1827 - já traziam em suas páginas seções especializadas em moda, nas quais eram publicados e minuciosamente descritos modelos de vestimentas que seguiam as tendências da moda francesa, cujos exemplares já eram vendidos nas lojas comerciais da cidade. Um outro dado importante é o caráter didático dessas colunas, que discutiam a adoção e o consumo da moda e divulgavam lojas e produtos, satisfazendo os desejos da "boa sociedade" de incorporar os padrões europeus de vestimenta.

(RAINHO, 2002, p. 15)

SAIBA MAIS

CORONEL, Luciana Paiva, Literatura como fonte: a interpretação do Brasil contida na literatura de periferia dos anos 90. USP, 2008

DIAS, Ana Lúcia Bentes, A Literatura como fonte para a História da Educação. Universidade Federal do Pará, 2008

SOUZA, Gilda de Mello e. O Espírito das Roupas. Ed. Companhia das

Letras, São Paulo, 1987

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