Música

O tempo e as canções

02:54 · 06.05.2004
( José Leomar )

Rodger Rogério, um dos maiores compositores da geração do “Pessoal do Ceará”, enfim lança seu primeiro disco-solo, resultado de participação especial na Feira da Música 2003. O álbum dá vazão a parte de uma obra esmerada, tecida desde a década de 60, e será apresentado logo mais, no lançamento da próxima edição do evento

Aos 60 anos, Rodger Rogério recebeu com entusiasmo a proposta de gravar um disco ao vivo, ano passado. Detalhe: em apenas duas horas e meia, com apenas um ensaio com os músicos. “Pense num desafio grande!”, sintetiza o cantor e compositor, que juntamente com Téti e Ednardo lançou, em 1973, o antológico LP “Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem”, mais conhecido por “Pessoal do Ceará”.

Naquele álbum, Ednardo já mostrava “Ingazeiras”, “Terral” e “Beira-mar”; Téti revelava o encanto de sua voz em faixas como “Dono dos teus olhos” e “Curta-metragem”. Esta, de autoria de um compositor cujas marcas pessoais podiam ser percebidas já naquela primeira amostra: Rodger Rogério.

Integrante de primeira hora da turma que em finais da década de 60 se revezava entre os campi da UFC, o bar do Anísio e os programas musicais da TV cearense, Rodger acumula quatro décadas dedicadas ao ofício da composição -o primeiro parceiro, ele revela, foi o “papa” Augusto Pontes, autor, entre letras de canções e tiradas memoráveis, do longo nome oficial do disco já citado. Artistas em potencial como Fagner, Belchior, Petrúcio Maia, Fausto Nilo, Jorge Mello e Amelinha davam corpo à turma que então se encontrava pelos caminhos de uma outra Fortaleza. Revezando-se entre os corredores do Curso de Física da UFC (em que passou de estudante a professor, até se aposentar como docente) e a música, Rodger se deixou seduzir pelo sonho: juntamente com a esposa, Téti, pegou a estrada para buscar no “Sul maravilha” as oportunidades de dar vazão a uma obra que não mais cabia nos palcos alencarinos.

Para Rodger e Téti, Ednardo e Belchior, uma das primeiras chances em São Paulo foi o programa “Proposta”, da TV Cultura. A idéia era compor canções que ilustrassem a história de cada entrevistado - cerca de oito músicas para cada programa, semanal. O “Pessoal do Ceará”, alcunha informal do radialista Júlio Lerner, topou a parada (o MPB-4 fora convidado, mas recusou a “proposta”). Dessa verborrágica criação, ficaram canções como “Ingazeiras” (que ilustrou o programa dedicado a Ademir Martins) e “Chão Sagrado” - singular parceria entre Rodger e Belchior, composta a partir de uma menção, vejam só, de Paulo Vanzolini ao Ceará.

Enxergando o potencial daqueles jovens, o polêmico radialista e produtor Walter Silva, o “Pica-Pau”, bancou a aposta. Conseguiu para a turma o contrato de gravação do primeiro disco. Nesse ínterim, porém, Fagner e Belchior já tinham boas perspectivas para discos próprios. Ainda buscando acesso à indústria fonográfica, estavam Rodger, Téti e Ednardo, que conceberam coletivamente “Meu Corpo,...”. Lançado nacionalmente pela Continental, o álbum surpreendeu, mais do que ninguém, o próprio público cearense, tão acostumado a desconfiar dos santos de casa.

Passado o impacto inicial, Ednardo fechou contrato para cuidar de sua carreira solo. Téti e Rodger gravaram então, em 75, “Chão Sagrado”, pela RCA, trazendo mais uma leva de boas composições de Rogério - como a faixa-título, “Bye, bye baião”, “Retrato Marrom” e “O Lago” - e de outros autores cearenses. Os caminhos do tempo levaram o casal, já com os filhos Daniela e Pedro Rogério, a retornar a Fortaleza, onde Rodger era chamado a reassumir suas funções na universidade.

Ao contrário do que pode parecer, mesmo com menor visibilidade desde então, Rodger nunca abandonou a música. Tem canções gravadas por intérpretes como Fagner e Ney Matogrosso e elenca ainda parceiros como Fausto Nilo, Ricardo Bezerra, Dedé Evangelista, o piauiense Clôdo e o pernambucano Capinam. Dedicou-se intensamente à carreira acadêmica e, descobrindo-se ator e participando de diversos filmes, superou a timidez que antes prejudicara sua carreira musical. Entre uma coisa e outra, nunca parou de compor e de se apresentar, em bares e centros culturais da capital.

No entanto, seus encontros com a fonografia se vinham resumindo à participação como convidado em discos de outros autores e projetos especiais. Por incrível que possa parecer - e eis aqui um dado exemplarmente revelador da deficiência das políticas culturais e das dificuldades de um modo geral enfrentadas pelos artistas cearenses, em seu próprio terreiro -, somente agora, aos 60 anos completos em janeiro último, Rodger Rogério lança seu primeiro disco-solo.

O álbum foi gravado ao vivo em 2 de agosto do ano passado, no Café Musical, espaço da Feira da Música. O clima de improviso da apresentação é amenizado pela categoria dos músicos: Aroldo Araújo (baixo), Manassés (violão e viola de 12), Mingo Araújo (percussão) e Pedro Rogério (isso mesmo, o filho do compositor) ao violão. “Em um estúdio, apresentei as partituras, conversamos, tocamos um pouco. Depois, já foi a gravação”, resume Rodger, ressaltando “a emocionante harmonia entre músicos, técnicos e uma platéia de amigos queridos”.

Se é de se pensar que só mesmo no Ceará um artista com a obra e a bagagem de Rodger Rogério seria obrigado a uma estréia tão tardia, melhor é receber esse primeiro registro, compreendendo o contexto que o leva a virtudes e deficiências. São apenas nove faixas, uma amostra mais do que sintética do baú de canções do autor, que assim constrói um breve retrato de sua trajetória. “Preparamos dez faixas, mas uma não teve qualidade. Levamos mais de uma hora passando o som, o que é sempre complicado, em todo disco ao vivo”, testemunha Rodger. “Mas, dentro das condições, gostei do resultado. O instrumental está ótimo, são músicos excelentes, que já conheciam parte do repertório. E a qualidade do som também está muito boa”, avalia.

Quanto ao repertório, o músico reconhece a ausência de canções mais conhecidas, como “Falando da Vida” e “Bye-bye, baião”. “Mas ‘Falando da Vida’ já tem gravações minha, da Téti e do Rogério (Franco, irmão mais novo de Rodger). E ‘Bye-bye, baião’, pela necessidade rítimica, ficava um pouco fora da proposta desse disco”, pontua. “Mesmo enxuto, o repertório mostra bem a minha criação”, emenda.

Ressaltando que já procurou caminhos como a Lei Estadual de Incentivo à Cultura - “Acabou não dando certo...” -, Rodger festeja o “primeiro disco” e já se entusiasma para novos projetos. “Penso em gravar um disco em estúdio, nem que seja só voz e violão, contemplando o repertório que não entrou neste CD. Mas tenho projetos pra um disco de música nordestina, um disco romântico, um instrumental, um infantil em parceria com o Augusto Pontes...”, esmiúça, enquanto revela ainda se estar acostumando à condição de “sessentão”. “São 40 anos de carteira da Ordem dos Músicos e 60 de idade. Qualquer coisa, já ando com o estatuto do idoso no bolso...”, brinca.

Dalwton Moura

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