História

O horror entre muros: um tétrico espetáculo

00:40 · 10.08.2013
O gênero livro-reportagem aproxima a realidade do horror mais inerente aos textos ficcionais

O historiador Jacques Le Goff entende que o passado é uma construção e uma reinterpretação constante e tem um futuro que é parte integrante e significativa da História. Nesse sentido, a interação entre passado e presente é o que se compreende como sendo a função social do passado ou da História, isto é, a organização do passado em função do presente. Por conta disso, a historiografia se inscreve como sequencia de novas leituras do passado, cheia de perdas bem como de ressurreições, falhas de memória e, evidentemente, revisões.

Detalhe da capa do livro "Holocausto Brasileiro: genocídio - 60 mil mortos no maior hospício do Brasil", de Daniela Arbex, com prefácio de Eliane Brum. Trata-se de um livro-reportagem, fundamental para a memória do País

Durante um significativo espaço de tempo, quando do século passado, milhares de pacientes foram internados contra a própria vontade no maior hospício de nosso país, que ficava na cidade mineira de Barbacena, conhecido como "Colônia", por motivações as mais diversas, mas em todos os casos uma nota comum: a ausência de diagnóstico médico que comprovasse a existência de uma doença mental: "Apesar do tamanho, o complexo não podia ser visto do lado de fora, por causa da muralha que cercava todo o terreno. Lá dentro, a dimensão daquele espaço asperamente cinza, tomado por prédios com janelas amplas, porém gradeadas, impressionava". (p.22). Aí se depositam vítimas.

O elemento-chave

A reconstrução, peça a peça, daquele espaço de horror delineia, página a página, o retrato de um genocídio, cujo mentor foi o Estado brasileiro, com a devida cumplicidade de médicos, enfermeiros, funcionários e, evidentemente, da sociedade como um todo, pois, a rigor, nenhuma violação dos direitos individuais se prolonga por tanto tempo sem que as pessoas compactuem com isso, quer pela indiferença, que pela deliberada omissão: "Retirado do convívio social por quase meio século, ele (Antônio) jamais poderia imaginar que agora era o dono do seu tempo e que tinha ele mesmo o poder de clarear ou escurecer o ambiente com um simples toque no interruptor. Além de nunca ter visto um apagador de luz, ser dono de si era uma novidade para quem viveu décadas de institucionalização". (p.33) Mas, o leitor verá que, desvencilhar-se da Colônia foi uma experiência tão difícil quanto a troca de endereço. É que o hospital já se encontrava em suas entranhas, como uma chaga que se renova incessantemente: "Olhava ao redor para ver onde estava e descobria que os eletrochoques com os quais sonhava ainda o mantinham prisioneiro da Colônia". (p.33) Assim, livre era acorrentado por pesadelos.

A crueza

A autora registra que pelo menos 60 mil pessoas morreram entre os longos muros que encastelavam a Colônia. Dentre estas, a esmagadora maioria não era portadora de doenças mentais, tão somente faziam parte de determinados grupos que provocavam incômodos a setores da sociedade ou da própria família: alcoólatras, homossexuais, epiléticos, rebeldes, empecilhos a interesses de ordem econômica, como, por exemplo, casos de herança; havia, também, moças de famílias de relevância social que, em aventuras amorosas, perdiam a virgindade e, por conseguinte, a possibilidade de casamento; uns apenas tiveram extraviados os documentos; muitas mulheres ali foram internadas por maridos que pretendiam uma nova relação. Muitos ali morreram de frio, de fome, de doenças as mais diversas ou ceifados por sucessivos choques elétricos.

Considerações finais

Muitas são as representações do horror: em noites de muito frio, os pacientes eram lançados ao relento, completamente nus, quando não, cobertos por andrajos. Quando chegavam, pela primeira vez, ao hospício, tinham raspadas as cabeças, as identidades eram destruídas, e eles passavam a ser chamados por nomes que os funcionários lhes atribuíam de modo aleatório. Neste lugar nefasto, a morte também se convertia em matéria de lucro, uma vez que os corpos eram vendidos a faculdades de Medicina, sem que um questionamento qualquer fosse apresentado. Os muros escondiam um triste espetáculo.

LIVRO

Holocausto Brasileiro
Daniela Arbex
GERAÇÃO
2013, 276 Páginas
R$ 39,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.