Ensaio

O lirismo de Cecília Meireles

00:03 · 29.06.2013
Detentora de sensibilidade extremamente marcante, Cecília Meireles exalta um traço lírico singular: perda amorosa e solidão, tornando-se musa da literatura brasileira do século XX

A obra poética Viagem foi premiada pela Academia Brasileira de Letras em 1938, sendo publicada no ano seguinte, em Lisboa. A partir de então, Cecília Meireles consagra o ápice de sua carreira como escritora no período Modernista. Herdeira do Simbolismo, seus poemas são compostos de invocações abstratas e musicalidade, seus versos demonstram mais sugestão do que impressão. Carregado de melancolia e outras trajetórias espirituais, como sonho, tempo e solidão, os versos da obra são cantados com o predomínio de sete e oito sílabas métricas, incluindo os versos livres.

Introdução

"Retrato" é um poema formado de três estrofes de quadra, compostos por anáforas e versos livres, possui características simbolistas evidentes, pregando a realidade imagética. Pondo em evidência a subjetividade do eu lírico, passagem da vida e do tempo, o poema enaltece o sentido melancólico, assim como ocorre em muitos outros poemas deste livro "Viagem". (Texto I)

O poema se encaixa perfeitamente ao título, que simboliza algo parado, lembranças. No introito da leitura do poema "Retrato", percebemos na primeira estrofe, que o "eu" lírico remete ao que fora em outrora, declamando com tom de tristeza sua trajetória espiritual; descreve, de forma introspectiva, a expressividade de seu rosto, não como envelhecimento físico, mas sim como mortificação da alma.

Na segunda estrofe, podemos observar uma analogia entre passado e presente, usando as mãos como símbolos, exalta a força de antigamente; porém, hoje, não mais encontra consistência para lutar pela vida, o que permanece é um coração estático, sem luz. Na terceira e última estrofe, como nos demais versos acima, constatamos a transição da vida, fato que já parecia ser evidente, lhe causou indagações sobre sua existência; retrata num tom melancólico, mas sempre sereno, a fugacidade do tempo e da existência.

Motivo

O poema Motivo é uma metapoesia formada por rimas variadas, distribuídas em quatro quadras de versos livres, nas quais o sujeito poético canta a reflexão do seu "eu lírico" ao fazer analogia do seu próprio ato de escrever. (Texto II) No primeiro verso, o eu poético descreve sua arte de fazer poesias, afirmando que "não sou alegre nem sou triste: sou poeta", dessa forma, o prazer do seu "canto" independe do estado da sua alma, ele é a sua própria vida. Na segunda estrofe há uma inércia espiritual diante dos fatos, "não sinto gozo nem tormento", o estado de sua alma, não altera sua trajetória como poeta.

Na terceira estrofe, o "eu" parece passivo às coisas da vida, deixando-se levar pela transitoriedade dos fatos, como tudo é fugaz, não encontra respostas para as reflexões da vida. Na quarta e última estrofe, a única coisa que se tem como certeza em sua existência é que eterna é a poesia; como sendo ela o motivo de seu viver, o sujeito poético parece desvendar as indagações dos versos anteriores, ao proferir no primeiro e últimos versos "Eu canto", "Sei que canto. E a canção é tudo", constatando que seu ser se vai, que o poeta é efêmero, mas a sua poesia ficará eternizada.

Canção

Em tom bastante melancólico e surrealista, o poema Canção é declamado em cinco estrofes de quatro versos livres, entre rimas toantes e consoantes. Através da alegoria do navio, o eu poético fala, então, de seus sonhos que foram abandonados no decorrer da vida e a dor inexorável que isso lhe causara. (Texto III)

Transitando o mundo interior do "eu", na primeira estrofe, o sujeito poético se apropria da alegoria de um navio naufragando para relatar sua dor ao se desvencilhar de um desejo que, embora lhe pareça demasiado importante, lhe chegou o momento de desatar. Na segunda estrofe, fazendo ligação entre o abstrato e o concreto, há uma relação das "mãos" que tocam o "azul das ondas", porém, o que escorre de suas mãos ao tocá-las, não é mais o azul do amor, mas, sim, o processo da morte dos sentimentos que ainda estão entreabertos.

