Nélson Rodrigues

O universo mítico de Dorotéia

22:08 · 11.03.2006
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Nélson Rodrigues (1912-1980) rompeu, praticamente, com todas as tradições cênicas: explorou os planos dramáticos, a simultaneidade de tempo e de ação, bem como colheu do cinema as técnicas variadas de corte e de ritmo. Suas peças se caracterizam pela recorrência temática, centradas, essencialmente, nas transgressões de comportamento. Nesta edição, a Diretora de Teatro Herê Aquino percorre a atmosfera da peça ´Dorotéia´ - a última criação do ciclo mítico de Nélson Rodrigues.

Dorotéia é a ultima peça do chamado ´ciclo mítico´ de Nélson Rodrigues. A história acontece em uma mórbida casa, onde se tem a nítida impressão de um tempo emperrado, pois nada se transforma.

A casa reflete um cosmo castrado, ordenado, austero, onde o ciclo da ´vida´ se repete sem mudanças. Feita apenas de salas e nenhum quarto é reduto das primas D.Flávia, Carmelita e Maura, viúvas de luto enclausuradas em si mesmas e nos limites estreitos da família-genesíaca, e também, síntese das principais energias do mundo particular, a casa, como simbologia do sagrado e do mundo exterior, a rua, como simbologia do profano.

Em suas peças míticas, Nelson Rodrigues explorou fortemente a simbologia de mitos veiculados na Idade Média mas com raízes que se estendem até a sociedade moderna. O autor leva em conta que o mito integra toda a existência e torna manifesta a possibilidade dos mais diversos comportamentos, pensamentos e linguagens humanas. Nelson Rodrigues sabia da importância da utilização dos mitos como possibilidade de percebermos os modelos universais das atitudes humanas que se perpetuaram no tempo, bem como, que a sua utilização seria também, uma maneira que garantiria a compreensão e a complexidade desses mitos e a sua reatualização através das épocas.

A raiz do mito está na tentativa humana de penetrar, pela imaginação, os esconderijos do que não se pode explicar de outra maneira: o mistério da existência. A realidade das coisas demonstra a repetição das origens, nos ciclos da vida. Reconhecendo, em cada ato cotidiano, uma participação nos grandes ciclos da vida - que não são mais que a repetição dos ciclos/modelos narrados pela mitologia, o homem participa da eternidade e supera sua transitoriedade. Integrado em suas origens ele, se não consegue sobreviver, consegue viver integralmente. Assim, a própria morte faz sentido: é o fim da última repetição, a suprema integração nas origens. Por seu caráter fundamental, o mito conserva, até hoje, vitalidade e presença: ele trata dos mesmos problemas, existenciais, morais e sociais, que continuam a afligir a humanidade.

Os mitos do sexo como pecado; da beleza ligada à maldição; da doença como purificação da alma; da feiúra como espantalho do demônio; da condenação do filho rebelde a voltar ao útero materno; e da recusa do próprio corpo que transforma a rigidez em morte, são exemplos disso na peça.

Em Dorotéia, Nélson Rodrigues se baseia, principalmente, no mito do Regressus ad uterum para desenvolver a argumentação do texto. Dorotéia volta para a casa(útero), com o objetivo de ser igual as primas. Ela diz: ´Então em pensei em minha família... jurei ser uma senhora de bom conceito... e aqui estou...´ Já Das Dores, quase no final da peça, volta para o útero da mão dizendo: ´Escuta: serei, de novo, filha de minha mãe! E nascerei viva... e crescerei... e me farei mulher...´ Todas essas posturas registram uma abdicação de uma vida anterior para, só assim, surgir uma outra.

O Regressus ad uterum é efetuado com o objetivo de fazer com que o recipiendário nasça para um novo modo de ser ou possa regenerá-lo. Do ponto de vista do mito, tal retorno corresponde à regressão do universo ao estado caótico ou embrionário. As trevas pré-natais correspondem à noite anterior à criação e às trevas da cabana iniciatória. Portanto, o autor passa a ser o recriador de um inconsciente universal.

Nélson Rodrigues privilegia a mulher-sentimento em detrimento da mulher-prazer e da mulher casta. A prostituta triunfa sobre as viúvas mas até certo ponto e Dorotéia apodrece junto à prima D.Flávia, com o corpo tomado pelas chagas. As chagas como simbologia da negação do próprio corpo e da castração dos impulsos naturais que enrijece o ser e recalca o desejo.

A idéia de culpa e castigo, na ousadia da ultrapassagem do métron (A medida de cada um), foi um elemento-chave das tragédias desde a Grécia antiga e Nélson Rodrigues soube utilizá-la, de forma muito apropriada, como mola mestra da peça. Em Dorotéia ele não mata a personagem-título no sentido nato da palavra; a morte vem em vida, porque, como herói trágico, Dorotéia deve sofrer e espiar a culpa para, com isso, se purificar e poder dar início a um novo começo. O herói trágico morre, mas na vida sacrificada nasce uma nova vida, um novo ser, um novo vir a ser.

