Espaço Cultural Unifor

O poeta do concreto

01:15 · 21.03.2012
Ramos de Azevedo é um dos nomes retratados na exposição em cartaz no Centro Cultural Unifor
Ramos de Azevedo é um dos nomes retratados na exposição em cartaz no Centro Cultural Unifor ( )
Diversos objetos usados pelo arquiteto compõem o acervo de Pioneiros & Empreendedores
Diversos objetos usados pelo arquiteto compõem o acervo de Pioneiros & Empreendedores ( Fotos: Rodrigo Carvalho )
Destaque na mostra em cartaz na Unifor, Ramos de Azevedo deu forma à São Paulo do século XX

Responsável por prédios simbólicos da paisagem urbana de São Paulo, como o Teatro Municipal, o prédio dos Correios e Telégrafos, da Pinacoteca do Estado, da Secretaria da Educação e até mesmo os pavilhões originais do Carandiru, Ramos de Azevedo é considerado o principal construtor da metrópole do início do século XX. Seus prédios, feitos para durar, são marcos da permanência em uma cidade em constante mutação.

Ele é um dos destaques do livro "Pioneiros & Empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", de Jacques Marcovitch, que inspirou exposição homônima em cartaz no Espaço Cultural Unifor. Em três volumes, a publicação conta a trajetória do desenvolvimento brasileiro pela perspectiva dos empresários, remontando a história de 24 empreendedores, todos representados na mostra.

O autor, Jacques Marcovitch, destaca o salto populacional de São Paulo no final do século XIX e início do XX, impulsionado pelo dinheiro do café, passando de cerca de 64 mil habitantes em 1890 para 240 mil em 1900 e 580 mil em 1920. É a chamada "segunda fundação" de São Paulo, que tem Ramos de Azevedo como seu escultor, deixando em concreto a sua marca. "Curioso notar que todos esses prédios de Ramos Azevedo, símbolos da permanência, nasceram em plena época de mudanças", ressalta o autor.

Nascido em 1851 e falecido em 1928, Ramos de Azevedo era arquiteto por formação e o destaque de suas construções chegou a gerar um mito em torno de sua pessoa, de que ele teria pessoalmente projetado todas suas obras. Segundo Marcovitch, ele chegou a projetar alguns dos prédios que construiu enquanto empresário. É o caso da Secretaria da Educação (antiga Escola Normal), do qual ele desenhou todo o projeto, inclusive as carteiras nas salas de aula. Outros, no entanto, como o Teatro Municipal de São Paulo, ele não tem qualquer participação. Seu mérito, destaca o autor, foi reunir as condições objetivas necessárias para erguê-lo.

Foi o seu lado construtor e empresário que o eternizou na história de São Paulo. Paulistano de nascença, Ramos de Azevedo viveu até os 18 anos em Campinas, cidade onde, segundo consta, o pai, João Martins de Azevedo, major comandante do esquadrão da cavalaria da Guarda Nacional, mantinha loja de tecidos e aviamentos.

Após uma breve passagem pelo Rio de Janeiro para frequentar a Escola Militar, ele seguiu para São Paulo, onde trabalhou durante três anos nas obras da empresa de estradas de ferro Paulista e Mogiana. Ramos fez amizade com o diretor, Antonio de Queirós Teles, o barão de Parnaíba, e chegou a atuar como projetor na empresa. Em 1875, Ramos foi à Bélgica estudar engenharia civil. Impressionado pelo estilo neoclássico da arquitetura de Gand, cidade onde formou-se engenheiro-arquiteto, Ramos estudou a fundo o estilo que seria marca de seus prédios em São Paulo.

Obras

Com o traço destacado de seus projetos e a amizade que tinha com figuras influentes da Capital paulista, como o barão da Parnaíba, e ainda o visconde de Indaiatuba, o general Francisco Glicério e o engenheiro Antonio Francisco de Paula Souza, Ramos de Azevedo não tardou a ser um dos construtores mais requisitados e admirados da metrópole.

Em Campinas, uma de suas primeiras empreitadas teve o general Glicério como sócio: a Companhia do Matadouro Municipal, responsável pela construção do Matadouro de Campinas. Entre obras de saneamento básico e outras simbólicas, como a conclusão da Igreja Matriz de Campinas, cuja obra se arrastava há 73 anos na época de sua intervenção, Ramos foi ganhando notoriedade e prestígio. "Ramos prometeu que a igreja seria entregue em quarenta meses e, decorrido aquele período, a obra estava realmente terminada. As espetaculares festas de inauguração tornaram o nome de Ramos conhecido muito além dos limites de Campinas", ilustra Jacques Marcovitch.

Atuação

Antônio Paula Souza foi outro que abriu portas para Ramos de Azevedo após a proclamação da República, quando tornou-se diretor da Superintendência de Obras Públicas. Foi com Paula Souza, também, que ele ajudou a fundar a Escola Politécnica de São Paulo, para o ensino de engenharia, na qual, além de contribuir com ideias, Ramos foi responsável pela reforma e tornou-se professor.

O talento como construtor foi acompanhado durante toda sua vida também do tino para os negócios. Entre seus empreendimentos estão o Banco Ítalo-Belga, a Companhia de Cerâmica Vila Prudente, um loteamento de extensa faixa de terra entre o Butantã e Osasco, além de outros de menor proporção. Foi senador e chegou a ser cogitado para a Prefeitura de São Paulo, posto que abdicou disputar, sendo, no entanto, empossado presidente da Caixa Econômica do Estado de São Paulo.

Ramos de Azevedo é, para alguns, um conservador, por ter importado modelos arquitetônicos europeus para um Brasil de realidade inteiramente diversa; para outros, pelo mesmo motivo, é um revolucionário, que ousou impor um novo padrão às construções nacionais. O certo é que seu nome está gravado nos prédios que construiu e na imagem da São Paulo que ajudou a criar.

Mais informações:

Pioneiros & Empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil. Até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos.

Contato: (85) 3477.3000

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