Ensaio

O universo familiar na poética de Carlos Drummond de Andrade

A temática envolvendo a terra e a família constitui um dos pilares do discurso poético de Drummond

00:00 · 26.10.2014

Em "Poema de sete faces", na sua quarta estrofe, Carlos Drummond de Andrade escreve os seguintes versos: (Texto I)

Essa estrofe é toda centrada no "homem atrás dos óculos e do bigode". Evidentemente, uma figura enigmática. Mas, a partir da leitura de outros poemas, espalhados ao longo da obra do autor, tais como: "Retrato de Família", (PP, p.143-144) "Como um presente", (PP, p.146-148) "Rua da Madrugada", (PP, p.148-150) e "Encontro", (PP, p.237) entre outros, podemos inferir que se trata da figura do pai, mais densamente apresentada no poema "A Mesa". (PP, p.237-24l)

O homem é configurado "atrás dos óculos e do bigode", para que melhor fique caracterizada a sua permanente atitude de esconder-se do filho no sentido de que não sabe exercitar a sua afetividade, não se prolonga no outro, estando sempre enclausurado em si mesmo, segundo os verso de "Como um Presente" (Texto II)

Leitura do poema

Nesse poema, composto a partir da metáfora "no escuro", entre múltiplas evocações, o "aniversário", rompendo, através do poético, as fronteiras do tempo e do espaço, possibilita um encontro entre o eu lírico e seu pai.

Nesse contexto, já não se impõem as formalidades da convivência familiar, exteriorizadas em gestos de beijar a mão ou outros que impliquem reverência. Ergue-se, ao longo de todo o texto, uma atmosfera de realidades psíquicas e espirituais, estabelecida através da tentativa de desvendar um "segredo". Este, por sua vez, não se insere no rol do que simplesmente está sob o jugo dos sentidos, fazendo, assim, parte da realidade objetiva - aqui representada por "papéis do cofre", "casas", "casarão azul", dentre outros elementos formadores das relações sociais, políticas, econômicas ou apenas familiares.

Vasos comunicantes

Somente "no escuro", território da reconciliação, o poético poderá lançar o seu lume sobre esse "segredo". Nele, estabelecem-se os mais diversos contatos, sedimenta-se o entendimento entre o pai e o filho, e o "pó" e o "sono " se despem de quaisquer associações a estados de destruição, decomposição ou alienação.

Existe, por parte do eu lírico, uma incansável busca da natureza daquele "segredo", que faz do pai um homem habilidoso, com autoridade sobre os familiares, com poder sobre assombrações, estando os seres e as coisas inexoravelmente sob o seu domínio. O verso "então não era segredo?" sugere, ligado ao contexto, que o suposto "segredo" se explica como mero efeito de uma personalidade forte, a impressionar a consciência do eu lírico. Finalmente, o poeta pede ao homem que "Quase não conversa" perdão pela "longa conversa. / Palavras tão poucas, antes!" e, lembrando a intimidação de antanho, descobre, despido de rancor ou mágoa, o amor austero, reprimido do pai: "Guardavas talvez o amor / em tripla cerca de espinhos." E já "No escuro em que fazes anos. / no escuro, / é permitido sorrir".

A leitura de "Como um Presente" leva-nos à conclusão de que, através de um processo de composição sedimentado nas representações simbólicas de "no escuro" e "segredo", em que são recolhidos fragmentos múltiplos de uma realidade psicossocial, somente sob a atmosfera da poesia é possível a realização plena de um encontro entre a figura do pai e a do eu lírico. Sendo um "presente" deste àquele, a poesia, entrelaçando, sob vários planos, elementos exteriores a interiores, isto é, paisagens a experiências humanas, recupera filamentos daquele "amor" guardado "em tripla cerca de espinhos". Naturalmente, antes, nunca revelado por aquele "homem atrás dos óculos e do bigode", solitário em seu poder sobre gente e terra.

Carlos Augusto Viana
Editor*

Trechos

TEXTO I

O homem atrás do bigode / é sério, simples e forte. / Quase não conversa. / Tem poucos, raros amigos / o homem atrás dos óculos e do bigode.

TEXTO II

Teu aniversário, no escuro, / não se comemora.///Não mais te peço a mão enrugada / para beijar-lhe as veias grossas. / Nem procuro nos olhos estriados/ aquela interrogação: está chegando? /// Mas teu segredo não descubro. / Não está nos papéis / do cofre. Nem nas casas que habitaste. / No casarão azul / vejo a fieira de quartos sem chave, ouço teu passo / noturno, teu pigarro, e sinto os bois / e sinto as tropas que levavas pela Mata / e sinto as eleições (teu desprezo) e sinto a Câmara / e passos na escada, que sobem, / e os soldados que sobem, vermelhos, / e armas que vão talvez te matar, / mas que não ousam. /// Quisera abandonar-te, negar-te, fugir-te, / mas curioso: / já não estás, e te sinto, / não me falas, e te converso. / E tanto nos entendemos, no escuro, no pó, no sono. / /// E pergunto teu segredo. /Não respondes. Não o tinhas. / Realmente não o tinhas, me enganavas? / Então aquele maravilhoso poder de abrir garrafas sem saca-rolha, / de desatar nós, atravessar rios a cavalo, assistir, sem chorar, morte de filho, / expulsar assombrações apenas com teu passo duro, / o gado que sumia e voltava, embora peste varresse as fazendas, / o domínio total sobre irmãos, tios, primos, camaradas, caixeiros, Fiscais do governo, beatas, padres, médicos, mendigos, loucos mansos, loucos agitados, animais, coisas: então era segredo? /// E tu que me dizes tanto / disso não me contas nada. /// Perdoa a longa conversa. / Palavras tão poucas, antes! / É certo que me intimidavas. /// Guardavas talvez o amor / em tripla cerca de espinhos. / Já não precisas guardá-lo. / No escuro em que fazes anos, / no escuro, é permitido sorrir. (PP, p.146-148)TEXTO I

Saiba mais

ANDRADE, Carlos Drummond de.
Poesia e prosa.
Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1992
 
CARONE, Modesto.
A poética do silêncio.
São Paulo: Perspectiva, 1979
 
CHOCIAY,Rogério.
Teoria do verso.
São Paulo: Mc Graw do Brasil, 1974
 

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