Festival

O som desce a serra

O Jazz & Blues ecoa seu último dia em Guaramiranga. Agora é a vez de Fortaleza receber o Festival

O guitarrista Gustavo Andrade e o gaitista Jefferson Gonçalves no projeto Explosion Blues: performance eletrizante foi repleta de peças imortais do blues, country-blues, folk e funk-blues
00:00 · 15.02.2018 por Antonio Laudenir - Repórter
O compositor, pianista e cantor Adriano Grineberg apresentou o show Blues fo Africa, em formato inédito exclusivo para o Festival Jazz & Blues, com participação de Filipe Catto. A apresentação tem repeteco em Fortaleza no dia 16 ( Fotos: JL Rosa )

Toda despedida guarda certo roteiro emotivo. O desfecho do Festival Jazz & Blues seguiu essa premissa e a terça-feira de Carnaval em Guaramiranga pode ser lembrada como um dos dias mais cativantes do evento. Os timbres e acordes podem ter cessado na tranquilidade da Serra, mas a festa da música parte para outro trajeto e aporta em Fortaleza nos próximos dias 15 e 16, em três tradicionais equipamentos da cidade.

A festa acontece no Theatro José de Alencar (com ingresso gratuito), no Cineteatro São Luiz e Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB). Oportunidade única para o público da Capital conferir alguns dos concertos que brilharam no Maciço de Baturité.

Antes de falar sobre o que ainda vai acontecer, vale traçar um panorama do que foi o último dia da programação. Mesmo com um perceptível esvaziamento das ruas (muitas famílias adiantaram o retorno), a Cidade Jazz & Blues foi bastante requisitada, principalmente nas faixas de espetáculos que compreendem o Ensaio Aberto e o Show ao Pôr do Sol.

Pela ordem, o fim de tarde recebeu as comoventes visitas do trio cearense Rebeca Câmara, Natanael Pereira e Igor Ribeiro e do projeto Explosion Blues, capitaneado pelo cantor e guitarrista mineiro Gustavo Andrade e o gaitista carioca Jefferson Gonçalves. Atrações pontuais que não deixaram esmorecer o clima de festa.

Jovens representantes da nova safra musical cearense, a violonista e compositora Rebeca Câmara, o gaitista Natanael Pereira e o percussionista Igor Ribeiro apresentam um concerto inédito em suas carreiras.

Seguiram-se releituras instrumentais de clássicos como "Disparada" (Geraldo Vandré e Theo de Barros), "Samambaia" (César Camargo Mariano) e "Santa Morena" (de Jacob do Bandolim).

A gaita, o violão e a percussão se projetam organicamente durante a apresentação. Responsáveis por uma musicalidade solar e gostosa de ouvir, estes amigos conquistaram gradualmente a atenção da plateia.

As harmonias elaboradas refletem um universo sonoro sensível e contagiante. Para o público, o trio realizou um show tocante e isso pode ser percebido pela recepção carinhosa que a apresentação teve.

Oportunidade

Dotados de total serenidade na relação com seus instrumentos, os três se ancoram em trilhas e arranjos modernos. Se a Tropicália é umas das referências, também percebemos toda uma nordestinidade.

Ao centro, a performance de Rebeca é radiante. Reflete e integra também a leveza de Natanael e Igor. "Sempre participei daí onde vocês estão. Hoje estou aqui tendo a oportunidade de estar juntos destes amigos e tocar nesse Festival. É muito importante pra mim", defende a violonista

A alquimia do jovem trio soa pop, por vezes rural e melancólico. "Disparada" é ambientada por meio de um dedilhado hipnotizador. O tema segue crescente, até explodir num xote enérgico.

"Clube da Esquina II" ganha uma reinterpretação cheia de narrativas. A musicalidade dos três tem gosto de pegar a estrada, ir embora e seguir adiante. Que execução desta turma, quanta entrega.

Sobre esse formato e experimentalismo, Rebeca adverte que o primordial ao grupo é construir música onde o público sinta vontade de absorver. "Recebemos o convite para o festival e, assim, eu e Natanael já temos o costume de tocarmos juntos e nos apresentamos como dupla. Como era um trio, decidimos chamar o Igor", conta a musicista.

