Ensaio

O tom satírico na poética realista

00:23 · 17.08.2013
O poeta português Cesário Verde escreveu muitas poesias de tom satírico e ácidas críticas revestidas de ironia, mesmo quando fotografava a imagem do feminino.

No poema "Pró Pudor", que possui quatro quadras, mistura versos decassílabos com versos alexandrinos em rimas alternadas: (Texto II).

O eu lírico neste poema refere-se a sua solidão de todas as noites, satirizando, desse modo, a si mesmo como quem, despindo-se de qualquer sentimento de autocomiseração, tece notas de fino humor acerca de sua própria desgraça.

A postura

Para distanciar-se da frustração provocada por tal sentimento de vazio, ele ironiza-se utilizando a terceira pessoa do singular. Ele, portanto, se sente abraçado e aconchegado por ela - mulher imaginária -, fruto de sua solidão ele abraça a si mesmo, já que tem por fiel companheira a solidão, que o leva aos devaneios imaginários.

Leitura do poema

Atribuindo a uma terceira pessoa (a segunda pessoa é a solidão) seus sentimentos, seu lirismo sôfrego vela certa angústia por estar sozinho e ao mesmo descortina a sua ânsia por companhia.

Observa-se nesse belo jogo de linguagem utilizado pelo autor que o sujeito lírico atribui a ela (imaginação) sentimentos e características que na verdade são seus.

Recursos expressivos

Ele adormecia quando a sentia desleixada e langorosa, o que revela que quando sua fantasia acabava ele caia no sono, evitando perturbações decorrentes, portanto, da sua carência afetiva.

O uso da terceira pessoa tem duas funções no poema: a reflexiva, por serem atribuídos sentimentos que são próprios da entidade lírica e a representativa, que advinda da sua imaginação aflorada pela solidão, representa seus desejos, suas vontades. No segundo verso da segunda estrofe é utilizado o pronome oblíquo da terceira pessoa "Lhe", dando a entender que sua imaginação fantasiosamente o trazia companhia todas as noites. Observa-se também que a expressão "Todas as noites" abre as três primeiras estrofes do poema tornando visível a ideia de continuidade, repetição, desvelando o cumprimento de sua rotina noturna.

Um soneto

O poema "Manias", Cesário Verde compõe uma forma fixa, isto é, um soneto petrarquiano, de versos decassílabos: (Texto III).

Na estrofe de abertura do poema, percebemos, desde já, a confirmação do tema pela metáfora utilizada: como o velho não se renova, há, pois um desgaste vicioso.

Ademais, neste poema, o poeta Cesário Verde compara o mundo com o teatro dando-nos, com tal jogo, a impressão de estarmos diante de uma tragicomédia e imersos, ao mesmo tempo, na cena.

A cosmovisão

A visão de mundo imprime-se, sobremaneira, como a de um fotógrafo realista; uma espécie assim de uma peça teatral em cartaz há muito tempo, envelhecida, mas ativamente praticante da não renovação de suas manias, suas mazelas, suas tragédias, e enfim, todos os achaques; e o mundo, também envelhecido, seria o grande cenário da peça condenada ao castigo perpétuo de ser encenada.

Alegorias

A cena Coberta de remendos refere-se não só ao desgaste do mundo e da vida, como também, a uma espécie maquiagem de todas as coisas grotescas da ação humana. Atentando para o desfecho do poema, enxergamos a acidez irônica do poeta, traduzindo todo o seu sentimento simbiótico diante do mundo e da vida. O sujeito da escrita, com tal estratégia de composição, nos põe a nós, leitores, diante da reveladora experiência do grotesco, uma vez que esta acontece quando, ante uma até então desconheci tomamos a consciência de que o mundo não vive, enfim, em plena harmonia.

Uma narrativa

O poema "De Tarde" apresenta quatro estrofes em forma de quadra com versos decassílabos, musicalidade e predominância de aliteração - estes dois últimos recursos foram, amiúde, muito explorados pelos escritores simbolistas: (Texto IV).

Narrativo, o poema remete a um passado cavado da memória do eu lírico, basta observar que palavra de abertura da primeira estrofe é um pronome demonstrativo que em princípio dá ideia de distanciamento, mas, como na segunda estrofe o verbo haver está no pretérito, reforça-se a ideia de tempo transcorrido. E nesse "relato de memória" o poeta tece crítica à burguesia de origem campesina, pois exaltando a beleza da simplicidade do campo, sem grandeza, sem imposição, observa-se sua preferência pelo bucólico.

No primeiro verso da terceira estrofe Pouco depois, em cima duns penhascos o ser poético aponta para o engrandecimento emergente da referida burguesia e para os gozos advindos da prosperidade, porém, na última estrofe ele deixa claro que toda a pompa usufruída pela burguesa foi conquistada através da beleza simples, do idílico. O ramalhete rubro das papoulas simboliza o começo de tudo e fecha verso poema provocando a lembrança e ironizando, então, o esquecimento.

