ROMANCE

O império da tecnologia sobre o cotidiano

00:27 · 16.03.2013
A conclusão de um romance inacabado pelas mãos de um outro autor não constitui algo que provoque estranhamento

Quando imperavam nos jornais os folhetins, era comum a produção de romances a partir de dois ou mais autores; nesta caso, o primeiro capítulo da trama, escritor por um autor, era continuado por outro, até o momento que o texto voltasse às mãos do primeiro. Não faz muito tempo, o conto "A metamorfose", de Franz Kafka, foi reescrito por diversos contistas para uma edição em homenagem a uma data comemorativa dessa imensa e sempre intrigante criação literária.

Detalhe da capa do romance "micro", escrito por Michael Crichton e Richard Preston; este dá continuidade à criação daquele, após a morte que o ceifou em 2008. A trama envolve bioterrorismo e os elementos do mundo tecnológico


Neste romance, "Micro", repete-se o fenômeno: Michael Crichton, cuja boa parte da obra foi adaptada para o cinema, como, por exemplo, "O parque dos dinossauros"; ele também foi o criador da série para a televisão "Plantão Médico". No auge de sua carreira como escritor de ficção científica, faleceu em 2008, quando se dedicava à redação desse romance, que, agora, recebe a continuação das mãos de Richard Preston, famoso por suas narrativas sobre epidemias.

O ponto de partida

O que está em primeiro plano, neste romance, é a problemática do bioterrorismo. Por conta disso, "Micro" diz de um universo que apresenta uma composição dualista, uma vez que é pequeno demais para ser visto a olho nu, no entanto perigoso e ameaçador por demais para ser ignorado: "O que vocês estão vendo são padrões de convecção em campos magnéticos que se aproximam em força a 60 Tesla - disse - são os campos magnéticos mais intensos gerados pelo homem. Para que vocês tenham uma ideia, um campo magnético de 60 Tesla é dois milhões de vezes maior que a força do campo magnético da Terra. São campos criados pela supercondução criogênica por meio de materiais compostos à base de nióbio." E ressalta que tais campos magnéticos afetam os tecidos de animais de diversas maneiras, pois promovem cura de ossos, inibem parasitas, modificam o comportamento das plaquetas, mas são efeitos secundários, já que ninguém até agora sabe as verdadeiras mudanças dimensionais da matéria.

O enredo

O principiar-se da trama tem como espaço o sofisticado e selvagem mundo das grandes corporações. Nesse sentido, num escritório trancado nos arredores de Honolulu, no Havaí, três corpos são encontrados, sem quaisquer sinais de luta, a não ser cortes ultrafinos no corpo.

A cena do crime não apresenta, em nenhum de seus lugares, instrumentos ou armas que sejam capazes de produzir tão estranhos ferimentos, tampouco existem quaisquer sinais de arrombamento. Mas assoma algo que, no mínimo, provoca curiosidade: há um robô microscópico, armado com lâminas, e praticamente invisível a olho nu.

A trama

Na floresta de Oahu, dá-se início a uma revolucionária prospecção biológica: descobrem-se trilhões de micro-organismos e milhares de espécies de bactérias. Em Cambridge, sete estudantes são recrutados para uma pesquisa pioneira em microbiologia. Seguem para o Havaí, levando consigo a promessa de que terão acesso a instrumentos que poderão ser a porta para uma nova fronteira científica. Mas o que encontram em Oahu é uma natureza hostil, deparando, a cada momento, com perigos intensos e surpreendentes.

Considerações finais

Veem-se, de repente, cobaias, de uma nova tecnologia, com um poder radical e desenfreado. Enquanto tema, a narrativa trata do embate entre as forças da natureza e as da tecnologia; isto é, explora não só os limites que se inscrevem entre essas duas instância, mas, também, o fascínio que as forças da natureza exercem sobre o homem, pois este, ao longo de seu percurso, sempre procurou subjugá-la.

LIVRO

Micro
Crichton & Preston
ROCCO
2013, 416 Páginas
R$ 49,50

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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