Na estrofe seguinte, usando a metáfora do tempo, ao proferir "o vento vem vindo de longe", o eu lírico pressente um sofrimento causado pela separação, o frio que virá de sua alma, enquanto seus devaneios estão naufragando. Na quarta estrofe, o eu poético demonstra não medir esforços para abandonar de vez o passado, e, através das supostas lágrimas, aforará a tristeza que persiste em seu mundo interior. No último verso desta estrofe, temos em "meu sonho", um egocentrismo em relação ao desejo, ele faz parte somente da vida do eu lírico, não existe a presença do "Outro".

Na estrofe final, o navio chegou ao fundo, seu interior é uma "praia lisa, águas ordenadas", já não mais existe a angústia de ver seu sonho sendo submergido, restando-lhe, apenas, os "olhos secos como pedras", pois neles não reluzem mais as ilusões de antes. As "mãos quebradas" o impossibilita de resgatar o navio do do fundo do mar, ssim, permanecerá a ausência da inefável lembrança.

FIQUE POR DENTRO

Aspectos gerais da poetisa e de sua obra

Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro, em 1901. Poetisa, pintora, professora e jornalista, é detentora de um lirismo de grande influência na literatura brasileira e considerada um dos maiores renomes do período modernista. Entre prosa e poesia, possui mais de 50 obras divulgadas, sendo que Espectros foi seu primeiro livro de poesia a ser publicado em 1919, quando tinha apenas 18 anos de idade. Em 1938, a autora foi premiada pela Academia Brasileira de Letras, Prêmio Poesia, a atribuição veio graças à magnífica obra poética Viagem, na qual só divulgou no ano seguinte. Vindo a falecer no ano de 1964, recebeu no ano seguinte, post mortem, o Prêmio Machado de Assis, em homenagem ao todo de sua obra. Quer na prosa, quer na poesia, é intensamente lírica, desenvolvendo abandono e soildão.

Trechos

TEXTO I

Eu não tinha este rosto de hoje, /assim calmo, assim triste, assim magro, /nem estes olhos tão vazios, /nem o lábio amargo. ///Eu não tinha estas mãos sem força, /tão paradas e frias e mortas; /eu não tinha este coração que nem se mostra. ///Eu não dei por esta mudança, /tão simples, tão certa, tão fácil: / - Em que espelho ficou perdida a minha face?

TEXTO II

Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa. / Não sou alegre nem sou triste: / sou poeta. /// Irmão das coisas fugidias, / não sinto gozo nem tormento. / Atravesso noites e dias / no vento. /// Se desmorono ou se edifico, / se permaneço ou se desfaço, / - Não sei, não sei. Não sei se fico / ou passo. /// Sei que canto. E a canção é tudo. / Tem sangue eterno e asa ritmada. / E um dia sei que estarei mudo: / mais nada.

TEXTO III

Pus o meu sonho num navio / e o navio em cima do mar; / - depois, abri o mar com as mãos, / para o meu sonho naufragar. /// Minhas mãos ainda estão molhadas / do azul das ondas entreabertas, / e a cor que escorre dos meus dedos / colore as areias desertas. /// O vento vem vindo de longe, / a noite se curva de frio; / debaixo da água vai morrendo / meu sonho, dentro de um navio... /// Chorarei quanto for preciso, / para fazer com que o mar cresça, / e o meu navio chegue ao fundo / e o meu sonho desapareça. /// Depois, tudo estará perfeito: / praia lisa, águas ordenadas, / meus olhos secos como pedras / e as minhas duas mãos quebradas.

NATALI DE MORAES SILVA
COLABORADORA*

*Graduanda em Letras na Uece

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