cinema

O que vem depois do nada

A atriz Diane Kruger transforma "Em Pedaços" num testemunho dolorido sobre xenofobia e luto

00:00 · 14.03.2018 por Adriana Martins - Editora Assistente

Há dores difíceis de serem traduzidas, em especial a da perda. Claro, a vida não se sustenta em uma única pessoa ou aspecto, mas existem aqueles que para ela são pilares. Sua órbita, seu núcleo, subtraídos de repente. Eventualmente talvez seja possível reeguer o prédio em outros pilares. Talvez. Mas até lá, a dor fica nas marcas, a pulsar o resto dos dias.

É essa carga pesada que Diane Kruger entrega no longa "Em pedaços", destaque do ano passado dirigido por Fatih Akin, que passou ao largo do Oscar, mas faturou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, além de Melhor Atriz em Cannes (2017) para a referida protagonista.

Previsto para estrear nesta quinta (15), "Em pedaços" mistura eficientemente elementos de drama, tribunal e thriller ao contar a história de uma mulher dilacerada com a perda da família em um atentado. Condenado por tráfico de drogas, o turco Nuri Sekerci cumpre sua pena e, reabilitado, leva uma vida amorosa e tranquila com a esposa Katja Sekerci e o filho Rocco na Alemanha. Ainda na cadeia, estudou administração e posteriormente conseguiu abrir um pequeno escritório de contabilidade e tradução.

Num dia qualquer, Katja deixa o filho com o pai enquanto passa o dia com a irmã. Ao voltar, encontra o escritório destruído por uma bomba, e a terrível notícia da morte de Nuri e Rocco. Embora as investigações comecem com todas as suspeitas assentadas sobre o passado de Nuri, a suposição de Katja é confirmada: o atentado foi responsabilidade de um casal neonazista, por conta da origem turca do marido.

A partir daí "Em Pedaços" carrega o espectador pelo dolorido trajeto da protagonista, na busca por justiça enquanto lida com o luto. Nesse aspecto, o filme segue um formato fragmentado, dividido em três "capítulos" - talvez algo desnecessário, mas que em nenhum momento prejudica seu fluxo. O primeiro, "Família", dedica-se à tragédia em si, com um breve prólogo: mostra o casamento de Nuri e Katja ainda na prisão até a explosão da bomba. Os acontecimentos não demoram a se desenrolar - não há enrolação, e sim eficiência, descortinando o suficiente para despertar empatia imediata por aquela família.

O segundo, "Justiça" mostra o julgamento dos réus, acompanhado por Katja no próprio tribunal, já que ela, além de vítima, também é testemunha, tendo visto a mulher que deixou a bomba no dia do atentado. Por fim, "O Mar" encerra a história com a busca pessoal da protagonista por vingança.

Divisão

Cada capítulo encerra uma mini-história em si, ao apresentar personagens, motivos, backgrounds e o desenrolar daquela etapa. Ainda assim, são interligados de maneira decente, em parte pelos vídeos de momentos da família, revelados ao espectador como memórias a assombrar Katja.

É possível aqui alguma comparação com estágios do luto, ou talvez da luta da própria personagem. Independente disso, a divisão traz uma carga dramática bem-vinda. Pequenas pausas melancólicas.

Reconheça-se que uma enorme parte do engajamento do público vem da atuação de Kruger. Sua dor faz-nos contorcer a cara de compadecimento (logo nos primeiros minutos, diga-se, na noite da barbárie). Seu mundo sumiu, e do lado de fora a vida segue, como se nada ocorrera. De tão pungente, testemunhamos essa dor psicológica se tornar física. É apavorante.

Até porque Nuri e Rocco não morrem apenas uma vez, mas várias. A primeira de fato; as outras, simbolicamente, e que pesam apenas sobre os ombros de Katja. Pequenas e sucessivas mortes: nas suspeitas da polícia sobre seu marido ainda ser traficante; nas arestas com a família (em poucos diálogos fica claro que aquele casamento nunca foi aceito de bom grado); na cortada ceifante da sogra, que, também sofrendo, faz questão de infligir dor na nora por meio da culpa; na tentativa do advogado de defesa de desacreditar a vítima. "E se eu tivesse morrido com Rocco, e Nuri tivesse ficado? Ele não aguentaria tanto", desabafa Katja ao advogado. Sexo frágil?

É pelos olhos marejados de Katja que percebemos o potencial do preconceito, da xenofobia, o perigo da ignorância e do extremismo até se materializarem em prejuízos que reverberam numa sequência sem fim de tragédias.

É pelo pequeno recorte de uma única família destroçada que podemos apenas imaginar o mar de dor dos que lamentam as vidas interrompidas todos os dias - não apenas numa Europa imersa em crise migratória e num mundo onde uma onda conservadora tacanha parece retornar à cena, mas aqui perto, num Brasil profundamente desigual. Imagine o tanto de recortes.

Elementos

A única parte feliz da sessão é ver um cinema contemporâneo dedicar-se de maneira competente a temas tão urgentes. Em "Em Pedaços", as atuações são arrematadas por uma edição redonda, que deixa o filme na medida certa (1h46m), uma câmera que dialoga com a essência dos momentos (ora tremida, como no casamento; ora mais artística, como em algumas tomadas no tribunal e na arrepiante cena da banheira) e uma trilha que constrói suspense até os últimos minutos.

Contraditoriamente, o filme traz a vingança como cano de escape para uma situação que deixa claro o resultado infrutífero do "olho por olho". Mas torcemos por Katja porque não cabe a ela entender a injustiça derivada da tecnicalidade do sistema jurídico.

O que fazer quando nada resta? Nem família, nem justiça, nem vingança? É a resposta a essa pergunta que ainda traz algum suspense próximo ao fim. E deixa o espectador desolado na poltrona.

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