Recursos expressivos

Em "Num Tripúdio de Corte Rigoroso" encontramos versos decassílabos e alexandrinos, em quatro estrofes - fruto tal procedimento da concepção da poesia como um exercício livre, não preso a rígidas regras tampouco a modelos já estabelecidos. . Há na construção poema uso de aliterações que suscita musicalidade, predomínio de adjetivos, rimas interpoladas (ABBA) e utilização de metáforas: (Texto V)

A entidade lírica satirizando as correspondências amorosas relaciona a deusa do amor e da beleza na mitologia romana ao bom livro Secretário dos Amantes. Para tanto deturpa as características da deusa Vênus e com perfeita ironia descreve o estado apático dos seres enamorados. A deusa Vênus é romana e não grega, propositadamente, o autor utiliza a falsa informação como reforço para o desfecho. Secretário dos Amantes não pode ter sido inspirado na verdade deusa da beleza e do amor, este recurso da falsa informação enfatiza a negação do autor quanto ao valor estético de tal obra inspiradora. Critica a posição daqueles que não conseguem captar a legítima beleza das coisas e compram qualquer informação - ou livro - como verdade absoluta. A deusa grega pode relacionar-se com "presente de grego" aceito pelas falsas frases palpitantes, que espalha o falso choro, a falsa emoção, que sem verdade não se legitima. Na última estrofe, zomba, critica e ironiza, justificando o tema do poema, ele o faz "Num tripúdio de corte rigoroso". (A. E. N. )

Trechos

TEXTO II


Todas as noites ela me cingia / Nos braços, com brandura gasalhosa; / Todas as noites eu adormecia, / Sentindo-a desleixada a langorosa. /// Todas as noites uma fantasia / Lhe emanava da fronte imaginosa; / Todas as noites tinha uma mania, / Aquela concepção vertiginosa. /// Agora, há quase um mês, modernamente, / Ela tinha um furor dos mais soturnos, / Furor original, impertinente...

/// Todas as noites ela, ah! / Descalçava-me as botas,

os coturnos, /

E fazia-me cócegas nos pés...

TEXTO III

O mundo é velha cena ensanguentada. / Coberta de remendos, picaresca;

/ A vida é chula farsa assobiada,

/ Ou selvagem tragédia romanesca. /// Eu sei um rapaz, - hoje uma ossada -, / Que amava certa dama pedantesca, / Perversíssima, esquálida e chagada, / Mas cheia de jactância, quixotesca. /// Aos domingos a deia, já rugosa, / Concedia-lhe o braço, com preguiça, / E o dengue, em atitude receosa,

/// Na sujeição canina mais submissa, / Levava na tremente mão nervosa,

/ O livro com que a amante

ia ouvir missa!

TEXTO IV

Naquele pic-nic de burguesas, / Houve uma coisa simplesmente bela, / E que, sem ter história nem grandezas, / Em todo o caso dava uma aguarela. /// Foi quando tu, descendo do burrico, / Foste colher, sem imposturas tolas, / A um granzoal azul de grão-de-bico

/ Um ramalhete rubro de papoulas. /// Pouco depois, em cima duns penhascos, / Nós acampamos, inda o Sol se via; / E houve talhadas de melão, damascos, / E pão-de-ló molhado em malvasia

/// Mas, todo púrpuro a sair da renda / Dos teus dois seios como duas rolas, / Era o supremo encanto da merenda / O ramalhete rubro

das papoulas!

TEXTO V

Num tripúdio de corte rigoroso, / Eu sei quem descobriu Vênus linfática, / - Beleza escultural, grega, simpática, / Um tipo peregrino e luminoso. - /// Foi lâmpada no mundo cavernoso, / Inspiradora foi de carta enfática, / Onde a alma candente mas sem tática, / Se espraiava num canto lacrimoso. /// Mas ela em papel fino e perfumado, / Respondeu certas coisas deslumbrantes, / Que o puseram, ó céus, desapontado! /// Eram falsas as frases palpitantes / Pois que tudo, ó meu Deus, fora roubado / Ao bom dos Secretário dos Amantes.

SAIBA MAIS

ANTONIO,
Jorge Luiz. Cores, forma, luz, movimento: a poesia de Cesário Verde. São Paulo: Musa Editora / FAPESP, 2002.

BARBOSA, Osmar (org.). Poesias Completas de Cesário Verde. Rio de Janeiro: Ediouro, 1987.

CAMBESES, A. S. Paisagens com figuras: um estudo da obra de Cesário Verde. 2005 (Tese de Doutorado).

FIGUEIREDO, João Pinto de. A Vida de Cesário Verde. Lisboa: Editora I Presença, 1986.

MARTINS, Cabral. Cesário Verde ou a Transformação do Mundo. Lisboa: Editoria I Comunicação, 1988.

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