Ensaio

O imagético no discurso do poeta

00:08 · 27.07.2013
O poema "O Espelho"é composto por quatro estrofes, uma com cinco versos, duas com quatro e a última com apenas três versos: (Texto V).

O eu lírico revela aí suas lembranças de outrora, volta ao passado em tudo era diferente, quando era jovem, tempo em que enxergava o mundo por lentes menos pesadas, que não se preocupava com o tempo, porque este, não lhe incomodava. A descrição feita nesse retomar cronológico provoca-lhe o sentimento de nostalgia, tal era sua despreocupação que o tempo estava parado, ele não o sentia correr. Como se estivesse diante de um espelho mágico e se teletransportasse, se rejuvenescesse tanto física como espiritualmente. Quintana parece desenhar o cenário como se os retratos que via na parede fossem também a imagem do tempo.

A linguagem utilizada é marcada pelo uso de metáforas. Enfático na imagem da lembrança. Quando diz que viu uns retratos na parede podemos ver que já havia uma saudade naquele tempo, já que as fotografias penduras naquela "parede da memória" já simboliza esse sentimento, ou seja, era um voltar ao tempo em que já se sentia falta daquilo que estava emoldurado. A saudade no presente é então, dado o retrato temporal, é uma saudade bastante dorida.

A identidade lírica

O Autorretrato é um poema composto por quatro simétricas estrofes: (Texto VI)

Neste poema, em que a entidade lírica, provoca o riso no desfecho, há aliterações quanto à repetição de algumas letras, palavras e expressões, o que caracteriza musicalidade do poema. O retrato é a representação da imagem da vida, a imagem por sua vez, necessita de visão, que para além do sentido de ver, se modifica se movimenta pelos diferentes olhares. O autorretrato, é uma representação pessoal, individual de cada ser.

No poema, Mário Quintana deixa a perceber que o retrato que o eu lírico faz de si é um construto esboçado pouco a pouco, que somatiza o ser que se foi, o que é e o que se pretende ser. Questiona o que será desse construto, que imagem legará de si.

Mas antes do questionamento podemos compreender pelo que foi dito que a imagem do eu lírico, está em tudo aquilo que ele cria, que sua obra é indissociável de seu ser, o identifica por que seus traços que nela ficam. Todavia não se perde a noção de construção. Um retrato em movimento, um dinâmico olhar para dentro na tentativa de externar aquilo mais próximo, mais semelhante de si. Na última estrofe quando se pergunta como será lembrado ele mesmo responde: "Um desenho de criança..." Sem perfeição, mas com pureza de quem acreditou com sinceridade de que sempre podia melhorar.

O sujeito lírico encerra deixando evidente que muitos não terão a sensibilidade para compreendê-lo, julgando seus feitos sem alcançar seus fatos.

Das fragilidades

O poema "Retrato" contém cinco estrofes, a primeira com cinco versos, a segunda com três versos a terceira e quinta com um verso e a quarta com dois versos: (Texto VII).

No poema "Autorretrato" fica-nos a ideia que construção (em vida) da imagem do ser poético. Diferentemente, neste também imagético poema "Retrato" verificamos o retrato como símbolo do resultado final da vida, imagem por fim concluída. Está pronto para se pendurado na parede: o seu retrato está completo.

Portanto, só a morte completa a imagem da vida. Porém, esse desenho - grafia da vida - será guardado e visto de diferentes formas. A lembrança gráfica conduzirá as reminiscências particulares. O eu lírico percebe o retrato pelo tempo recente. Notamos isso pela descrição do morto e pela temporalização do fato descrito no verso inicial da primeira estrofe: Morreu ontem. O morto era um homem velho de idade avançada, talvez doente, alguém próximo da morte. As metáforas construídas na quarta e na quinta estrofes dão conta de um senhor que muito velho realmente e que todos em sua volta já "aquela a hora" de pendurar-lhe como lembrança, pouco se ouvia voz dele, como se qualquer balbucio fosse um sinal de alerta ou, quando não, de resistência à morte.

A prosopopeia

No poema "Paisagem" encontram-se quatro estrofes, três compostas por dois versos (dísticos) e uma por um verso apenas (monóstico): (Texto VIII).

