O “nordestinês” na ponta da língua - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Dicionário

O “nordestinês” na ponta da língua

19.07.2004

Reprodução

Pode-se começar dizendo que o jornalista, pernambucano da moléstia, Fred Navarro é, a bem dizer, o cão chupando manga. Só mau sujeito para ler o “Dicionário do Nordeste” (Editora Estação Liberdade) e ir amarrar o bode. Depois de correr os olhos — de cabo a rabo — nas 378 páginas do dicionário, muita gente vai aprontar miséria com esse tal de nordestinês. A obra esmiuça as vocabulários nordestinos, em um exercício extremo para descobrir a língua de uma região marcada pela diversidade.

“É um trabalho absolutamente jornalístico”, avisa Navarro, ex-correspondente do semanário “Movimento” e da revista “Isto é”. Em 1998, Navarro publicou “Assim falava Lampião”, arrancando elogios da crítica especializada e deixando muito pano para as mangas de uma nova pesquisa. O que poucos sabem ou não querem se convencer é que entre criatividade e fala errada há uma longa distância. O “Dicionário do Nordeste” é testemunha disso. Ele corre cinco séculos para provar que a picardia nordestina não é falada à toa, feito jumento sem mãe. Ela é resultado da colonização e dos diferentes povos que invadiram as terras nordestinas.

Do “Arre égua”, cuja referência mais antiga é do trovador português Gil Vicente, numa alusão à interjeição usada para fazer os cavalos andarem, até as palavras “criadas em mesa de bar” são mais de cinco mil palavras e expressões. Navarro não se prende ao significado. Sua ferramenta é a contextualização dos vocábulos reunindo discografia, filmografia e bibliografia primorosas. Ednardo, Fagner, Falcão, Belchior, Cego Aderaldo, Pe. Cícero Romão, Fausto Nilo, Leonardo Mota, Juarez Barroso, Patativa do Assaré e Raimundo Girão dividem espaço com outros nordestinos, como Tom Zé, Caetano Veloso, Neil de Castro, e personalidades que falaram ou visitaram o Nordeste, citando-o em seus trabalhos.

Para explicar “jangada”, Navarro se reporta ao Hino do Estado do Ceará, de Alberto Nepomuceno e Tomás Lopes. “Tua jangada afoita enfune o pano!/ Vento feliz conduza a vela ousada!/ Que importa que o seu barco seja um nada / Na vestidão do oceano, / Se à proa vão heróis e marinheiros / E vão no peito corações guerreiros?”. O açude Orós é lembrado em “arrombou-se Orós - expressão usada quando a situação está preta”. A lista é longa e remédio certo para soltar o riso e perceber-se nordestino: atolar o pé, abestado, atubibado, dar o pira, cabra da peste, cabeça chata, baixa da égua, balancê, ver a palha voar...

Em entrevista ao Caderno 3, por telefone, Fred Navarro explica a motivação do dicionário, esclarece curiosidades e fala sobre preconceito e modismos. A primeira edição de “Dicionário do Nordeste”, de cinco mil exemplares, já está esgotada. Sinal de que uma parte do Brasil está preocupada com a língua falada. Como bem disse o professor Pasquale Cipro Neto: “se estivéssemos em um país mais sério e mais preocupado com a língua que fala, Fred Navarro seria retirado do mundo em que vive e colocado numa redoma para ficar pesquisando, pesquisando, pesquisando. E a sociedade, depois, agradeceria”.

Caderno 3—Como foi o início da pesquisa para elaborar o dicionário?

Fred Navarro-Eu vim de Recife para São Paulo em 1988 e nas empresas que eu trabalhei, “Isto é” entre outras, eu largava muitas expressões de nordestino que a gente encontra no livro. Era aquela gargalhada geral. Todo mundo dava uma risada. Mas eu percebi que isso acontecia mais por desconhecimento, do que de gozação. Era pela estranheza. Imagine um estrangeiro falando palavras da nossa língua em outra terra. Eu comecei a anotar essas palavras e expressões. Ao longo de dois e três anos, eu reuni uma gaveta cheia de papéis, cadernetas e anotações.

—Não havia, nessa época, a idéia do livro?

Fred Navarro- Eu anotava por pensar que aquilo era interessante. Eu poderia guardar por curiosidade. Era muito pessoal. No dia em que eu percebi o tanto de vocábulos que eu tinha, pensei: “não, isso merece uma pesquisa séria”. Desse momento até agora foram sete anos. É uma coisa louca. Muita coisa parece ser do Nordeste, mas quando a gente pesquisa, se remete ao Câmara Cascudo, descobre-se que não é. Até no cordel você não encontra a comprovação nordestina. “Azuretado”, que é muito usado na Bahia, em Pernambuco e na Paraíba, é uma palavra mineira. Foi de Minas que ela ganhou o resto do Brasil. Pela fronteira da Bahia, ela entra no Nordeste, e nós a assumimos. “Azuretado” está no dicionário de pernambuquês, bahianês. No Aurélio, você vê que ela não é nordestina.

—Você considera o dicionário uma segunda edição do “Assim falava Lampião”, afinal ele foi a gênese desse livro de agora.

Fred Navarro- “Assim falava Lampião” é exatamente o mesmo livro. Esse tem o dobro do outro. Este era o projeto que eu tinha. Em 1998, a editora quis lançar, porque gostou muito. Mas não estava terminado. Tinha muita coisa do Ceará, da Bahia e de Pernambuco, mas faltava do Piauí e dos estados menores. Por isso eu tive de continuar a pesquisa para puder chegar ao formato definitivo. Mas agora os estados estão bem distribuídos. Tem material de Fernando de Noranha, que não tinha, do Maranhão e de Alagoas. Agora ele é um projeto finalizado.

—Você é de Recife, então já parte com um olhar diferenciado sobre os verbetes nordestinos. Você se policiou para não ter mais Recife do que o resto do Nordeste representado no livro?

Fred Navarro-Tem muita coisa que, quando não encontrava citação, recorria à minha memória, às empregadas domésticas, às babás na casa de minha mãe. Então, tem muita coisa do Recife, nesse sentido. Minha vida cultural toda é de Recife. Eu só me mudei para São Paulo depois dos trinta anos. Mas na escolha das citações, eu procurei ser justo. Se tinha quatro citações e duas eram Pernambucanas, eu colocava uma de lá e onde de outro estado. Sempre procurando o equilíbrio. Às vezes, na mesma página, tinha duas citações de Alceu Valença, então eu incluia Fagner ou Jorge Amado.

— Nacionalmente, a cultura da Bahia e de Pernambuco parecem se sobressair a dos outros estados nordestinos...

Fred Navarro- A Bahia sim. Mas o Ceará e Pernambuco, eu diria que são empatados. Esses três juntos são cinqüenta porcento do dicionário. Mas não dá para comparar estados pequenos, Alagoas, Sergipe, com esses outros. O Maranhão tem uma influência forte da região Amazônica, o número de palavras do Pará e do Amazonas e que não são faladas nem no Ceará nem no Piauí.

Edma Cristina de Góis




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