Cinema

O que Te Faz Mais Forte: bom elenco não salva filme da "autoajuda"

Jake Gyllenhaal e Tatiana Maslany em "O que Te Faz Mais Forte": mesmo com a excelência das três atuações, a limitação persiste. Falta algo à dramatização que escape de uma estrutura previsível em excesso
00:00 · 10.02.2018 por Sérgio Alpendre - Folhapress

Estranho é ver o diretor que despontou no começo deste século com "George Washington" e "Prova de Amor" - dois filmes relativamente pequenos e com pretensões autorais - realizar agora uma espécie de cinema da autoajuda.

Essa é a limitação que "O que Te Faz Mais Forte" não consegue ultrapassar, apesar de apresentar alguns elementos que ao menos o colocam acima de outras tentativas nesse subgênero.

Ao longo da carreira, David Gordon Green sempre gostou de desafios e de correr riscos. Aqui, tenta dar conta de uma história real com altos índices de periculosidade quando passada para o formato de um drama cinematográfico.

Trata-se da luta de Jeff Bauman para superar o trauma de ter perdido suas duas pernas numa das explosões no atentado contra a tradicional Maratona de Boston, em 2013. O próprio Bauman escreveu o livro, com a ajuda de Bret Witter.

A adaptação para o longa-metragem foi feita por John Pollono, roteirista de parca experiência no cinema. Jake Gyllenhaal assumiu o papel principal, Miranda Richardson interpreta sua mãe, e Tatiana Maslany, a namorada.

Notamos que o processo de adaptação à nova condição (como também o momento pós-explosão) é mostrado com um realismo incrível. Graças à tecnologia atual, vemos o ator sem partes de suas pernas.

Assim, testemunhamos a fisioterapia, os cuidados médicos, a tentativa de adaptação com as próteses e as dificuldades na hora de fazer as necessidades básicas com um realismo aflitivo que nos coloca quase na pele de Bauman (também ajuda que Gylenhaal esteja mais uma vez estupendo).

Limitação

Bauman tem outros dois problemas. A mãe é alcoólatra e infantil. Quer a todo custo que o filho seja visto pelo mundo como um herói e pensa até em atrair Oprah Winfrey para entrevistá-lo.

É um trabalho notável dessa atriz versátil que é Miranda Richardson (em cartaz recentemente no filme "Churchill", não o de Gary Oldman), capaz de brilhar em diversos tipos de registro.

A namorada, Erin, sofre com a dificuldade de Bauman em aceitar o que lhe aconteceu e em não facilitar a ajuda, o que é natural, dado o trauma que ele sofreu.

Erin (bom trabalho de Tatiana Maslany) sofre mais ainda no contato com a mãe dele, que não faz nada para ajudar o filho nas coisas mais básicas e ainda é hostil com ela.

E, mesmo com a excelência dessas três atuações, a limitação persiste. Mais uma prova da dificuldade de alcançar um bom valor artístico com esse tipo de filme.

Falta algo à dramatização que escape de uma estrutura previsível em excesso. Falta também um final mais, digamos, cinematográfico.

Como a limitação não é ultrapassada, dentro do escopo da autoajuda seria mais eficaz ler o livro do próprio Bauman ao invés de assistir a uma representação de seu sofrimento na tela.

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