Trazendo isso para o texto, o que vemos é a casa-útero, como representante de um cosmo, retornar ao estado caótico com a volta de Dorotéia. A quebra da ordem existente cria o caos, as trevas, a situação embrionária, para daí, nascer um novo cosmo.

Leio, portanto, cautelosamente nas entrelinhas, que Nelson Rodrigues, como Sófocles, deixa transparecer o olho verde de Pandora, como uma luz no fim do túnel. Vejamos: O que acontece no final da peça? Dorotéia (como Ego, Eu, SER) apodrece junto à Flávia (Super-ego, Super-eu, SOCIEDADE), ou seja, o ser e a sociedade apodrecem juntos, sofrem na expiação de suas culpas.

Numa leitura rápida e superficial, pode ficar somente a cruel imagem da descrença do autor para com o homem e o mundo. Mas, eis que aqui, aparece a genialidade da dramaturgia de Nelson Rodrigues, deixando-se de lado qualquer julgamento de cunho moral. Ao colocar Das Dores, adolescente que nasceu morta mas que não pode morrer porque ainda não tinha sentido a náusea que todas as mulheres da família sentem na noite núpcias, dentro de Flavia, mostra o olho verde de Pandora (a esperança), já que Das Dores renega a náusea por amor a Eusébio. Das Dores, não só deseja sexualmente como as outras, mas ama e o amor para Nelson é sagrado.

Também se pensarmos, a personagem Dorotéia, como Herói trágico, aquele ser que caiu no infortúnio, não por ser perverso ou vil, mas por causa de algum erro, de uma grande falta cometida e que mesmo cometendo crimes, definitivamente, os heróis trágicos não são malvados ou culpados e que a desgraça sofrida por eles é imerecida, então temos muitos que discutir o porque que Nelson coloca a personagem para apodrecer junto a prima no final do espetáculo. Descrença total com a sociedade e o homem ou a necessidade da morte do velho para o nascimento do novo? A consagração de uma utopia numa sociedade construída por seres apaixonados? A possibilidade do triunfo da Vida(Eros) sobre a morte(Thanatos) através do amor? Acho que é nessa brecha que está o olho verde de Pandora, a esperança, que Nelson, aparentemente, sugere negar. Dorotéia e Flavia apodrecem juntas mas dentro de Flávia está Das Dores, a possibilidade da nova estirpe, nova genealogia, agora calcada na vida (Amor/ Eros) e não na morte (Thanatos).

Para mim, Nelson renega o homem e a sociedade como estão, através de Dorotéia e Flavia e abre a possibilidade de um mundo diferente através de Das Dores.

Esse raciocínio continua quando Das Dores, ao contrário da primas, vê Eusébio e não as botinas. Ela vê o ´ser´ como um todo e não o objeto do desejo, por isso se apaixona; as primas, que recalcaram o desejo, na presença masculina, não conseguem enxergar nada que não seja o próprio objeto desejado, no caso as botinas, como símbolo fálico.

Em Dorotéia, Nelson Rodrigues recorreu a personagens arquetípicas, avessas às oscilações psicológicas, apelou para a simbolização de admirável poder sintético e abordou temas que atingiram o drama humano na sua origem. O amor, o sexo, o pecado e a morte são temas complexos e de profundo mergulho na alma humana e nos seus mecanismos de defesa. Com esses temas, Nelson provoca visceralmente o público e o coloca inúmeras vezes em situações desagradáveis. A alma humana, é engolida e ruminada nas peças de nosso dramaturgo, levando o espectador às suas memórias e arquétipos que provocam não um alívio catártico, mas um mal-estar de uma autoconsciência.

É o movimento originário da vida que traz na família, uma estrutura mítica em crise, o lastro estrutural no qual se apóia, não o retrato cristalizado de modos de vida, mas os arquétipos e símbolos que compõem a base para mais um elemento de discussão pela compreensão dessa tão complexa natureza humana.

Caricaturalmente, ou mesmo numa cópia fiel, somos nós, a sociedade e os nossos dramas, a fonte de inspiração de Nelson, por isso é possível observarmos as mesmas situações, as mesmas artimanhas e caminhos fora do palco.

Em ´Nelson, feminino e masculino´ Irã Salomão fala que através dos personagens das obras de Nelson, representa-se o melhor e o pior do homem real. Há neles o mais profundo de nosso ser, ao mesmo tempo que temos o alívio quase verdadeiro de saber que o que se passa no palco não é exatamente o que somos. O representado não é o banal cotidiano, mas o impossível ou quase e através desse impossível, o teatro fala daquilo que de alguma forma somos.

Quando o espectador se der conta de que as peças de Nelson e suas personagens tornam-se, aos poucos, praticamente um pretexto para falarmos de nossas vidas, então ele poderá alçar vôo na compreensão do que se destacará do teatro e alcançará a todos.

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