Ensaio

O processo de conexão através dos símbolos

00:00 · 25.05.2014

Muitas vezes tem-se o transcendente ou transcendental como referente ao mundo espiritual ou fantasmagórico. Quando Campbell fala do transcendente, contudo, melhor o entenderíamos se o pensássemos como um estágio anterior, e não posterior. E diz que "a primeira função de uma mitologia viva é conciliar a consciência com as precondições de sua própria existência" (CAMPBELL, 2008, pág. 31).

A vida, tal como a entendemos, portanto, surge como desenvolvimento de uma vida natural que, do ponto de vista de nossa consciência, nos é anterior. Por algum motivo, em algum momento de nossa história, nos desconectamos deste fluxo natural e criamos um mundo à parte. Através dos símbolos míticos, abrimos uma janela para nos conectar com essa natureza da vida, para nos conciliar com essas precondições. O que nos transcende é, desta perspectiva, aquilo que deixamos pra trás.

O processo de conexão através do símbolo se dá de uma forma tanto consciente como inconsciente, levando em consideração, como já foi dito, que um símbolo possui em si o poder criador de sua fonte, podendo assim se conectar tanto por suas representações semânticas como por suas representações existenciais. Para esclarecer este ponto, partiremos de uma pergunta básica no estudo da mitologia comparada.

Um dado intrigante

Depois de entrar em contato com inúmeros discursos de diversas épocas e regiões, os estudiosos se depararam com um dado intrigante. Em suas histórias, povos de todo mundo por vezes repetiam temas e elementos particulares. Algumas vezes esses elementos eram concretos e podiam aparecer nas diversas histórias simplesmente pelo fato de que todos os homens sempre tiveram contato com eles, como o sol, a noite, as águas, etc. Assim, entendia-se que o elemento comum a todos os homens era o mundo em que viviam. Mas quando os elementos repetidos eram abstratos, como processos, percepções e experiências, como explicar que culturas isoladas geograficamente tenham mitologias com temas tão semelhantes?

O processo da individuação

Não se trata mais, portanto, de uma referencia a um mesmo objeto da experiência, mas sim a um mesmo sujeito. A hipótese que surge então é de que os símbolos comuns nas diversas culturas deflagram, entre outras coisas, o próprio homem. O que há em comum entre os homens que vivem e viveram na terra não é apenas a terra em que vivem, mas sua própria humanidade. No campo da psicologia sempre nos deparamos com esta ideia. Um grande avanço foi, contudo, as fundamentações de Carl Jung a respeito do inconsciente coletivo. Ao explicar este conceito, Jung declara que o inconsciente pessoal não se opõe, mas se complementa ao inconsciente coletivo no todo psíquico (Texto I) tal como Carl Gustav Jung o postula talvez seja o conceito mais difícil, dentre os aqui apresentados, de se resumir em poucos parágrafos, até mesmo porque se conecta a diversas outras partes de suas teorias sobre o psiquismo, o que torna difícil encerra-lo por uma discussão isolada.

Começaremos, então, pelo glossário que Jung (1987) colocou no final de seu livro "Tipos Psicológicos". Segundo as palavras do autor, a individuação é o processo de constituição e particularização da essência individual, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento psicológico, como uma essência diferenciada do todo, da psicologia coletiva. Importante ressaltar que o processo de individuação não leva a um isolamento do indivíduo, mas a uma consciência coletiva mais intensa.

A diferença entre o conceito de indivíduo e individualidade pode ser esclarecedora. Enquanto o indivíduo é o ser singular, por individual entende-se tudo aquilo que não é coletivo, e por coletivo fala-se dos conteúdos psíquicos que não são apenas de um, mas de um grupo de indivíduos. Os conteúdos psíquicos coletivos não são apenas conceitos ou concepções, mas também sensações e emoções, sendo, muitas vezes, as sensações e emoções coletivas formadoras de bases para, nos homens mais cultos, a construção de conceitos coletivos, como o conceito de Deus ou Pátria, por exemplo. Jung (1987) diz que dificilmente atribuímos individualidade a um elemento psicológico, mas certamente é individual a organização particular desses elementos, sendo assim construída a ideia de indivíduo psicológico ou individualidade psicológica. Contudo, para que o indivíduo psicológico possa existir é necessário que ele se perceba distinto de seus objetos. Dessa forma, ao longo do desenvolvimento natural do indivíduo, a individualidade psicológica existe, num primeiro momento, inconscientemente e em potência, pois ainda não se desligou da identidade que possui com os conteúdos e objetos coletivos e vai, progressivamente, entrando em contato e se diferenciando destes conteúdos, a fim de tornar consciente sua individualidade. A esse processo damos o nome de individuação.

Considerações finais

Ademais, no que diz respeito à manifestação do processo de individuação, o encontro e a construção da consciência individual se dá em grande parte através de símbolos. Por símbolo entende-se qualquer expressão ou concepção que encerre em si um fato ainda ignorado, um evento místico ou transcendente incompreensível, quer dizer, um fato eminentemente psicológico.

Para Jung (1987), um símbolo não é de natureza racional nem irracional, tendo tanto aspectos acessíveis à consciência como dados apenas pressentidos. É essa natureza dual do símbolo que faz com que ele seja representação manifesta da individuação, na medida em que, através do símbolo, o indivíduo consciente se depara com uma parcela ainda não conhecida de seu psiquismo. Este símbolo, que para uma consciência especifica, lhe apresenta uma determinada inconsciência, chamamos um símbolo vivo.

A ideia da transcendência se repete aqui a partir de mais uma visão singular. Para Jung, o aspecto transcendente não se refere a uma qualidade metafísica, mas tão somente ao fato de que através do símbolo vivo o indivíduo pode, então, estabelecer um fluxo entre os conteúdos conscientes e os conteúdos inconscientes.

Trecho
 

TEXTO I

Além desses conteúdos pessoais inconscientes, existem outros que não provêm de aquisições pessoais, mas da possibilidade herdada do funcionamento psíquico, quer dizer, da estrutura cerebral herdada. São as conexões míticas, os motivos e imagens que, a todo momento, podem reaparecer sem tradição histórica nem prévia migração. A esses conteúdos chamo o inconsciente coletivo. (JUNG, 1987, p.524)

 

SAIBA MAIS
 

BACHELARD, Gaston. Prefácio. In: DIEL, Paul. O Simbolismo na Mitologia Grega. São Paulo:

Attar Editorial, 1991
 

CAMPBELL, Joseph. Mito e Transformação. São Paulo:

Ágora, 2008
 

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Pensamento, 2007

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.