Espaço Cultural Unifor

O pensamento de Júlio Mesquita

01:00 · 06.04.2012
O advogado e jornalista é um dos principais nomes por trás da história do jornal O Estado de S. Paulo
O advogado e jornalista é um dos principais nomes por trás da história do jornal O Estado de S. Paulo ( )
Júlio Mesquita é um dos personagens representados, por meio de fotos, falas e objetos, na exposição que está em cartaz no Espaço Cultural Unifor
Júlio Mesquita é um dos personagens representados, por meio de fotos, falas e objetos, na exposição que está em cartaz no Espaço Cultural Unifor ( )
...na exposição que está em cartaz no Espaço Cultural Unifor
...na exposição que está em cartaz no Espaço Cultural Unifor ( )
Biografado no livro "Pioneiros e empreendedores", ele também é representado na mostra homônima

Foi em 4 de janeiro de 1875 que circulou pela primeira vez "A Província de S. Paulo", nome original do periódico que daria origem, anos depois, a "O Estado de S. Paulo". Fez 137 anos que isso aconteceu, mas o jornal comemorou 132 anos no último mês de janeiro. Explica-se: o grupo desconta o período que esteve sob intervenção de preposto do governo federal, entre 1940 e 1945.

A decisão diz muito da maneira com que a família Mesquita conduziu a direção do jornal em mais de um século de existência. Prezando pela personalidade e independência, o periódico se destacou por expressar suas opiniões e posturas políticas. Ainda sob a gerência de Rangel Pestana e Américo de Campos, "A Província de S. Paulo" nasceu com princípios e valores republicanos.

O programa adotado abordava eleições diretas, separação entre Igreja e Estado, instituição do casamento civil e defesa da autonomia das Províncias na escolha de seus presidentes, entre outros ideais republicanos. E foi justamente quando uma nova nomenclatura foi estabelecida para as unidades da federação é que o jornal também passou a se chamar "O Estado de S. Paulo", em janeiro de 1890.

A figura de Júlio Mesquita passou a fazer parte da história do Estadão, como ficou conhecido, em 1882. Recém-formado, chegou à redação como jornalista e advogado, com apenas 23 anos. O professor Jacques Marcovitch, autor da publicação "Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", o descreve como "uma dessas personalidades capazes de contribuir com aquele diferencial que é a marca dos grandes empresários".

Parte da trajetória desse pioneiro pode ser melhor conhecida na exposição homônima em cartaz na Espaço Cultural Unifor até 13 de maio. Júlio Mesquita nasceu em Campinas, interior de São Paulo, no dia 18 de agosto de 1862, filho de um comerciante português. Chegou a trabalhar em escritório de advocacia, ganhou algumas causas, mas acabou se rendendo ao jornalismo, na "Gazeta de Campinas" e "A Província de S. Paulo". Mesquita logo ganhou a confiança da direção e, em 1888, assumiu o cargo de redator-gerente. Com a Proclamação da República, no ano seguinte, e consequente mudança de nome para "O Estado de S. Paulo", foi promovido a diretor. Em 1890, sob seu comando, o jornal que havia nascido com quatro páginas e circulação de 2 mil exemplares, já chegava a oito páginas e 7 mil exemplares.

Mesquita sempre se arriscou nos investimentos. A compra de rotativas mais modernas e linotipos levou o jornal às 16 páginas e 18 mil exemplares em 1908. Era ousado também na escrita. O jornalista havia sido um dos principais defensores de Rui Barbosa em suas diversas campanhas à presidência. Defendia a República com vigor, se manifestava contra a corrupção política e os riscos do militarismo. Segundo Marcovitch, que é professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP), a prioridade na defesa de suas próprias ideias em vez de dar razão ao cliente - leitor ou anunciante - poderia ser considerada suicida em outro ramo empresarial. Entretanto, para um jornal, a postura de independência atraía cada vez mais leitores e, com eles, mais anunciantes.

Como toda estratégia arriscada, também levou Mesquita a alguns percalços, como na Primeira Guerra Mundial. Ao defender os aliados, provocou a debandada de vários anunciantes alemães, que o acusavam de receber dinheiro da Inglaterra. Chegaram a verificar os balanços da empresa, mas nada foi encontrado. Os lucros foram reduzidos e, ao final da guerra, o papel custava o dobro.

Mais uma vez Júlio Mesquita mostrou pulso firme. Ele já havia, no começo de sua administração, colocado as contas em ordem, ao atuar contra a inadimplência de assinantes e acabar com os anúncios de favor. Dessa vez, em 1916, para manter o periódico, teve que fazer o que mais custa a um jornalista: cortar o número de páginas do jornal e limitar o aumento de sua circulação.

Sua convicção em investir somente no que acreditava era tão forte que algumas vezes optou por não tomar partido nenhum em situações de conflito, como na Revolução Paulista de 1924. Mesmo mantendo a neutralidade, foi preso e teve seu jornal suspenso por alguns dias. Seus filhos, que o sucederam na condução dos negócios, também passaram por prisão e exílio em algumas situações. Durante o Estado Novo, o jornal foi censurado e depois ficou sob intervenção de preposto do governo federal por cinco anos.

Personagem controverso, Mesquita era tido pelos amigos como um sereno defensor dos princípios liberais e pelos adversários como conservador e aristocrático. Não se pode negar, porém, que suas convicções eram inabaláveis. Trabalhou até o fim da vida, como comprova seu último artigo, uma exaltação ao nascimento do Partido Democrático, entregue aos revisores dez dias antes de sua morte, em 15 de março de 1927.

A família, que desde 1897 controlava parte do capital e havia assumido-o por completo em 1902, deu continuidade aos negócios - em especial os filhos Francisco e Júlio Mesquita Filho. O grupo continuou sua expansão e hoje agrega agência de notícias, rádio e um segundo periódico, o "Jornal da Tarde". Além disso, teve papel fundamental na criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, com Júlio Mesquita Filho como seu mentor intelectual.

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