Teatro

O íntimo como mote criativo

O grupo teatral Achados & Perdidos se apresenta hoje, no Dragão do Mar, com o espetáculo "Cenas Esquecidas"

00:00 · 10.11.2015 por Felipe Gurgel - Repórter
Image-0-Artigo-1964754-1
Espetáculo "Cenas Esquecidas" inclui memórias dos próprios atores ( Foto: Karla Brito/ Divulgação )

Em "Cenas Esquecidas", do grupo Achados & Perdidos de teatro, o ator busca a interpretação dentro de si. A peça reúne uma sequência de cenas baseadas nas memórias de cada um dos atores. São histórias de vida que tornam-se ficções momentâneas, ao mesmo tempo que esse histórico é "mexido" e transformado no íntimo de Andrei Bessa, Danilo Castro, Edivaldo Batista e Keka Abrantes.

O Achados & Perdidos cumpre temporada no Teatro do Dragão do Mar (CDMAC), em cartaz todas as terças deste mês de novembro. Com "Cenas Esquecidas", nesta sequência, os quatro sobem ao palco somente hoje, às 20h. E nesta semana, eles ainda apresentam o mesmo espetáculo na próxima quinta (12), às 15h, no Cuca Mondubim, com acesso gratuito.

Na peça, o discurso de memória é recorrente, sem, no entanto, soar individualista ou alienado. Procura, indiretamente, alcançar as memórias da própria plateia, que se inquieta por dentro, como se fosse uma experiência terapêutica.

"Eu lembro que era domingo de Páscoa, de 2002... A data exata não lembro. Tinha 18 anos e não sabia nada sobre a vida, embora achasse que soubesse muito mais do que um bando de garotos da minha idade", diz, em cena, Danilo Castro, o que muita gente contaria sobre a adolescência.

Ele coloca que, no palco, o envolvimento emocional com a própria história e a atuação se combinam, sem separações. "Em cena, não temos personagens, nem nossas falas são prontas, escritas em papel. Temos um roteiro, mas não falas amarradas, cristalizadas, como no teatro tradicional", situa.

O ator observa que a história de cada um do grupo inspira poesia. "A gente se lança diante do lirismo de nossas próprias vidas. Poetizando em cena as nossas histórias. Tem um caráter bem performático. E cada vez mais a gente está se conhecendo, se gostando mais, se entendendo mais nisso, nessa pesquisa, nessas experimentações", conta Danilo.

Como o texto de "Cenas Esquecidas" não se amarra tanto, a entrega de cada um dos atores "flui" em sintonia com seu estado emocional no momento presente, no instante da cena. "Mais do que observar o que é produção do ator e o que é 'real', entro em cena sempre na tentativa de ser honesto com o que sinto", revela Andrei Bessa.

Psicologia

A dinâmica do espetáculo dialoga com as terapias que exploram a dramaturgia para tratar conteúdos do passado vivido pelos pacientes, como é o caso do psicodrama e da constelação familiar. Andrei detalha que a semelhança não foi intencional e o referencial da psicologia não passou pela pesquisa do grupo.

"Parte da minha família faz constelação e sempre me falam sobre a aproximação com a obra artística do Achados & Perdidos. (Mas) se escolhêssemos apenas uma forma de tratar com esse material emocional/sensorial, podaríamos a obra de seguir para diversos caminhos", esclarece o ator.

Danilo Castro recorda que, a partir dessa semelhança, "um grupo de psicodramistas nos assistiu e ficou impressionado com o trabalho, em julho de 2012. Nós não sabíamos disso, nem pensamos em estudar isso. Mas, de fato, hoje nossas dores, traumas e questões estão bem mais maduras em nós mesmos após utilizarmos nosso íntimo como mote criativo".

Pesquisa e retrospecto

A questão da memória, segundo Andrei Bessa, sempre foi "cara" para os atores do grupo, embora nenhum deles traga, na bagagem, algum estudo formal ou acadêmico sobre o tema. "Quando o projeto iniciou, eu estava em relação com a memória das minhas avós. Uma estava no estado avançado do (mal de) Alzheimer, e outra com a doença de Huntington. Uma já não guardava qualquer memória e outra estava completamente consciente, mas seu corpo não a permitia se comunicar", diz.

"Esse momento foi decisivo para a forma com que me aprofundei no tema da memória", complementa Andrei. Danilo Castro contextualiza que "Cenas Esquecidas" trata-se do material que foi "descartado" do espetáculo "Obra Cênica #1". Ele pontua a distinção entre as peças: "o (Cenas) tem um tom bastante delicado, diferente da Obra (Cênica), que é mais violenta, ácida".

Apresentando "Cenas Esquecidas" desde 2012, Andrei Bessa recapitula como a atuação dos atores encontrou ressonância no público que já os viu em cena.

"Nesses momentos sempre surgem declarações, revelações, abraços, troca de sentimentos. Fizemos uma (apresentação) com a plateia só com crianças, praticamente. As perguntas e o envolvimento dos pequenos foi completamente diferente e significante para nós", reflete o ator Andrei Bessa.

Mais informações:

Espetáculo teatral "Cenas Esquecidas", do grupo Achados & Perdidos (CE). Hoje, às 20h, no Teatro do CDMAC (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 6. Dia 12 (quinta), às 15h, no Cuca Mondubim (R. Santa Marlúcia, s/n, Mondubim). Gratuito. 14 anos. Contato: (85) 3488.8600

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.