Artes visuais

O lugar do estrangeiro

Cearense Ícaro Lira tem trabalho em destaque no 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil

O "Museu do Estrangeiro", de Ícaro Lira, ocupa uma galeria inteira do Sesc Pompeia; abaixo, performance "Caminho do Refúgio", de Shambuyi Wetu, que aconteceu no evento como parte do trabalho do cearense
00:00 · 07.10.2017 por Roberta Souza - Enviada a São Paulo

Ao pensar a produção artística a partir dos Panoramas do Sul, a curadoria do Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil, realizado em São Paulo, se coloca diante de um desafio: tornar o evento um lugar de inclusão sociopolítica para artistas ainda não inseridos no mercado da arte.

Essa aposta envolve uma série de ações de divulgação com o intuito de chegar a lugares distintos e distantes. Mas, aqui mesmo, no Brasil, são muitos os refugiados que não conseguem visibilidade para suas produções artísticas, dado o contexto em que vivem. E foi interessado nessas questões que o cearense Ícaro Lira propôs seu trabalho.

O projeto "Museu do Estrangeiro", com o qual foi selecionado, ocupa toda a galeria de oficinas do Sesc Pompeia com um acervo móvel em mutação que trata exatamente do fluxo de imigrantes, migrantes, refugiados e exilados na capital paulista. Mas não são necessariamente os trabalhos de Ícaro que se encontram ali. São precisamente os de Kuta Ndumbu (Angola), Shambuyi Wetu (Congo), Isam Ahmad Issa (Palestina), Sara Ajlyakin (Síria), Louides Charles (Haiti), entre outros, todos de artistas estrangeiros/refugiados que constroem a ideia simbólica de um museu dentro da mostra.

"Eles estão, de certa forma, à margem desse sistema da arte por vários motivos, mas eu diria que o principal é racial. A língua e a precariedade da vida deles também podem ser apontadas", identifica Ícaro.

Pelo menos 25 artistas nessa situação somaram forças no processo, fosse auxiliando nas pesquisas, participando como interlocutores, oferecendo os trabalhos para a exposição ou mesmo ministrando as aulas abertas que antecederam a abertura do Festival no mês passado.

Configuração

Entre as temáticas discutidas, estavam a nova lei de imigração, a diáspora africana e a revolução haitiana. Segundo Ícaro, as obras selecionadas acabaram por refletir a condição precária de vida de muitos desses artistas. A questão da guerra, por exemplo, perpassou todos os trabalhos de alguma forma.

"Tem escultura, vídeos de performances, documentários, várias pinturas, documentos, cartazes; tem uma instalação sonora que fiz junto com Simon Fernandes, também de Fortaleza, e que está dividida em quatro pontos pelo galpão", enumera Ícaro, que, nesse processo, não se reconhece como um curador. "Alguém pode perceber dessa forma, porque também são fronteiras bem impermeáveis. Mas esse é o trabalho de um artista em diálogo com outros artistas", define.

O cearense reforça também que o Museu do Estrangeiro não é um museu. "É um projeto de arte que se configura em alguns momentos como museu, mas já se configurou como seminário, como oficinas, como site, exposição; vários formatos, que vão se modificando a partir da situação em que ele é colocado. Mas não tem acervo e é completamente mutável", observa.

Histórico

Data de 2015 a primeira investida de Ícaro nessa proposta. Naquele ano, o Museu do Estrangeiro era um projeto individual, muito focado em São Paulo e pensando a migração como formadora da ideia que se tem dessa cidade e do próprio Brasil. "Ali naquele momento o trabalho era feito muito pensando a migração a partir de um viés racial; essa migração europeia - branca, italiana, alemã - incentivada pelo Estado numa ideia de embranquecer o País, com a visão de que se você tornar o País mais branco, vai tornar ele mais forte", explica o artista.

Os resultados da pesquisa, iniciada no bairro onde Ícaro residia - Bom Retiro, historicamente formado por imigrantes - foram uma exposição, uma série de conversas, uma oficina e uma publicação. No ano seguinte, 2016, o cearense retomaria o trabalho a partir da residência realizada no Hotel Cambridge, espaço ocupado desde 2012 pela Frente de Luta por Moradia.

