O retorno do subúrbio para as telas de cinema - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Nova safra

O retorno do subúrbio para as telas de cinema

26.10.2012

Diferente de filmes que mostravam a periferia como local violento, novos projetos retratam seu otimismo e poesia

Esquecido num canto da história do cinema carioca, o subúrbio ensaia um retorno ao centro da paisagem da produção independente local. Explorada pela geração cinemanovista e relegada a segundo plano a partir dos anos 1980, com o agravamento da crise econômica e a consequente decadência de seus bairros, a região, seu folclore e seus personagens voltam, pouco a pouco, a incitar a imaginação de realizadores de várias gerações.

Cena do curta-metragem "A distração de Ivan", sobre um menino de 11 anos de Brás de Pina que amadurece no cotidiano de brincadeiras com os amigos de rua


"O subúrbio está em ebulição", avisa Felipe Bragança, 32 anos, que finaliza "Claun" (corruptela de clown, palhaço), longa-metragem inspirado no universo dos bate-bolas, tradicionais figuras do carnaval das zonas Norte e Oeste, filmado entre Marechal Hermes e Oswaldo Cruz. "Acho que passamos muito tempo pensando no subúrbio como o fim da cidade, onde ela acaba, quando, na verdade, é no subúrbio que ela começa". Viabilizada com recursos próprios, "Claun" é uma produção de baixíssimo orçamento concebida como um piloto de uma possível série para a TV e para a internet. É um desdobramento do curta-metragem "O nome dele (o clóvis)", ambientado no mesmo universo geográfico e temático, dirigido por Bragança ainda em 2004, época em que o subgênero favela-movie reinava absoluto nas telas como representante da realidade da periferia carioca.

Enquanto "Cidade de Deus" (2002) e "Tropa de elite" (2008) enchiam os olhos dos brasileiros e do mundo com a violência urbana do Rio, jovens diretores, alguns deles nascidos e criados no subúrbio, esquadrinhavam a área em curtas-metragens cheios de otimismo e poesia, como "A distração de Ivan" (2009), de Cavi Borges e Gustavo Melo, sobre um menino de 11 anos de Brás de Pina que amadurece no cotidiano de brincadeiras com os amigos de rua.

"A galera que nasceu na periferia e que começou a fazer cinema agora se cansou de histórias sobre violência. Eles querem falar de outras coisas, mostrar outros pontos de vista da periferia carioca", explica Borges, que está tirando do papel "Periferia", longa composto por cinco histórias sobre o subúrbio, dirigidas por diretores nativos. "Eles fazem parte de uma geração que está amadurecendo, querendo fazer filmes mais poéticos, menos violentos, com mais ficção e menos documentário".

Movimento

Melo é um dos jovens integrantes desse discreto movimento que está resgatando, no cinema, o lado suburbano do carioca. Em maio passado, ele levou para o Cinèma du Monde, espaço para novos projetos do Festival de Cannes, a ideia de "1994", um drama de época situado entre Brás de Pina - cenário também de "A distração de Ivan" - e a Penha, que tem como pano de fundo as lutas entre as torcidas organizadas de times de futebol.

O filme dá voz a vários personagens e recupera fatos e costumes desenvolvidos na década em que o cinema quase desapareceu e, quando foi retomado, preferiu promover revisões históricas ou olhar para a Zona Sul. Um dos personagens trabalha com a colocação de insufilm em carros; outro é chefe de uma torcida organizada; todos tomam contato com um novo tipo de serviço gastronômico conhecido como comida a quilo. No noticiário, fala-se sobre o Plano Real e as mortes de Kurt Cobain e Ayrton Senna.

"É um filme coral, em que seus personagens trafegam por esse espaço delimitado, à direita, pela linha de trem da Central do Brasil, e, à esquerda, pela Avenida Brasil", resume Melo, de 35 anos, 20 deles vividos na Zona Norte. "O subúrbio tem uma riqueza humana e estética enorme, e o que a gente está tentando fazer é despi-lo dos clichês atribuídos à região, como a linha do trem e a violência. A história de ´1994´ fala dos sonhos e aspirações de jovens daquela época, e de como eles tentam realizá-los". Gustavo Melo diz que "1994" explora o que existe de bom e de ruim na geografia humana do subúrbio carioca, "independentemente das divisões de áreas e de classes". Lembra que sua geração começou a pensar a região como protagonista da vida da cidade antes do fenômeno socioeconômico da classe C, ou de sua ascensão como protagonista da telenovela brasileira, que teve em "Avenida Brasil" seu melhor exemplo.

"A diferença é que, na TV, o subúrbio tem sido interpretado de forma rasteira, estereotipada, quando não idealizada. Nesse sentido, o cinema sempre esteve na vanguarda", observa o diretor Luiz Fernando Carvalho, que oferece sua visão sobre o tema na série "Subúrbia", a partir do dia 1º na Globo. "É uma reaproximação mais realista e poética com a região, tem a ver com o cinema de Leon Hirszman, as primeira novelas de Janete Clair e o universo que ela tematizou bem até a década de 1980".

O veterano Cacá Diegues entende que a renovação do interesse do cinema pelo subúrbio passa pela recuperação da autoconfiança da população: "Os anos 1980 e 90 foram de autoflagelação, em que os filmes exploraram a violência urbana e criaram uma mitologia em torno dela. Agora reaparecem os valores fundamentais da classe média, do pessoal da periferia", argumenta o diretor, que morou alguns meses em Marechal Hermes quando filmou "Chuvas de verão" (1976). "O subúrbio era mais ameno, menos apressado. Isso não existe mais, ele está na mesma energia e velocidade do mundo".

A região caiu no gosto do povo e, aparentemente, só os editais de fomento do cinema ainda não viram isso. Desde 2008, a diretora Carolina Paiva tenta levantar recursos para fazer "Subúrbio", drama recheado de hip-hop, samba, skate, evangélicos e folia de reis, mas sempre esbarra nos critérios subjetivos dos processos seletivos.

"Já me candidatei três vezes aos recursos do Fundo Setorial do Audiovisual mas, invariavelmente, a resposta é a mesma: "Seu projeto é muito bom, mas não é comercial", reclama a diretora de 37 anos, que pretende filmar na Abolição e na Ilha do Governador. "É inacreditável que o governo queira ignorar a demanda dessa parcela da população que quer se ver representada no cinema".

CARLOS HELÍ DE ALMEIDA
AGÊNCIA O GLOBO

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