Ensaio

O percurso do livro no Brasil

01:09 · 08.06.2013
Baptiste Louis Garnier, dono da filial Livraria Garnier, desembarcou no Brasil em 1844. A livraria chamou a atenção da elite carioca devido às novidades e ao glamour dos romances e folhetins parisienses. Tentando conquistar o maior número de leitores, montou uma equipe de tradutores e editores, tornando-se uma das editoras mais importantes do século XIX, recebendo o título de "Livreiro e editor do Instituto Histórico e Geográfico" do imperador D. Pedro II e uma comenda da Ordem da Rosa pelos serviços prestados às letras nacionais.

A Livraria Garnier era localizada na Rua do Ouvidor, ponto de encontro de seus escritores renomados, como Machado de Assis, Graça Aranha, Aluísio Azevedo, José de Alencar, Olavo Bilac, entre outros, para discutir literatura, chamando a atenção dos que passavam e causando inveja aos iniciantes, pois a livraria tinha fama de não trabalhar jamais com autores que fossem estreantes.

O impulso

Em 1873, Garnier abriu a tipografia Franco-Americana com seu amigo Charles Berry, fazendo com que suas publicações tivessem uma nova dinâmica, já que não era mais necessário importar os livros luxuosos de Paris. Consequentemente, foi possível aumentar as atividades editoriais, apostando em mais traduções e lançamentos com capa de brochura e preços acessíveis. A Livraria Garnier fechou suas portas em 1934 e é considerada uma das mais importantes para o desenvolvimento do mercado livreiro no país.

Alguns brasileiros, apesar de um ritmo mais lento, também conseguiram se destacar no mercado editorial do século XIX. Segundo Machado de Assis (EL FAR, 2006), Paula Brito foi o primeiro editor brasileiro, ex-integrante da equipe de composição do Jornal do Commercio ao lado de Pierre Plancher. Em 1830, Paulo Brito abriu sua primeira livraria; todos os seus trabalhos de edição e encadernação eram feitos sob encomendas, por isso cada obra possuía uma lista de pessoas interessadas em pagar por elas adiantado.

A publicidade

As divulgações dos livros eram feitas sempre aliadas a um grande alarde na mídia; muitas vezes os próprios autores bolavam como era feita essa divulgação, exemplo é o escritor Figueiredo Pimentel que forjou seu suicídio em uma barca que ia para Niterói, com direito a chapéu, casaco e uma carta suicida abandonados na barca e policiais investigando o caso. Pouco tempo depois o autor apareceu para divulgar seu romance Suicida!

Diversos livreiros imitaram a linha publicitária de Quaresma, exemplo disso foi à livraria Bejamim Costallat & Micollis, que em 1923, conseguiu vender 25 mil exemplares do livro Mademoselle Cinema em menos de 10 meses, devido a chamadas no jornal como "Vão gritar contra o escândalo!... Esta Mademoselle Cinema vai, pois, fazer espernear muita gente". Na década de 1920, a livraria Bejamim Costallat & Micollis conseguiu atingir a marca de 15 mil exemplares vendidos em diversos títulos. Seguindo a linha editorial de Quaresma, os livreiros proporcionaram uma grande diversidade ao mercado literário do Brasil, inúmeros títulos, autores, preços, conseguindo atrair todo tipo de leitor, fazendo com que o livro não fosse mais privilégio de um pequeno grupo de pessoas endinheiradas, mas um objeto de diversão que atingia todos em qualquer classe social. A concorrência no mercado livreiro estava, pois, acirrada.

As estratégias

Além das livrarias, a tipografia contribuiu bastante para o crescimento do mercado editorial, os autores que não conseguiam o apoio de uma editora para publicar suas obras, pagavam pela impressão do manuscrito. Ato que incomodava muitos críticos e jornalistas, pois agora qualquer um podia publicar um livro, sendo um insulto para os letrados da época. Olavo Bilac (EL FAR, 2006) era uma das pessoas que se sentiam incomodadas com isso. Em sua crônica O vício literário de 1905, ele afirmava que existia uma mania de transformar tudo em literatura, causando uma superprodução literária.

Se para alguns era uma ousadia publicar seus livros através de uma tipografia, para outros era o único meio de sair do anonimato, exemplo disso é o Machado de Assis que publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881, pela Tipografia Nacional.

