Artes cênicas

O palhaço que vive em nós

Grupo As 10 Graças da Palhaçaria completa seis anos de atividade com trabalho voltado à linguagem circense

Integrantes do As 10 Graças da Palhaçaria em apresentações por praças, terminais e outros locais públicos: grupo nasceu na rua ( Fotos: Eden Barbosa/divulgação )
00:00 · 15.03.2018 por Iracema Sales - Repórter

Formado por oito artistas, com atuações que transitam entre teatro, performance e artes visuais, tendo como palco o espaço urbano, o grupo As 10 Graças de Palhaçaria celebra seis anos de criação fazendo o que mais gosta: arrancar risada do público.

A primeira apresentação aconteceu em 2012, quando a Praça do Ferreira foi transformada em imenso palco a céu aberto, lembra Alysson Lemos, integrante e produtor da trupe, que exercita o fazer artístico utilizando as ferramentas da palhaçaria e da bufonaria. Do primeiro gênero cênico, o grupo explora a inocência; do segundo, o grotesco, o excesso. A dramaturgia do coletivo transita entre os dois.

Em alguns espetáculos, como "A Isca", apresentado nesta semana, os atores trabalham com a linguagem circense. Montada em 2014, a peça é minimalista, com um ator em cena interpretando quatro personagens. O ponto de partida para sua construção foi a publicação de uma notícia de jornal, de 1943, informando sobre ataque nazista a um navio brasileiro, durante a II Guerra. "É um humor ácido", adianta Alysson Lemos, explicando que o grupo visitou comunidades de pescadores para conceber a peça, que investe no trabalho de corpo do ator.

Em outras produções, a exemplo de "O cabaré da desgraça", a dramaturgia envereda para a bufonaria, enfatizando o exagero, que pede o riso escrachado. As apresentações serão realizadas nos dias 21, 22, 27 e 28 de março, no Teatro do Dragão, às 20h.

A peça é resultado de passeio pelo universo da bufonaria. Nela, o grupo realiza investigação em torno do grotesco, a partir de uma compilação de cincos números teatrais - explorando a festa, o corpo, a bebida e a nudez. Com classificação indicativa para 18 anos, "O cabaré da desgraça" interage com o público, convidado a participar. Os atores oferecem bebida aos presentes. A ideia é compartilhar atmosfera de festa.

Recursos

Ao longo de seis anos de carreira, o grupo montou cinco espetáculos, a maioria voltada à estética circense. Os trabalhos são atravessados pelo viés político em vários aspectos, destacando a política das relações, com ênfase na liberdade de corpos, posicionando-se contra a censura. "Nosso grupo nasceu na rua. A gente começou a se apresentar em praças e tivemos experimentações também em ônibus", lembra Alysson Lemos.

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Ele assegura que, apesar das dificuldades, os integrantes conseguem sobreviver de arte. "Isso é difícil no Ceará", constata. Mesmo levando suas criações para os palcos, o grupo mantém a cultua da arte que brota das ruas, no espaço do conflito, incorporado pelas metrópoles. Conserva, ainda, o hábito de passar o chapéu, ao fim da apresentação. Aliás, essa contribuição entra também na contabilidade do grupo, além dos editais.

Das apresentações improvisadas nas praças do Centro, em 2016, a companhia foi selecionada para participar do Laboratório de Artes Cênicas, na Escola Porto Iracema das Artes. No momento, os atores ministram oficinas circenses para estudantes do ensino médio de escolas da rede estadual pública, localizadas no bairro Mucuripe. O grupo ganhou o edital Juventude de Paz, do governo do Estado do Ceará, que faz parte do programa Ceará Pacífico.

Oficina

"Palhaçaria e potência de vida" é o tema das oficinas, que duram uma semana. "A gente trabalha a formação de palhaço com jovens a partir de 14 anos", assegura Alysson Lemos. A seleção dos alunos fica a cargo de cada escola. O trabalho foi realizado em duas instituições até agora. "Não dá para sair artista ou com formação de palhaço. O fazer artístico é para a vida. A noção de palhaço se mistura com a nossa vida", avalia.

"Acreditamos que o palhaço é uma maneira e enxergar o mundo, de aceitar o ridículo. Ele é inocente, mas não ingênuo", argumenta o ator, informando que a formação tenta criar nos jovens a ideia de coletivo, escuta e generosidade, defendendo a necessidade de abrir espaço para o outro.

Alysson Lemos admite que existem muitas versões sobre a origem do palhaço, que acredita existir em culturas milenares. "É uma proposição estética", define, sobretudo, a apropriação feita pela trupe.

As apresentações de "A Isca" e "O cabaré da desgraça" marcam os seis anos de atuação do grupo, que nasceu com os atores Davi Santos e João Victor, considerados fundadores do coletivo. Depois, chegaram Alysson Lemos, Edvaldo Ferrer, Igor Cândido, Lissa Cavalcante, Caroline Holanda e Rayane Mendes.

A comemoração acontece durante todo o mês de março. O primeiro trabalho do grupo foi fruto de experiência na Praça do Ferreira, denominado "Mais uma grande besteira", que até agora contabiliza 200 apresentações, entre festivais nacionais e locais, em cerca de 40 bairros de Fortaleza.

Mais informações:

Espetáculo "O cabaré da desgraça", do grupo As 10 Graças da Palhaçaria. Dias 21, 22, 27 e 28 de março, sempre às 20h, no Teatro do Dragão (R. Dragão Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 20 (inteira) Contato: (85) 3488.8600

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