O negócio do Livro

Em meio a um instável cenário econômico nas esferas nacional e internacional, estratégias desenvolvidas por livreiros e redes de livrarias ascendem discussões a respeito do desenvolvimento do setor

00:00 · 11.02.2017

De acordo com recente estudo divulgado pela Nielsen Bookscan - umas das principais referências internacionais no que toca à análise do hábito de consumo no ramo literário, - o mercado editorial brasileiro caminhou em baixa durante 2016.

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No comparativo entre o acumulado de 2015 e o do ano passado, delimitado pelo mês de maio dos dois períodos, o segmento fechou com quedas em volume (-10,8%) e em faturamento (-3,1%). Considerando a inflação, a queda real em valor foi de 9,2%, cenário que gerou preocupações para os comerciários do setor.

Fato proeminente que se repercutiu, inclusive, numa das mais tradicionais casas de venda de livros da cidade: a Livraria Feira do Livro, capitaneada por Mileide Flores - atual coordenadora de Políticas de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará (Secult).

O estabelecimento contava com pouco mais de seis décadas de atuação na seara cultural fortalezense e encerrou suas atividades em novembro do ano passado, reacendendo uma discussão que há muito já era travada entre integrantes de círculos especializados na esfera: como, afinal, manter um ponto de comércio de livros com os desafios impostos pelo mercado editorial contemporâneo?

Regramento

Em entrevista por telefone, Mileide explica os motivos pelo qual se deu o acontecimento, rememorando aspectos que dialogam com a própria condição do livro na estrutura mercadológica atual.

"O mercado do livro é um campo bastante complicado porque ele não tem um regramento. Eu, Mileide, enquanto pessoa física, culpo muito essa falta de organização principalmente pelos rumos que o segmento econômico assume", afirma.

E completa: "Muita gente, até hoje, não sabe a diferença entre uma editora, uma distribuidora, uma livraria e um autor, algo que complica uma boa atuação no setor e que acabou pesando nos rumos que a livraria tomaria a partir dali, aliado aos diversos 'renascimentos' pelos quais passamos desde o início das atividades".

A profissional pondera ainda a questão da presença da internet em um campo que, historicamente, era apenas de identificação impressa, outro ponto, a propósito, que tem gerado grandes reflexões. "Com o mercado aberto à entrada da internet, por exemplo - e eu não coloco que ela seja a culpada pela baixa da venda de livros impressos - há um aceleramento do processo de fechamento de livrarias porque ela vem com uma outra linguagem, um outro formato de negociação que, muitas vezes, se repercute na afirmação do livreiro enquanto 'comerciante do livro', aquele que é detentor de um olhar próprio sobre o seu comércio".

Personalização

Ainda que também tenha enfrentado grandes dificuldades no ano passado - com um decréscimo de faturamento de 30% em relação a 2015 - a Livraria Arte & Ciência é um bom exemplo de resistência a essa nebulosa conjuntura.

O dono do estabelecimento, o empresário Vladimir Guedes, elenca que fatores como a pluralidade do acervo, a localização estratégica da casa - a matriz está há quase três décadas no bairro Benfica, um dos mais importantes polos intelectuais da cidade, e a filial fica no Centro -, e a personalização não apenas do atendimento, mas da própria procura dos clientes aos produtos, favorecem para que o negócio permaneça ativo.

"Outro segredo da gente - que não é exatamente segredo - é que nós sempre tivemos uma característica de sermos uma livraria de livros novos e usados. E, além dos títulos impressos - não desde o início, mas depois de um certo tempo -, a gente passou a trabalhar também com CDs, DVDs e, atualmente, com LPs, o que gera uma maior fidelização do público", dimensiona.

Além disso, ele acredita que a inserção da Livraria no site Estante Virtual - plataforma brasileira de comércio eletrônico apontada como a detentora do maior acervo de sebos cadastrados - seja uma boa estratégia para tentar sobreviver às intempéries do mercado.

Sob a sua avaliação, "rumar para a internet tem gerado um bom retorno para a gente. Muitas pessoas já vieram aqui na loja dizendo que viram anteriormente o livro que deseja no nosso site ou no Estante Virtual. Isso facilita muito o processo".

Já quanto à atmosfera de crise que paira sobre a economia brasileira, de maneira especial no segmento que atua, Vladimir opina: "A crise existe, mas é algo muito abstrato. Na minha cabeça, as pessoas vão continuar precisando estudar, ler, buscar conhecimento, uma evolução de si próprias. Então o mundo do conhecimento não vai parar por causa de uma crise. Nossa luta é para manter o trabalho de pé e com qualidade. E, sobretudo, divulgá-lo".

Expansão

O recente anúncio da abertura de mais uma filial da Livraria Saraiva em Fortaleza, no North Shopping, durante o último mês de dezembro, também parece esboçar que - ainda que diante de dificuldades como o escoamento de produtos e a alta do preço do papel - o mercado editorial permanece firme.

Variáveis como o remodelamento das lojas físicas e um investimento maciço na venda online são apontados como dois dos principais fatores para que haja uma consolidação do comércio editorial no segmento das livrarias.

A grande meta que deve ser alcançada por esses ambientes, no entanto, na visão de Mileide Flores, diz respeito a uma prática antiga que permeia os alfarrábios. "A livraria do hoje, enquanto espaço físico, tem que se perceber como um espaço de encontro, de prestação de serviços porque, dentro da ação econômica, nós temos a internet e não tem mais como competir. É favorecer a interligação harmônica entre esses dois polos".

Preço fixo

Outro ponto que endossa as discussões no ramo são as instâncias nas quais se dá a Lei do Preço Fixo, ainda em tramitação no Congresso Nacional. A legislação estabelece um desconto máximo que pode ser praticado pelo varejo nos doze meses seguintes ao lançamento de uma obra.

Mileide Flores avalia a questão: "Houve uma tradução errada do termo. Acontece que eu não fixo o preço. O preço ele já é fixado. O que eu negocio é o desconto dado para o cliente dentro de um período. A gente considera que no preço do livro está embutido o desconto de 50% que a grande empresa dá. Então, quando eu embuto no preço o desconto que as pessoas vão trabalhar na conta dos grandes empresários, eu superfaturo o preço inicial do livro".

"A gente luta muito pela Lei do Preço Fixo porque ela beneficia, simultaneamente, o livreiro e o grande empresário. Estamos juntos - ainda que não desde o princípio - na defesa dessa pauta", finaliza.

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