privilégio

O rei branco em um país dividido

Talentoso, Elvis Presley também teve a seu favor a pele branca, num período marcado pelo racismo nos EUA

Elvis Presley, entre Chuck Berry e Little Richard: em seus primeiros anos, o rock contava com um panteão inter-racial. Não à toa, os conservadores Estados Unidos do pós-Guerra viram com desconfiança a ascensão de um gênero amado pelos jovens
00:00 · 12.08.2017 por Dellano Rios - Editor de área

Elvis Aron Presley nasceu em Tupelo, cidade minúscula do Mississippi. O estado costuma encabeçar listas da unidades mais racistas dos EUA, deixando para trás o Texas e o Alabama. Há tempos, existem polêmicas quanto à posição do rei do rock em relação às questões raciais de seu país.

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Elvis foi uma figura controversa, com um comportamento que hoje seria condenado com mais severidade. Manteve relacionamentos abusivos com mulheres, gostava de se relacionar com meninas de 14 anos e abusava das drogas recreativas - mesmo que apoiasse o governo norte-americano num cínica guerra às drogas.

Ainda que a corte do rei do rock fosse eminentemente branca, não se costuma fala de posturas racistas do artista. Elvis era reverente à música negra, do blues, do soul e do gospel das igrejas sulistas. Não poucas vezes, sua voz seria elogiada por ter o que seria um timbre negro (o mesmo se diria, tempos mais tarde, do inglês Mick Jagger e do irlandês Van Morrison).

O bluesman B. B. King garantiu, em sua autobiografia, que Elvis não era racista. Negro, também nascido no Mississippi, o guitarrista atestava que o músico branco tratava com humildade os mestres negros do blues, um dos ritmos que amava e que ajudaram a cunhar seu som. King era tratado por "senhor", apesar de ser pouco mais velho do que o colega.

A questão racial no caso de Elvis parece ter mais a ver com o papel que ele desempenhou no meio do show business. Não é possível dissociar o fenômeno de seu surgimento de outro, de maior amplitude e ressonância, que é o da invenção dos jovens como um público consumidor, para o qual se cria produtos específicos. E a cultura do rock - que envolve a música e o espírito rebelde do cinema, encarnado por figuras como Marlon Brando e James Dean - foi o caso mais bem sucedido disso.

Os outros reis

Não falta quem tome Elvis pelo "criador do rock". Mas a verdade é que o gênero tem uma origem imprecisa. Originou-se do cruzamento de ritmos mais antigos. Antes de Elvis, já haviam músicos que conquistavam audiências jovens, com som de guitarras elétricas e um visual atrevido. Bill Haley e Little Richard começaram ainda nos anos 40. O primeiro era gordo e mais velho; e Richard, negro. Elvis oferecia uma "embalagem" mais aceitável para os racistas dos EUA.

Para tornar o americano médio, branco e de olhos azuis algo acima da média, só foi preciso um retoque: tingir de escuro o cabelo alourado, para dar certo tom exótico a sua beleza. Contemporâneo de Elvis, Chuck Berry é outro artista negro dos primórdios do rock, com influência significativa - Beatles e Stones o regravaram e tinham nele uma referência.

Tanto Chuck Berry como Little Richard estavam até mais alinhados ao rock'n'roll do que Elvis, que gostava de baladas açucaradas ao estilo do pop branquelo e da música country, além de ritmos de origem negra, como o blues e o gospel. Berry e Richard mantiveram-se num terreno mais restrito, com canções incendiárias e feitas para dançar. Contudo, num país dividido - onde em alguns estados e cidades era proibida a entrada de negros em certos recintos - era difícil imaginar a coroa da nova moda, o rock'n'roll, concedida a um jovem negro.

Nas décadas seguintes, apesar da luta pela igualdade dos direitos que incendiou os anos 1960 e 1970, a indústria do entretenimento fazia manobras semelhantes, encontrando contrapartes brancas para colher os louros de gêneros, em origem, negros - como a disco music, o rap e o R&B.

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