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'O Sacrifício do Cervo Sagrado': e o absurdo da tragédia

Colin Farrell e Nicole Kidman em "O Sacrifício do Cervo Sagrado": diretor Yorgos Lanthimos gosta de personagens submetidos a pressões psicológicas tremendas e costuma levar seus atores ao limite
00:00 · 10.02.2018 por Luiz Carlos Merten - Agência Estado

Colin Farrell estava eufórico no Festival de Cannes, em maio passado. Com dois filmes na competição - "O Estranho Que Nós Amamos", de Sofia Coppola, e "O Sacrifício do Cervo Sagrado", de Yorgos Lanthimos -, celebrava o que admitiu ser seu retorno. "Andei fazendo algumas escolhas que parece que não foram muito boas, mas agora sinto que retomei o caminho".

No festival, Sofia ganhou o prêmio de direção, Lanthimos, o de roteiro e Nicole recebeu um troféu especial, o do 70º Aniversário, por sua tríplice participação - estava, também, num terceiro título fora de concurso, "Top of the Lake: China Girl", a minissérie da neozelandesa Jane Campion.

Lanthimos, a essa altura, deve estar mais preocupado com o novo trabalho - uma nova versão de "Ana dos Mil Dias", com Emma Stone e Rachel Weisz, programada para estrear ao longo de 2018.

Geração

Yorgos Lanthimos pertence a uma nova geração de cineastas europeus, não apenas gregos, na faixa dos 40 anos. Tem 44. Só para efeito de comparação, o sueco Ruben Östlund, diretor de "The Square - A Arte da Discórdia, que ganhou a Palma de Ouro e concorre ao Oscar de filme estrangeiro, tem 43. Ambos gostam de personagens submetidos a pressões psicológicas tremendas.

Lanthimos começou a surgir em Cannes, em 2009, com "Dente Canino", sobre adolescentes que vivem confinados pelos pais temerosos. Temendo a violência do mundo, eles decidem que os filhos só terão liberdade quando perderem os dentes caninos. A crise familiar leva a um banho de sangue que você talvez possa intuir, se não viu o filme.

De novo em Cannes, Lanthimos apresentou e até foi premiado - o filme também concorreu ao Oscar de roteiro - com "A Lagosta". No futuro não tão distante, as pessoas são forçadas a se casar, sob pena de ser transformadas em animais. É o que está em vias de ocorrer com Colin Farrell, em sua primeira colaboração - quebra-galho, como ele disse - com o diretor.

A barra pesa mais ainda em "O Sacrifício do Cervo Sagrado", primeiro filme do cineasta rodado nos EUA, em Cincinnati. Farrell faz um conceituado cirurgião. Jovem, rico, bela mulher (Nicole), filhos. Toda essa estabilidade/felicidade é ameaçada quando surge o filho de um antigo paciente de Farrell, acusando-o de haver matado seu pai. Como um daqueles mensageiros das tragédias gregas, o garoto vai se imiscuindo na vida de Farrell.

As coisas começam a dar errado. Os filhos, vítimas de algum sortilégio - mas qual? -, ficam à beira da morte. E é nesse momento de estresse que o garoto submete Farrell ao golpe final. Como Sofia, no best-seller de William Styron e no filme de Alan J. Pakula, o doutor vai ter de fazer uma escolha e matar... A mulher ou os filhos?

Tormento

Assim como não tem lagosta no filme anterior, também não tem cervo real nesse. O que há é a representação metafórica de uma situação clássica da tragédia grega.

Em plena modernidade, o personagem de Farrell é submetido ao tormento que o destrói física e moralmente, colocando sua vida de cabeça para baixo. É o que Lanthimos gosta de fazer, mas essa retomada de conceitos clássicos não faz dele um trágico, como Cacoyannis, também autor de "Electra, a Vingadora", "Zorba", o Grego" e "As Troianas". Lanthimos é um moderno que subverte seus clássicos com um humor absurdo à Eugene Ionesco. Seu objetivo é dissecar a banalidade do cotidiano, por isso ele insiste que "O Sacrifício do Cervo Real", com toda a carga de sofrimento e horror, é uma comédia. O mais sinistro (bizarro?) na experiência estética proposta por Lanthimos é que seu filme é extremamente elaborado. Belíssimos planos, uma trilha grandiloquente - que desnatura o sacrifício ao prescindir de violinos chorosos -, tudo isso arma o clima. Impressionante também a interpretação antinaturalista. Todos sabem que estão dentro de uma tragédia.

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