Ensaio

O Pré-Modernismo: aspectos gerais da construção ficcional

Nas duas primeiras décadas do século XX, a literatura brasileira caracterizou-se pelo sincretismo estético

22:00 · 17.01.2015 / atualizado às 00:00 · 18.01.2015
Seca
A cena captada por esta fotografia converte-se em lugar-comum nas narrativas de cunho regionalista, especialmente quando a região do Nordeste brasileiro é tomada como cenário da obra ( FOTO: DIVULGAÇÃO )

O ensaísta e crítico literário Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde) utilizou a expressão "Pré-Modernismo" para caracterizar o período cultural e artístico brasileiro correspondente à primeira década do século XX. Cronologicamente, teria como marco inicial as publicações de Os Sertões, de Euclides da Cunha; e Canaã, de Graça Aranha, em 1902, e desenvolveria as atividades até a realização da Semana de Arte Moderna, realizada, em São Paulo, em fevereiro de 1922.

Abrigando em si diversas correntes (Romantismo, Realismo, Naturalismo, Parnasianismo, Simbolismo, Impressionismo) e, consequentemente, visões antagônicas da realidade, apresenta, em sua produção literária, tanto aspectos conservadores quanto renovadores: de um lado, o culto às concepções positivistas; de outro, a captação de aspectos da realidade brasileira, através do retrato de situações históricas novas, tais como: a miséria social nordestina; a decadência da monocultura; a problemática da imigração no Brasil; o misticismo religioso; as transformações da vida urbana nas metrópoles.

Sincretismo

Encontra-se, numa mesma obra, a presença de várias tendências estéticas, configurando, dessa maneira, uma expressão literária ao mesmo tempo conservadora e revolucionária, considerando-se os aspectos de forma e fundo, uma vez que, num mesmo autor, é possível a união entre academicismo e renovação: (Trecho I)

Nessa passagem, observa-se a forte presença de elementos-chave da estética simbolista: a plasticidade da construção ficcional se constrói, essencialmente, pela presença de impressões sensoriais, bem como pelo emprego da sinestesia (esta implica a fusão de sensações sensoriais); a partir de tais recursos, o narrador consegue criar uma atmosfera que funde o mítico e o místico.

Regionalismo

A corrente regionalista é revigorada pelos autores, assumindo um tom crítico e vigoroso, revelando aspectos da realidade brasileira até então ignorados pelas classes dominantes. De tendência realista-naturalista, a prosa regionalista problematizou nossa realidade, apontando a miséria e o subdesenvolvimento nordestino (Os Sertões, de Euclides da Cunha); a miséria e o atraso mental e cultural do caboclo do Vale do Paraíba (Urupês, de Monteiro Lobato); a imigração alemã no Espírito Santo (Canaã, de Graça Aranha). Veja-se, como exemplo, uma passagem do romance Os sertões: (Trecho II) No que diz respeito à linguagem, o sincretismo se evidencia pela orientação barroca, evidente na escolha vocabular. O autor prima por um estilo rebuscado; nesse sentido, emprega fastígio em vez de "auge, momento maior"; usa faúlha no lugar de faísca. Aliás, tal procedimento é comum ao longo da obra, o que obriga o leitor a uma consulta reiterada ao dicionário. Estio: verão. Fastígio: auge, momento maior. Faúlha: faísca são exemplos disso.

Trechos

TRECHO I

Por entre a folhagem verde os seus cabelos descobertos iam espalhando o fogo do sol. Era uma estátua marchando, e os olhos grandes e limpos tinham o lustre cristalino e seco dos frios
Espelhos. Depois os vagalumes incontáveis cobriram-na, os andrajos desapareceram numa profusão infinita de pedrarias, e a desgraçada, vestida de pirilampos, dormindo imperturbável, como tocada de uma morte divina, parecia partir para uma festa fantástica no céu, para um noivado c(ARANH, Graça. Canaã. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982).

TRECHO II

Na plenitude do estio de novembro a março, a desolação é completa. Quem por ali se aventura, tem a impressão de varar por uma roçada enorme de galhos secos e entrançados, onde a faúlha de um isqueiro ateia súbitos incêndios, se acaso estes não se alastram espontaneamente no fastígio das secas, nos meios-dias quentes, quando o Nordeste atrita rijamente as galhadas. Completa-se então a ação esterilizadora do clima, e por maneira tal que naquele trato dos sertões - sem um povoado e onde passam, rápidos, raros viajantes pela estrada de Jeremoabo a Bom Conselho - inscrito em vasto círculo irregular tendo como pontos determinantes os povoados que o abeiram, do Cumbe ao sul, a Santo Antônio da Glória ao norte, de Jeremoabo a leste, a Monte Santo a oeste, se opera lentamente a formação de um deserto.

(CUNHA, Euclides da. Os sertões. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995)

FIQUE POR DENTRO

Notas sobre a escritura de dois ficcionistas

Graça Aranha (MA, 1868; RJ, 1931) realiza, em Canaã, um romance-ensaio, um romance de tese. Pleno de linguagem impressionista, mescla essa obra influências do determinismo naturalista, platonismo romântico, documentação realista e elementos simbólicos. Há, ainda, o desejo de pôr em destaque a coexistência do desejo de comunhão entre os povos com a xenofobia, - antagonismo defendido, respectivamente, pelas personagens Milkau e Lentz. O autor destaca-se, também, pela determinação com que se juntou aos primeiros modernistas. Obras: A Viagem Maravilhosa; A Estética da Vida: A Função Estética da Arte Moderna.

Monteiro Lobato (SP, 1882; SP, 1948) valoriza, na literatura infantil, o universo interiorano brasileiro e sabe fugir do moralismo adulto. Na prosa de ficção, escreve contos (Urupês; Cidades Mortas; Negrinha), e, à semelhança de Maupassant, as narrativas surpreendem-nos pelo inesperado. É o criador da personagem Jeca-Tatu, - o protótipo do caboclo brasileiro, em seu atraso mental e cultura. Denuncia o marasmo da sociedade rural, sedimentada na monocultura.

Carlos Augusto Viana
Editor

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