artes plásticas

O testemunho de Campelo Costa

Exposição na Galeria Vestigium investe em eixos temáticos para celebrar 50 anos de carreira do artista

Vaqueiros e festas religiosas dividem espaço na mostra de Campelo Costa com celebrações profanas e traços mais eróticos
00:00 · 09.08.2018
Campelo Costa

Os rastros deixados por um realizador intimamente ligado ao campo das artes visuais diz muito sobre sua trajetória profissional. Cada imagem ou peça revela inspirações e referências contidas ou responsáveis diretamente pelo ato criativo.

Pelos olhos destes observadores estão materializados contextos históricos e sociais do tempo em que atuaram. Traduzir esta experiências no papel tem sido uma das devoções de Campelo Costa.

O pernambucano, cuja trajetória pessoal e profissional confunde-se com o próprio cenário da cultura cearense, estabelece um ponto de encontro celebrativo com a estrada. A exposição "Campelo Costa: traços de um percurso artístico" será aberta ao público hoje (9), às 19h, e segue em cartaz até 6 de setembro na Galeria Vestigium. Gratuita, a iniciativa apresenta 40 obras recentes do arquiteto e desenhista, sob curadoria de Roberto Galvão.

O intuito é prestar uma homenagem aos 50 anos da primeira exposição individual de Campelo. Para estabelecer um rápido paralelo com as obras escolhidas, a mostra foi organizada em três eixos específicos.

Assim, a coleção obedece à divisão por temas essenciais na vida do realizador e se organiza nos blocos "Sertão", "Festa" e "Paisagem". Estão reunidos registros de memórias da infância, como visões de paisagens urbanas colhidas através das viagens do artista pelo globo. Outro elemento inspirador são as cenas de festas imaginárias desenvolvidas por Campelo Costa.

Destaque ainda para o lançamento do catálogo da exposição. A publicação apresenta a trajetória do artista e sua capacidade inata de construir intuitivamente, desde menino, perspectivas e traços sem guardar a menor preocupação com os rigores técnicos. "O desenho investe, estrutura o projeto. Há nessa atitude o sentido de atirar-se para frente. Nunca é arbitrário", traduz Campelo no texto presente no catálogo.

Na perspectiva do curador Roberto Galvão, Campelo Costa se insere na relevância de nomes como Raimundo Cela (1890- 1954) e Aldemir Martins (1922- 2006) e sua atuação dignifica a produção artística do estado.

Cenários

Toda essa vibrante construção visual baseia-se por traços por vezes precisos, outras vezes nervosos, "mas sempre na justa medida, corretos, como se de muito tempo já estivessem construídos em sua mente. Parece que o seu espírito salta por sua mão", diz Galvão.

Na coleção dedicada ao tema do "Sertão", as obras vasculham as reminiscências da infância vivida no município de Belo Jardim, ponto geográfico cravado no agreste pernambucano onde o artista nasceu. Os desenhos apresentam um universo carregado de tradições populares, como feiras, procissões, vaqueiros, beatos, entre outras atividades que são reflexo da identidade cultural do povo nordestino.

No universo "Festa", as obras refletem traços mais eróticos, musicais e ambientados nos festejos que iluminam o sertão. Nos desenhos é possível perceber a impregnação da melodia e do ritmo no resultado gráfico, que conta com registros de flagrantes de bandas musicais em ação ou de músicos isolados em atuação. Aqui também há imagens de festas profanas, religiosas, folclóricas e tradicionais.

Nessa temática, o curador apresenta uma curiosidade, ao destacar que as cenas de festividades religiosas são claras, leves em contraponto às cenas profanas bem mais escuras.

Já em "Paisagem", o artista apresenta registros das paisagens construídas. São mergulhos visuais feitos em viagens. Nesse campo, estão seus cadernos de folhas avulsas, item indispensável em suas viagens, com desenhos realizados sem intenções projetivas.

Nos registros não há desenhos de apresentação de projetos arquitetônicos. São paisagens urbanas sob o olhar do artista. Mesmo nos traços simples ele faz arte. Em quaisquer anotações dos seus cadernos de viagem, a arte sempre está presente de modo determinante.

Caminho

Antônio Carlos Campelo Costa, desenhista e arquiteto, realizou os primeiros voos no universo do desenho ainda menino, quando foi morar com a família na Base Aérea de Parnamirim.

Transferiu-se para Fortaleza, onde começou os trabalhos como desenhista. Participou de três Salões Municipais de Abril, sendo agraciado com os prêmios de melhor desenhista de 1966, 1967, 1968. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo em 1972, pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Nos anos de 1969 e 1971, foi premiado com trabalho em equipe na Bienal Internacional de São Paulo, na categoria de Arquitetura. Nas décadas de 1980 e 1990, realizou exposições individuais de desenhos, sendo premiado em 1997 no Salão Norman Rockwell, promovido pelo IBEU-CE. No mesmo ano, comemorou três décadas de participações em exposições com a mostra "Campelo Costa: Personalidade, Músicos, Eros, Arquitetura".

Mais informações:

Exposição "Campelo Costa: traços de um percurso artístico". Abertura hoje (9), às 19 horas, na Galeria Vestigium (R. Nogueira Acioli, 891, Centro). Em cartaz até 6 de setembro, de segunda a sexta, das 15h às 19h, e sábado, das 9h às 14h. Gratuito. Contato: (85) 98180.7268

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