Entrevista

"O pior é que ainda não chegou o pior"

Fernanda Torres fala sobre racismo, machismo, a crise no País e seu solo "A casa dos budas ditosos"

00:00 · 12.08.2017 por Luiz Felipe Reis - Agência O Globo
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A atriz Fernanda Torres: "O Rio é um espelho antecipado do País", profetiza, sobre a crise no estado

Fernanda Torres anda, como muitos de nós, dividida entre mídias, tempos e temas. No meio digital, por exemplo, acaba de estrear uma série histórica, "Filhos da pátria", disponível no Globo Play, onde interpreta uma mulher do século XIX. Já nesta sexta (11) voltou a se conectar com a plateia ao vivo, encarnando a baiana empoderada do solo "A casa dos budas ditosos", que inaugura o Teatro XP Investimentos, erguido no local do antigo Teatro do Jockey, no Rio.

Num trabalho como no outro, há todo um país em discussão. O Brasil do passado e do presente, e no meio dele o desafio de saber como agir e falar do agora. Em entrevista ao Globo, a atriz topa esse exercício e não se desvia de falar da corrupção à violência, do racismo ao machismo, mas também de liberdade e da importância da cultura para remendar uma sociedade esgarçada.

"Filhos da pátria" se passa em 1822, pós-Independência, mas busca refletir o presente. O que esse retrato do passado revela sobre hoje?

A série espelha, a partir do passado, o que somos hoje. Ela retrata uma família classe média, liderada por um funcionário público, o Geraldo (Alexandre Nero), e a mulher, Maria Teresa, meu papel, com seus filhos e escravos. Então, fala de racismo, escravidão, machismo, patriarcado e corrupção, mas com humor. Foi difícil para o Bruno (Mazzeo, autor) e o Mauricio (Farias, diretor) encontrar o humor que coubesse no presente. A gente olha para trás e vê uma comédia de absurdos e a nossa desgraça atual. E rimos, de tudo o que nos formou e que até hoje são as nossas maiores questões.

E como a perspectiva do negro é tratada na série?

Os escravos são os únicos que têm uma visão crítica dessa sociedade. Isso é bonito. Eles que têm ideia da desgraça que virá, mas ninguém os ouve. Eles ainda não têm voz. É um olhar interessante e difícil, pois a série trata nossas maiores mazelas com um humor absurdo. Mas faz pensar. Os escravos olham criticamente e nos fazem ver o absurdo.

Além da corrupção moral, da escravidão e do racismo, reflete-se sobre a corrupção na política, e das relações entre público e privado?

O foco é a corrupção, a partir do Geraldo, um funcionário público que, a princípio, não é corrupto, mas se enreda num esquema. Quanto mais ele se corrompe e adere à trama do Estado, mais ele se torna um herói dentro de casa, o provedor. A gente vê isso hoje. Olha o Cunha. Ele chorou uma única vez nisso tudo, quando falou da família. Aquele homem frio. Mas o que ele é na casa dele? É o provedor, o patriarca, o patrimonialista, porque o Brasil é isso, e isso tudo é o Geraldo. Quanto mais rouba, mais tem condição de ser o pai de família, respeitado em casa, e possibilita a ascensão ambicionada pela mulher, que é machista, racista, um horror completo. Mas não é vilã. É "só' outra mulher da classe média, uma equivocada, com todos os nossos defeitos. Essa série é a nossa comédia de erros.

Em 2016, um texto seu, publicado no blog #AgoraÉQueSãoElas, foi alvo de críticas do movimento feminista, e você reconsiderou suas opiniões. Depois, vimos casos emblemáticos de machismo, como o do José Mayer. De lá para cá, viu mudanças nos lugares onde vive e trabalha?

Não sinto diferença apenas no comportamento dos homens, mas nas relações em geral. A mudança vai da publicidade às pesquisas de compliance nas empresas, no cotidiano de um set ou outro ambiente de trabalho. Mas sinto uma profunda diferença no modo como as coisas são vistas. Nos anos 1970, uma mulher posar nua era sinal de que era dona do próprio corpo, liberta, mas hoje é corroborar com uma indústria machista. A questão sobre o que é liberdade mudou. Outra coisa é que, antes, a opinião pública era formada pela Zona Sul, branca, e isso era visto como "a opinião pública". Não é mais, mudou. Pro bem e pro mal.

Para o bem no sentido de que é possível, hoje, ouvir vozes antes inauditas, interditadas...

Sim, com a internet, minorias passaram a ter voz, acesso a meios de expressão. Mas também há radicais. Grupos organizados e, às vezes, com vozes bem violentas. Na internet é preciso ter muito cuidado para se posicionar. Ali era um blog feminista, e eu fui ignorante sobre o lugar e com quem eu falava. O meu mea culpa veio por entender que eu não podia ter falado a partir de um lugar de exceção num espaço político como é aquele blog.

Mas como passou a ver o papel do feminismo hoje, a partir dali? Algo mudou?