Outro exemplo foi Raul Pompéia que publicou O Ateneu em 1888 pela tipografia Gazeta de Notícias, e Aluísio Azevedo que publicou Casa de Pensão pela Tipografia Militar dos Santos em 1884. Graças a essa alternativa, vários autores de sucesso conseguiram sair do anonimato no século XIX e XX.

Um registro curioso é que apesar da impressão ser proibida até a chegada da família real ao Rio de Janeiro, diversas foram as tentativas de instalar tipografias clandestinas no Brasil. Exemplo foram os tímidos ensaios de imprensa em Pernambuco, em 1706, e no Rio de Janeiro, em 1752, mas foram rigorosamente extintos pelo governo português, todo material foi sequestrado e os impressores ameaçados de prisão.

O ponto de partida

O Rio de Janeiro foi o ponto de partida do mercado editorial brasileiro. Foi nas ruas centrais que alguns livreiros endinheirados abriram suas portas, permitindo que o mercado de livros e periódicos crescesse. Sempre atentos ao que o público queria, eles transformavam o livro em um produto acessível e lucrativo, "criaram coleções, novos formatos e capas atraentes, com a pretensão de atingir os mais diferentes interesses da população leitora brasileira" (EL FAR, 2006, p.39).

Os impressos conseguiam chegar a outros pontos do país por encomenda. Exemplo são às edições de Pedro Quaresma que foram encontradas no sertão da Bahia e no interior de Minas Gerais, segundo Brito Brosa (EL FAR, 2006), um dos maiores estudiosos sobre a vida literária brasileira. Na tentativa de imitar o mercado literário do Rio de Janeiro, Anatole Louis Garraux, ex-funcionário da Garnier, abriu a Casa Garraux em 1860, localizada na Praça da Sé em São Paulo, ele aproveitava os estudantes de direito do Largo São Francisco para vender livros jurídicos. Os irmãos Antonio Maria e José Joaquim abriram a Livraria Teixeira em 1876, que publicou livros como os de Euclides da Cunha e Visconde de Taunay. Em 1888, publicou o livro A Carne de Julio Ribeiro.

A outra face

A província de São Paulo estava prosperando economicamente, permitindo, assim, que o mercado editorial se arriscasse, então, em um novo projeto nas primeiras décadas do século XX.

Saindo da linha de histórias metropolitanas e personagens ousados que o Rio de Janeiro vinha copiando da França e Estados Unidos, São Paulo resolveu arriscar na valorização da cultura caipira. Nascia um novo grupo de escritores, a chamada geração pré-moderna, com Lima Barreto, Paulo Setúbal e Monteiro Lobato, que começou a ganhar visibilidade com o livro Urupês lançado em 1917 pelo selo Revista do Brasil. Lobato é lembrado até hoje por suas histórias infantis, como A menina do narizinho arrebitado, que saiu com uma tiragem de 50 mil exemplares, fato bastante raro até nos dias de hoje.

Lobato possuiu o selo Monteiro Lobato & Companhia, criou a Companhia Editora Nacional, ao lado Caio Prado, Leandro Drupé e Artur Neves em 1944. O grupo modernista de São Paulo articulou, em 1922, a Semana de Arte Moderna, o evento permitiu que alguns intelectuais se juntassem para colocar em circulação o que as editoras não tinham condições de apoiar, como projetos muito inovadores pra época. Mesmo com os autores arcando com os custos e publicando em revistas produções de Mario de Andrade, Oswald de Andrade, entre outros, o evento não conseguiu abrir as portas do mercado para esse novo tipo de publicação. Novas editoras iam nascendo no mercado e trazendo projetos inovadores. Alguns apostavam em livros didáticos ou universitários; outros apostavam em escritores nacionais e internacionais, assim nasceram diversas livrarias e muitas fazem sucesso até hoje, exemplo é a Saraiva, Melhoramentos, Ática, Globo, Record, Rocco, Vozes, entre outras que dinamizaram o mercado naquela época. (N. F. L.)

SAIBA MAIS

FEBVRE, Lucien. O aparecimento do livro. São Paulo : Unesp, 1992

FONSECA, Aleilton. O arlequim da Pauliceia. São Paulo: Geração / UEFS, 2013

KATZENSTEIN, Ursula. A origem do livro. Sao Paulo : Hucitec, 1986

MARTINS, Wilson. A palavra escrita: História do livro, da imprensa e da biblioteca. 2. ed. São Paulo: Ática, 1996

SCORTECCI, João. Guia do Profissional do Livro. São Paulo : Scortecci, 2007

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