Aliás, foi lá onde ele conheceu alguns dos artistas estrangeiros e refugiados que viriam a compor o Museu do Estrangeiro em seu formato atual, realizando os primeiros trabalhos em colaboração.

Ainda que seu lugar de migrante nordestino tenha influenciado a busca pelo aprofundamento do tema, Ícaro reconhece que são poucas as semelhanças entre ele e os demais artistas envolvidos. "Todos saímos de um lugar para outro lugar, mas eu tive privilégios e possibilidades de um artista homem e branco. Não tenho muito sotaque, não sou à primeira vista identificado como nordestino. Claro, não foi fácil quando vim pra cá, mas sabia aonde ir se quisesse estudar ou mostrar meu trabalho. Eles não sabem. É muito mais difícil", compara o artista, que saiu de Fortaleza em 2007 e só de São Paulo já tem cinco anos.

Intercâmbio

O diretor e realizador audiovisual haitiano Akon Patrick, que tem o mesmo tempo morando na capital paulista, lança um olhar crítico para como as questões raciais são discutidas por aqui. "É bom de falar: existe racismo no Brasil. Mas, na prática, as pessoas que estão falando não fazem ação pra mudar essas questões no dia a dia. Esse é o grande problema. As pessoas pensam que sou radical, mas é a realidade", diz.

Há 19 anos, Patrick pesquisa sobre o tema, tendo viajado por quase todos os países dos continentes africano e americano. Mas o caso do Brasil é emblemático para ele.

"O Brasil não é um país que pensa como Brasil. Ele estuda mais sobre as concepções raciais europeias, considera negro como pessoa que não pode crescer, ter conhecimento. A arte aqui é muito embranquecida. No meu espaço de trabalho é difícil encontrar um negro, se eu vejo é na faxina, lavando pratos. Mesmo as políticas brasileiras, não tem negro discutindo, são brancos que estão tomando decisões", avalia o artista, que sentiu na pele essa exclusão.

"O que esse pretinho está fazendo aqui? Será que ele não sabe lugar dele? Você sente isso no cotidiano, nos lugares por onde passa. As pessoas acham que você é estranho porque é negro. No entanto, quanto mais dinheiro e conhecimento você tem, parece que menos negro aparenta ser", observa Patrick, que está com cinco vídeos sobre essas questões exibidos em sequência em uma televisão no Museu do Estrangeiro.

Ação

A estratégia de Patrick para combater esses preconceitos é exatamente a ação. "Não estou aqui exatamente pra criticar, mas para desmitificar. Criar mais do que falar. Minhas ações vão inverter esse processo. Enquanto artistas, precisamos ter uma mentalidade de psicopedagogo, para instruir o povo, fazer as pessoas tomarem consciência de que o que elas estão fazendo não é bom", defende. Um livro e alguns filmes de Akon logo estarão disponíveis para aprofundamento desta temática.

O contato com esses artistas, por sua vez, garante ao cearense Ícaro Lira modificações internas. "Acho que fica mais uma interrogação sobre o que é possível se fazer com o trabalho de arte, uma questão existente desde o início, mas que vai ficando sempre mais latente", pontua.

"O trabalho de arte tem alguma utilidade, serve para alguma coisa e afeta de alguma maneira uma estrutura ou alguém? Penso que esse trabalho, essa articulação com esses artistas modifica algo levemente e que talvez, com meu trabalho individual, eu não conseguisse atingir", acredita.

Com viagem marcada para 11 de outubro, Ícaro passará os próximos três meses em uma residência artística entre Nápoles, na Itália, e Berlim, na Alemanha.

"Acho que essa experiência de estar ali nesse momento político, da crise dos refugiados, pode me trazer questões novas", avalia. Em janeiro, ele retorna ao Brasil para o encerramento do 20º Festival de Arte Contemporânea Sesc_VideoBrasil e também para continuar a pesquisa, que parece estar apenas começando.

*A repórter viajou a convite do Sesc

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