O solo comunal de Abramovic - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Livro

O solo comunal de Abramovic

Livro mergulha na trajetória da artista sérvia a partir da exposição do Sesc Pompeia de 2015

00:00 · 09.01.2017 por Roberta Souza - Repórter
A artista sérvia Marina Abramovic, referência internacional da arte performática O trabalho "The artist is present" integrou a exposição retrospectiva da artista no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em 2010
"The House with the Ocean View" foi realizada na Sean Kelly Gallery, em Nova York, em 2002. Abramovic viveu nesse espaço por 12 dias, sem comida

Pensar as relações entre artista e plateia, os limites do corpo e as possibilidades da mente é a base do trabalho da sérvia Marina Abramovic. Aos 70 anos, "a avó da arte da performance" - cujo trabalho mais significativo até então, "The artist is present" (2010), foi ficar durante 736 horas sentada em uma cadeira, imóvel e em silêncio, mantendo contato visual com 1.675 pares de olhos - acaba de ganhar um livro pelo selo das Edições Sesc São Paulo.

>A busca expressa em filme

A publicação "Terra comunal: Marina Abramovic + MAI", organizada por Jochen Volz e Júlia Rebouças, é resultado de uma exposição homônima da artista que aconteceu entre 10 de março e 10 de maio de 2015, no Sesc Pompeia, localizado na capital paulista. A ocasião funcionou como uma retrospectiva de mais de 40 anos de trajetória da sérvia, que esteve no Brasil durante o período, participando de encontros com o público e estimulando o contato entre visitantes e perfomers.

Aliás, é a relação dela com nosso País, cada vez mais estreita - desde que veio aqui pela primeira vez, em 1989 - que inspira o título do trabalho. "Terra comunal é um conceito aberto a todos, um solo comunal, pronto para novos tipos de intercâmbio, sugerindo uma comunidade e estimulando a consciência coletiva através da arte", explica o organizador Volz, na introdução do livro.

Foi no Brasil que Marina começou a pesquisar cristais e suas influências no corpo e no espírito, o que impactou de modo significativo sua prática artística. O próprio Método Abramovic, definido pela performer e coreógrafa Lynsey Peisinger, em seu texto no livro em questão, como uma "oportunidade para ficarmos em silêncio e ligados ao momento presente" também perpassa essa experiência em terras brasileiras.

Para o método que sintetiza todo o conhecimento da artista sobre performance, ela desenvolveu uma série chamada objetos transitórios para uso humano, com os quais o público interage por duas horas, de pé, sentado e deitado. Os objetos são feitos a partir de uma combinação de madeira e cristais, cada um com suas propriedades energéticas específicas; e eles permitem experiências de imobilidade e a habilidade de estar consigo próprio.

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Colaboradores

Além da colaboração de Lynsey - que trabalha treinando performers para Marina pelo mundo - em dois capítulos do livro (um deles assinado em parceria com Paula Garcia, artista e pesquisadora brasileira), outros três autores contribuem com ensaios. A historiadora de arte Sophie O'Brien, por exemplo, retrata a trajetória de Abramovic, as práticas de longa duração e o trabalho aberto e colaborativo entre artista e observador.

Já a antropóloga Regina Muller explora os conceitos de transcendência, transformação e humor em comparação com rituais nativos brasileiros.

O filósofo Peter Pál Pelbart, por sua vez, examina atentamente as noções de presença e mistério na arte da performance e na obra da artista. "Marina experimenta de modo épico estados-limites do corpo e da mente, mesmo quando isso ocorre no interior de um museu glamorizado, com o risco do óbvio de auratização da experimentação artística e do culto pessoal de sua imagem já tão icônica", observa.

Fotografias das performances apresentadas por Marina ao longo da carreira, imagens do Método Abramovic e da exposição que ficou em cartaz por nove semanas no Sesc Pompeia ilustram "Terra Comunal". Imagens e textos das oito performances de artistas brasileiros e um coletivo convidado que participaram da exposição em São Paulo também integram o vasto material, que oferece versão do texto em inglês ao final.

O livro conta ainda com uma conversa entre Volz e Abramovic, detalhada no capítulo "Eu estou aqui, eu existo, não sou um duplo, não sou virtual". A relação com o Brasil, as buscas pessoais pela cura atreladas às pesquisas profissionais, a ideia de coletividade e a noção de fé são algumas das questões respondidas pela artista.

"Penso que, no final das contas, é muito importante criar alguma espécie de chave universal a partir da própria experiência pessoal", aponta a sérvia como caminho a um dos questionamentos.

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