CARREIRA

O rei está morto, viva ao rei

Com uma carreira marcada por diferentes fases, Elvis Presley mantém-se, 40 anos depois d e sua morte, um ícone imbatível e lucrativo

00:00 · 12.08.2017 por Antonio Laudenir - Repórter

É pontual como a indústria do entretenimento adora uma história de superação. Refletindo uma ficção destilada em novelas baratas, é comum atribuir aos artistas algum feito, quando conseguiram "vencer" as adversidades e atingir o estrelato. A saga do completo desconhecido que alcança um "lugar ao sol" é interessante aos negócios. Infla o pulmão orgulhoso do famoso "sonho americano".

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Nem mesmo uma figura do calibre de Elvis Presley (1935-1977) conseguiu escapar ileso deste expediente. Conta a lenda que o artista nasceu sob circunstâncias muito pobres, em uma humilde casa em East Tupelo (East Tupelo seria agregada mais tarde à cidade de Tupelo, no Mississippi). Sobrevivente de um difícil parto de gêmeos, em que seu irmão idêntico Jesse Garon foi natimorto. Elvis viria a ser então o único filho do casal Gladys e Vernon.

Em 18 de Julho de 1953, Elvis pagou míseros US$ 4 para gravar, de presente para sua mãe, um acetato com duas canções: "My Happiness" e "That's When Your Heartaches Begin" na "Memphis Recording Service'', que anos depois ficaria famosa como Sun Records - gravadora de, entre outros, Johnny Cash e Carl Perkins.

O jovem que, até então, tinha feito bicos como lanterninha de cinema e motorista de caminhão, retorna no ano seguinte ao mesmo estúdio e captura algumas outras faixas de forma experimental. Entretanto, em julho de 1954, Elvis entra em estúdio e grava outras canções iniciando assim a carreira profissional.

Quarenta anos depois de sua morte, o "Rei do Rock" mantém-se como uma afiada máquina de fazer dinheiro. Até o fatídico 16 de agosto de 1977, o cantor traçou uma trajetória pontuada por canções inesquecíveis e muitos excessos. Seja na música, em Hollywood ou na postura em cima do palco, Elvis Presley foi a encarnação viva do citado sonho americano.

A profusão de lançamentos com a assinatura do "Rei" continua em constante rotação. Somente em 2017 (e ainda faltam cinco meses para o fim deste ano), cinco compilações foram lançadas com a responsabilidade de manter aquecido este legado. Com produções e curadorias distintas, cada disco explora ao máximo fases distintas do mito.

Pela contagem, estão "All the Best", "Masters of Music: Essential Original Albums", "A Boy from Tupelo: The Sun Masters", "A Boy From Tupelo - The Complete 1953-55 Recordings" e "Elvis Forever: The Best of Elvis Presley"

Por uma razão de ordem, vale destacar os dois últimos trabalhos lançados. Com 50 faixas, "Elvis Forever" revira clássicos intocáveis da lenda e arrisca outros momentos distintos na trajetória de Elvis. Entretanto, o serviço aqui é semelhante às centenas de coletâneas (oficiais ou não) que buscaram alguma carona na fama do falecido. A lista inclui obrigatórias como "Heartbreak Hotel", "Hound Dog", "That's All Right", "Suspicious Minds" e "Don't Be Cruel". Crias absolutas antes de Elvis ir brincar de soldado na Alemanha, na ocupação americana pós-Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, o álbum explora o momento "pós-tiger", onde o artista se interna nos cassinos de Las Vegas. Nesse momento, Elvis já tinha jogado tudo para o alto e tomava farmácias e farmácias de barbitúricos. Com performances incendiárias, com direito a golpes de caratê nos palcos, o "Rei" construiu a imagem do Elvis de macacão atolado de pedras brilhantes e costeletas gordas de suor.

Desse momento são extraídas a vibrante versão ao vivo de "Polk Salad Annie", de Tony Joe White; o quase soul "Loving Arms"; a trilha sonora ideal para enterros: "Always On My Mind", regravada em 1972, e "Moody Blue" (1976), considerada a última canção do mito. Inclua também a dilacerante "The Wonder of You", que mostra o homem com pleno domínio de palco e uma banda afiadíssima.

Nascimento

Lançada nos últimos dias de julho, "A Boy From Tupelo - The Complete 1953-55 Recordings" exuma os primeiros anos da carreira do norte-americano. A coleção de três discos possui todas as gravações já conhecidas de Elvis Presley de 1953 a 1955, incluindo demonstrações, versões preteridas, performances ao vivo e mixagens alternativas (algumas das quais apareceram em outros conjuntos de caixas).

O material ainda conta com gravações inéditas, incluindo uma performance ao vivo recentemente descoberta de "I Forgot To Remember To Forget", feita na Louisiana Hayride, em 29 de outubro de 1955. O box vem com um livro de 120 páginas repleto de fotos e itens de memorabilia. Além da versão em CD triplo, o material foi disponibilizado no formato digital e em uma edição em vinil mais enxuta, com apenas 17 faixas e intitulada "A Boy From Tupelo: The Sun Masters".

O conjunto foi produzido, pesquisado e escrito por Ernst Mikael Jørgensen, considerado o "detetive de Elvis". O livro ilustrado documenta este capítulo na carreira de Presley, dos dias antes de suas legendárias sessões de gravação do 5 de julho de 1954 no Sun Studio Até dezembro de 1955, quando Presley deixou a Sun para assinar com RCA.

Em entrevista à Rolling Stone norte-americana, Jørgensen argumenta como o serviço dessa caixa desmistifica o início de carreira do cantor. "Durante todos os anos trabalhando com o legado de Presley, me incomodou que muitos pareciam acreditar que Elvis estava no momento e lugar certos, e teve sorte", explicou.

Para o pesquisador, a construção da lenda deve muito a um jovem obstinado e apaixonado pela música. "A música, os fatos e as histórias de 'A Boy From Tupelo' visam colocar isso direito. É tudo sobre talento, trabalho árduo e originalidade", finaliza.

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