"A preocupação na hora de montar o repertório é que conseguíssemos fazer um show gostoso de ouvir. Ficamos naquela de curtir muito o que estamos tocando e trazer o público para também aproveitar. Acho importante para não ficar aquela coisa fechada", completa ela.

Eletrizante

Duas grandes referências do gênero no País, o cantor e guitarrista Gustavo Andrade e o gaitista Jefferson Gonçalves exibiram um som encorpado e repleto de groove. A força da dupla representa um trabalho musical com mais de 25 anos de estrada.

Na 19ª edição do Festival Jazz & Blues, entregaram um número permeado por alto astral, repleto de peças imortais do blues, country-blues, folk e funk-blues. Esse furacão contou com a pontual contribuição de Fabio Mesquita (baixo) e Andre Obermuller (bateria).

Boas vibrações

Em formato de show inédito, elaborado exclusivamente para o Jazz & Blues, o projeto Blues for Africa, do compositor, pianista e cantor Adriano Grineberg, contou no palco com a parceria de Filipe Catto, uma das vozes celebradas na música brasileira atualmente.

Entre diferentes composições visitadas, o show contou com uma versão inusitada de "Obaluaê", faixa emblemática do álbum "Ascensão", da cantora Serena Assumpção, que teve a participação de Catto e Grineberg.

A noite foi agraciada com uma musicalidade que transbordou o universo afro-brasileiro-americano, citando artistas como Nina Simone, Elis Regina, Billie Holiday, além de composições dos primeiros álbuns de Filipe Catto.

Teve "Three Little Birds" (Bob Marley), "Iko Iko", de James Crawford, um hino do Mardi Gras de Nova Orleans e até "Coroné Antonio Bento", do eterno síndico Tim Maia. Um repertório que mescla jazz e blues com composições tradicionais e ancestrais dos povos africanos.

Encerrando o expediente na Serra, o Festival recebe a Jam Sessions do projeto "Divas do Blues", com três das mais aplaudidas intérpretes da cena blues cearense: Marília Lima, Raíssa Dantas e Fernanda Fialho.

Fortaleza

Em Fortaleza três espaços vão receber a programação do Festival. No Cineteatro São Luiz acontecem shows de Dori Caymmi (quinta-feira, dia 15) e "Blues for Africa" de Adriano Grineberg com o convidado Filipe Catto (sexta-feira, 16), ambos às 19h.

Já no Centro Cultural Banco do Nordeste acontece oficina de gaita no dia 15, às 17h, com Jefferson Gonçalves, que na sequência, às 18h30, apresenta o show "Explosion Blues", ao lado do guitarrista Gustavo Andrade.

Para finaliza esta edição com chave de ouro, tem festa de encerramento no dia 16, às 20h30, no Theatro José de Alencar (TJA), com shows do cearense Davi Duarte e com o Duo Estro Cuba, além de elogiado espetáculo do Blues do Nordeste.

Programação

Quinta (15)

17h - Workshop de gaita: Jefferson Gonçalves (RJ). Local: CCBNB (R. Conde d'Eu, 560, Centro). Gratuito
18h30 - Show "Explosion Blues", com Gustavo Andrade e Jefferson Gonçalves (MG/RJ). Local: CCBNB. Gratuito
19h - Show: Dori Caymmi (RJ)
Local: Cineteatro São Luiz (R. Major Facundo, 500, Centro)

Sexta (16)

19h - Show "Blues for Africa" convida Filipe Catto (SP/RS)
Local: Cineteatro São Luiz
20h30 - Festa de Encerramento: Davi Duarte (CE) e Duo Estra Cuba
Blues do Nordeste (CE/PI/RN/PE)
Local: Theatro José de Alencar (R. Liberato Barroso, 525, Praça José de Alencar - Centro). Gratuito.

Mais informações:

Festival Jazz & Blues em Fortaleza. Dias 15 e 16/02. Ingressos para os shows no Cineteatro São Luiz: R$ 30 (inteira). À venda na bilheteria, das 10h às 18h30. Venda com taxa de conveniência no Tudus (tudus.com.br)

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