Vi ali que uma coisa é a minha experiência pessoal, que é de exceção, e outra a questão maior, da mulher. Vim de um lugar em que a minha mãe (Fernanda Montenegro) era filha de um operário que a deixou ser atriz aos 16 anos, uma exceção imensa à época. Ao lado da mãe, havia a minha tia, que era mãe de santo. Então cresci com mulheres altamente empoderadas em casa, e nunca tive dúvidas de que iria trabalhar, me sustentar, mas isso é um olhar de exceção, que eu não poderia ter tido ali, pois ali era o lugar afeito à sororidade, que é você pensar para além de si e ver que o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo. Ali eu tentei falar de flerte, mas não cabia num espaço onde a luta é para interromper o fato de que uma mulher pega um trem todo dia e é sexualmente atacada. Foi importante. Ali tive a sensação de que eu tinha envelhecido, que era do século passado e teria que aprender a existir no novo século que se apresentava. Acho que o feminismo conquistou esse ponto. É uma questão social urgente, porque verdadeira, pois todo mercado de trabalho é voltado para a biologia do homem. Ignora a maternidade, o relógio biológico da mulher, e a mulher passou a adiar a sua maternidade para ter competitividade no mercado. Então o feminismo está certo em dizer que a questão da mulher é, sim, central para a sociedade.

Toda essa revisão de perspectivas revelou algo a mais sobre a baiana libertina que você interpreta em "A casa dos budas ditosos" ?

Sim, mas o discurso dela é menos dirigido à mulher e mais à Humanidade, à moral e ao sexo. O que o Ubaldo diz é que a luxúria não é pecado. Ela é uma invenção de Deus, e um bem da Humanidade. Essa baiana é incrível, pois é uma feminista que compara a luxúria à bondade. Ela diz que fez o bem de muitos, porque liberou sexualmente muita gente. Então a peça é mais atual que nunca, não sinto como se fosse do passado. Ela diz coisas lindas como "Queria que todo mundo aqui, nessa noite, patolasse um ao outro". Diz: "Luto por um mundo de sacanagens sem problemas, mas é dificílimo". E é dificílimo mesmo. Mas o ponto de vista dela é mais sobre sexo e sexualidade.

"A casa...' reflete mais sobre liberação sexual e de sexualidades?

Sim, ela é pansexual. Mas não deixa de tocar na questão feminista, quando diz: "Medo, teu nome é macho". É uma mulher altamente empoderada. É que em matéria de sexo e gênero a Bahia está a milhões de anos-luz de todos. A questão de gênero na Bahia é... A Bahia já nasceu sabendo de tudo o que a gente está vendo aí. E o Ubaldo é um gênio baiano, então há 13 anos já estava dizendo em cena "Sou uma feminista, esclarecida, progressista". E dizer isso hoje, em que o feminismo ganha lugar no debate público, tem mais força.

E qual é o sentimento de poder inaugurar um teatro?

Abrir um teatro hoje é quase milagre, e com a minha peça... É especial. Esse projeto recriou o teatro e o seu entorno. E isso num tempo que não é favorável à cultura, em que os artistas são agredidos no Congresso, como foi essa perseguição equivocada à Lei Rouanet; quando persiste o equívoco de achar que o MinC dá verba a desocupados, quando na verdade há toda uma importância histórica e econômica vinculada ao MinC. Ele cobre toda a nossa história, museus e acervos, vai da arqueologia ao digital. Vai da Idade da Pedra até o futuro de todos nós, o futuro que ainda não sabemos legislar. E no meio disso surge um equívoco e reduz tudo à Rouanet. É distorção da realidade.

A Cultura, hoje, recebe menos subsídios e verbas que a maioria dos setores, e mostra crescimento superior a setores mais beneficiados pelo governo. Como vê isso?

Isso faz parte desse mundo de ofensas e de desinformação em que vivemos. Então além do erro e da distorção, há desperdício e negligência, pois o País tem enorme vocação para a indústria criativa, para o mercado digital, que é negócio no mundo todo. Temos uma TV forte, uma música extraordinária, literatura e teatro. Um país que não exporta a sua cultura é um país escravo. Mas isso, que é tão óbvio, parece ser muito difícil de explicar.

Como você observa o presente do País e do Rio?

O Rio é um espelho antecipado do País. Os problemas que logo podem ocorrer no País todo já acontecem no Rio hoje: a questão da previdência e a violência, a falência econômica do estado e a ausência de lideranças capazes de arrumar a casa. Hoje, no Rio, a gente vê o comércio fechando, tiroteios, mas ainda estamos um pouco maquiados de Olimpíadas. O pior é que ainda não chegou o pior. Estamos no início de uma descida, que é potencializada por uma crise maior, da União, e por um futuro que é uma incógnita. Ninguém sabe em quem apostar em 2018. Está todo mundo tentando se salvar. Diante disso, ao artista, só resta criar... Por isso fico feliz de ver essa peça viva e ainda inédita em muitos lugares desse País, que é imenso, incrível, e que nos deu Ubaldo. O problema do Brasil é que o Brasil, às vezes, não ajuda a ele mesmo.

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