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O motor da cultura

Projeto Pixinguinha foi pensado como estratégia política e social, no contexto das grandes gravadoras

Ivan Lins e Nana Caymmi (abaixo), que participaram da primeira edição do "Projeto Seis e Meia", em agosto de 1977, no Rio. Iniciativa foi embrião do Pixinguinha
00:00 · 05.08.2017

A fase áurea do projeto Pixinguinha foram os anos de 1977, 78 e 79, passando pelo último governo militar, de João Baptista Figueiredo (1918-1999), responsável pela "abertura política", com a assinatura da Lei da Lei da Anistia, em 28 de agosto de 1979 (primeiro ano do seu mandato, que duraria até 1985). O financiamento começou a ficar escasso na administração do general Figueiredo.

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Para Stroud, a recém-criada Funarte, no que diz respeito à música popular, era incumbida de quatro funções: estimular a produção de novos resultados artísticos; apoiar o trabalho de pesquisadores da música popular; criar a marca de uma música "culturalmente significante"; e investigar o fracasso da legislação destinada a garantir percentual adequado de música brasileira transmitida por rádio e pela televisão".

O que surpreende é que, durante o governo Geisel (1974- 1979), houve uma intensificação no envolvimento do Estado com a cultura, como nunca antes. Naquele período, o povo brasileiro viu nascer os alicerces de infraestrutura para o campo cultural: o Conselho Nacional de Direitos Autorais (1975), o Conselho Nacional de Cinema (1976) e a campanha pela defesa do folclore brasileiro (1975). Foi no bojo desse processo que nasceu o Pixinguinha, inspirado em uma série de shows de música popular realizados no Rio de Janeiro, em 1976, no Teatro São Caetano, conhecida como "Projeto Seis e Meia".

Com preços de ingressos baratos, os shows tinham a intenção de atrair as pessoas que trabalhavam no centro da cidade e estavam voltando para casa. O Pixinguinha foi proposto pelo agitador cultural e poeta Hermínio Bello de Carvalho à Funarte - que, à primeira vista, não apostou suas fichas. Desembolsou recurso mínimo para a realização do primeiro show, no Rio de Janeiro, em 5 de agosto de 1977, tendo como atrações Ivan Lins e Nana Caymmi. Ao contrário da expectativa do órgão, só no primeiro ano o projeto contabilizou 273 shows.

A partir das chamadas caravanas, fizeram parte do roteiro as cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Distrito Federal, Curitiba e Belo Horizonte. O Projeto Pixinguinha começa ainda sob o olhar da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), que a tudo assistia.

Daí em seu artigo, Stroud escrever o provocativo título "Funarte: da repressão à cooptação", em alusão à ingerência da Associação dos Pesquisadores de Música Popular Brasileira (APMPB) junto ao então ministro da Educação e Cultura, Ney Braga, que encomendou pesquisa entre compositores, pesquisadores e outros profissionais da indústria fonográfica.

A finalidade era investigar a "descaracterização da música brasileira por influências estrangeiras e a inexistência de arquivos adequados sobre a música popular nacional". A pesquisa confirmou a gravidade do problema e, consequentemente, a necessidade de encontrar um antídoto à altura.

O Pixinguinha foi o remédio, pelos menos nos anos do governo Geisel. Depois, o projeto começa a enfraquecer devido à falta de recursos financeiros. Enfrenta a operação desmonte do governo Fernando Collor (1990-1992) e é suspenso, sendo retomado no governo de Itamar Franco, em 1993. Sofre nova interrupção em 1997, na administração neoliberal de Fernando Henrique Cardoso, para voltar em 2004, ficando até 2009, durante a primeira administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Coincidência ou não, o projeto volta a tomar fôlego, novamente, a partir da iniciativa do governo Lula de instituir o Sistema Nacional de Cultura (SNC). Gilberto Gil era o titular do Ministério da Cultura (MinC), criado em 1985.

No artigo "Projeto Pixinguinha: um exercício de articulação no universo do Sistema Nacional de Cultura", a pesquisadora Gabriela Sandes Borges de Almeida debruça-se sobre os 30 anos da iniciativa. Produtora Cultural, ela fez parte dos bastidores do projeto, tendo acompanhando algumas caravanas.

Estratégia

Stroud, por sua vez, aprofunda sua reflexão nos aspectos político-ideológico do projeto que integra a memória afetiva de vários brasileiros. "Os militares brasileiros estavam em uma encruzilhada em meados dos anos de 1970", escreve, enquanto temiam uma "desnacionalização" da cultura brasileira, principalmente de sua música. A indústria fonográfica internacional explorava o mercado verde-amarelo, obrigando cantores a gravar em inglês.

"Esse foi um momento chave, tanto politicamente quanto culturalmente, porque representa a primeira tentativa feita pelos militares de mudar para uma estratégia de afastamento do autoritarismo rumo a uma possibilidade de reaproximação com a sociedade civil. Esse delicado e de nenhum modo irreversível processo foi um trampolim para uma nova atuação de questões culturais refletida na Política Nacional de Cultura".

Stroud destaca a importância da Funarte como elemento capaz de costurar essas ações, que seriam implementadas pelo PNC, considerando o Pixinguinha uma "iniciativa que constituiu virtualmente o único exemplo substancial de intervenção do Estado no campo da música desde o show da Bossa Nova no Carnigie Hall, em 1962".

Seguindo o raciocínio, é possível perceber que o projeto não foi inventado apenas para promover espetáculos de música ao vivo, com ingressos subsidiados pelo Governo, possibilitando às classes menos favorecidas contato com a música popular brasileira nas diferentes regiões do território nacional.

Havia uma carta na manga: "O Pixinguinha foi pensado para reagir a essa dominação percebida, atraindo a atenção para a música brasileira, e os arquitetos do projeto usaram-no também como um veículo para chamar a atenção para a proteção e preservação de uma tradição específica da música brasileira que eles consideravam ameaçada".

Stroud defende a seguinte tese: "para compreender a importância do Projeto Pixinguinha e por que o governo foi tão interessado em apoiá-lo, particularmente no final dos anos 1970, é necessário ter uma visão mais ampla da orientação cultural do Estado por essa época".

Ele ressalta ainda que, em 1974, coube ao então presidente Geisel dar os primeiros passos rumo a um amplo projeto de redemocratização do Brasil. As classes médias descontentes, artistas e intelectuais eram os alvos dessas mudanças políticas que se ancoravam na cultura, materializadas na PNC. "A nova ênfase na cultura era também planejada para dar uma face mais humana ao regime que tinha sido até agora amplamente caracterizado pela repressão e brutalidade", destaca.

Alcance

Mas a PNC queria mais: chegar também ao povo e não falar apenas a uma pequena elite intelectual, política e econômica. Seria como um pouco de circo para a população que enfrentava dificuldades socioeconômicas e políticas. "O trabalho na área da cultura seria, então, o motor de uma política abrangente, ao mesmo tempo trazendo a resposta aos problemas sociais do País", reitera Stroud.

Coube a Hermínio Bello de Carvalho alertar o governo sobre a situação, ou seja, reverter o declínio da audiência de músicos de compositores brasileiros, que tinham cada vez mais dificuldades em encontrar trabalho diante do domínio das gravadoras multinacionais no Brasil, defendendo que estavam mais interessadas em promover música importada porque a mesma gerava mais lucro.

A música brasileira, que havia deixado a fase dos festivais, passava por uma crise. Não tinha canais para revelar seus novos talentos. O Pixinguinha surge, então, como uma luz no fim do túnel. (IS)

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