Neste poema, o poeta começa pela personificação do sol e da sombra. Esse recurso de atribuir características ou ação humanas a seres inanimados é um modo expressivo bastante utilizado na literatura. Depreendemos pela primeira estrofe que o passar do tempo alternando dias e noites dá ideia de uma visão (paisagem) que se repete. O sol simboliza a vida tal como a sombra simboliza a morte, sendo assim podemos entender o dia como a vida e noite como a morte. Durante o dia tudo acontece, as pessoas estão acordadas. No período noturno as pessoas dormem e dormir é um tipo de morte reversível. Na segunda estrofe, Quintana se vale novamente da personificação, desta vez, relacionada a água e a reitera no terceiro dístico. Podemos ainda interpretar a paisagem descrita como um sonho do poeta retratado em forma de poema. E como um sonho, abre-se espaço para qualquer fantasia. O canto das águas pode o som da maré, o barulho de uma cascata ou qualquer queda d´água. O morto pode tratar-se de alguém que se afogou e por isso ele inocenta as águas.

A metapoesia

O poema "Emergência" é composto por duas estrofes, uma com seis versos (sextilha) e outra com somente um verso (monóstico): (Texto IX).

O poema "Emergência" é na verdade um metapoema. O eu lírico justifica o que para ele é motivo para fazer poesia. O poema é uma forma de libertação das angústias. A janela aberta é a via de acesso para um mundo novo. O poeta ancorado no seu lirismo, defendendo sua prática se dirige a alguém - tu, segunda pessoa do singular - como nunca conversa de desabafo e desabafa através do poema. Diz ainda que o ritmo dos poemas permite que se respire profundamente. Esse respirar é encher-se de vida, de sentidos, é perceber sua razão de ser. Na conclusão do poema: Quem faz um poema salva um afogado, Quintana justifica dessa forma sua "Emergência". (A.E.N.)

SAIBA MAIS

CHOCIAY,
Rogério. Teoria do verso. São Paulo: McGraw do Brasil, 1974.
FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Liv. Duas Cidades, 1978
PAZ, Octavio. Signos em rotação. . São Paulo: Perspectiva, 1990
PERRONE-MOISÉS, Leyla. Texto, critica, escritura. São Paulo: Ática, 1978
QUINTANA, Mário. Apontamentos de História Sobrenatural. São Paulo: Globo, 2002

Trechos

TEXTO V

E como se passasse por diante do espelho / não vi meu quarto com as suas estantes / nem este meu rosto / onde escorre o tempo. /// Vi primeiro uns retratos na parede: / janelas onde olham avós hirsutos / e as vovozinhas de saia-balão / como pára-quedista às avessas que subissem do / fundo do tempo. /// O relógio marcava a hora / mas não o dizia. O Tempo, / desconcertado, / estava parado. /// Sim, estava parado / em cima do telhado... / como um catavento que perdeu asas!

TEXTO VI

No retrato que me faço / - traço a traço - / às vezes me pinto nuvem, / às vezes me pinto árvore... /// às vezes me pinto coisas / de que nem há mais lembrança... / ou coisas que não existem / mas que um dia existirão... /// e, desta lida, em que busco / - pouco a pouco - / minha eterna semelhança, /// no final, que restará? / Um desenho de criança... / Corrigido por um louco!

TEXTO VII

Morreu ontem. / Portanto, o seu retrato está completo. / A longa vida - sabe Deus com que trabalho - / deixou-nos, na lembrança, / por final, / em companhia de um velhinho suave... /// Mas um velhinho suave como os couros gastos, / as madeiras polidas pelo uso, / como os seixos rolados /// - suave e rijo! /// Sua voz grave e trêmula tinha o som do tempo / e nós sempre nos espantávamos de a estar ouvindo /// porque era como se alguém tangesse o silêncio.

TEXTO VIII

Sol e sombra brincavam de esconder / sobre o rosto do primeiro morto. /// Perto dele, cantavam as águas, / porque ainda apenas sabiam cantar. /// Cantavam as águas inocentemente / sua canção de continuar... /// - e ele também não sabia de nada!

TEXTO IX

Quem faz um poema abre uma janela. / Respira, tu que estás numa cela / abafada, / esse ar que entra por ela. / Por isso é que os poemas têm ritmo / - para que possas, enfim, profundamente respirar. /// Quem faz um poema salva um afogado.

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